Brittany Greeson para The New York Times
Brittany Greeson para The New York Times

Médicos céticos impedem tratamento que previne danos cerebrais causados por AVCs

Estudos de um pesquisador americano mostram que os trombolíticos são eficazes contra danos causados por acidentes vasculares cerebrais, mas muitos profissionais da saúde ainda se negam a receitá-lo

Gina Kolata, The New York Times

02 Abril 2018 | 10h15

Foi uma descoberta que mudaria a medicina, reflete o médico Christopher Lewandowski.Durante anos, médicos tentaram encontrar um tratamento que preservasse os cérebros de pacientes com AVC. Estava começando a parecer irremediável: uma vez que um coágulo bloqueava um vaso sanguíneo que supria o cérebro, as células do cérebro rapidamente morriam. Os pacientes podiam apenas rezar para que os danos não fossem muito extensos.

Mas então um grande estudo clínico provou que uma droga conhecida como trombolítico, um ativador do plasminogênio tecidual (tPA.), poderia prevenir a lesão cerebral após um AVC ao abrir o vaso bloqueado.

Lewandowski, um médico do setor de emergência em Detroit e principal pesquisador do estudo, estava em êxtase. “Sentimos que os dados eram tão fortes que não precisávamos explicá-los” no relatório publicado, disse.

Ele estava errado. O estudo clínico foi concluído há 22 anos, mas Lewandowski ainda continua tentando explicar os dados para os que duvidam. Os céticos ensinam aos estudantes de medicina que o tPA é perigoso e que os estudos que encontraram um benefício estavam profundamente incorretos. Melhor deixar um AVC seguir seu curso, eles dizem.

Somente nos Estados Unidos, cerca de 700 mil pacientes têm AVC causados por coágulos sanguíneos a cada ano e poderiam ser ajudados pelo tPA. No entanto, até 30% daqueles que são candidatos aos trombolíticos não os recebem. O resultado: paralisia e fraqueza muscular; cognição, fala ou visão prejudicados; e outros danos permanentes.

As diretrizes para o tratamento do AVC estabelecidas pela Associação Americana do Coração e a Associação Americana do AVC recomendam fortemente o tPA. Mas o tratamento deve começar dentro do prazo de três horas.

A droga pode causar ou exacerbar a hemorragia cerebral, ou o sangramento no cérebro. Mas na maioria dos pacientes com AVC, ela previne danos cerebrais. Sem o tratamento, “muitos pacientes acabam permanentemente incapacitados”, disse Gregg C. Fornarow, cardiologista da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. “Os neurologistas que tratam AVCs estão envolvidos em cuidados crônicos e veem consequências devastadoras”.

“Por alguma razão, os médicos do setor de emergência não estão levando isso em consideração”, comentou.

Charles R. Wira III, professor de medicina de emergência na Universidade Yale, disse que quando conversava com seus residentes sobre o tPA, eles frequentemente começavam a citar blogs e podcasts “como a palavra divina para o porquê de o tPA ser prejudicial”, disse. “Eles não leram os artigos ou as diretrizes de prática.”

Edward C. Jauch, professor de neurociências na faculdade de medicina da Universidade da Carolina do Sul, explicou que o ceticismo se espalhou. Na Arábia Saudita, onde estava palestrando em uma conferência, um médico saudita disse que não acreditava no tPA.

Um líder do contingente cético, Jerome Hoffman, professor emérito da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, acredita que embora o estudo inicial e o segundo tenham sido positivos, ambos estavam equivocados. Ele concluiu que a maioria dos pacientes que receberam o tPA teve o tipo menos grave de AVC - e foi menos afetada desde o início. Especialistas discordam.

Hoffman explicou que conversou com pacientes com AVC que estavam no pronto-socorro e lhes disse que embora a equipe médica recomendasse o tPA, havia um debate se o tratamento beneficiaria os pacientes no longo prazo. “Na minha experiência, quase ninguém - depois de ouvir uma versão neutra e depois uma positiva - escolheu o tPA”, diz ele.

Em San Luis Obispo, na Califórnia, Scott Bisheff, médico do setor de emergência, diz aos pacientes que há muitas dúvidas sobre o tPA. Aproximadamente metade de seus pacientes recusam o tratamento, diz Bisheff.

Há cerca de uma década, Lewandowski recebeu um telefonema avisando que seu pai havia sofrido um AVC. Ele tinha chegado ao hospital em 45 minutos, bem dentro da janela para receber o tPA. Lewandowski disse à sua mãe para deixar claro que eles queriam que o médico desse trombolíticos a seu pai. Mas o profissional se recusou. “Ele disse à minha mãe que não acreditava na droga e que não a receitaria”, contou Lewandowski.

Ele dirigiu 640 quilômetros até o hospital, mas quando chegou lá, a janela havia se fechado. Seu pai teve uma queda facial e ficou com a fala arrastada. Seu braço e perna direitos tremiam inutilmente. Seu derrame foi moderadamente incapacitante, mas ele sobreviveu por mais alguns anos.

Foi muito difícil para mim pessoalmente”, recordou Lewandowski. “Senti como se tivesse decepcionado meu pai”.

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