Stanislava Novgorodtseva para The New York Times
Stanislava Novgorodtseva para The New York Times
Andrew E. Kramer, The New York Times

31 de maio de 2019 | 06h00

OKULOVKA, RÚSSIA - Com a cabeleira branca e as mãos delicadas de um cirurgião, Yuri I. Korovin não parece se encaixar na típica imagem de manifestante nas ruas russas. Mas, levado a agir por seu salário baixo e cada vez menor, Korovin se juntou recentemente a colegas em uma greve organizada por um sindicato de médicos formado recentemente.

A greve e os protestos nas ruas, realizados por médicos e paramédicos das equipes de ambulâncias, estiveram entre as dúzias de manifestações trabalhistas observadas recentemente na Rússia por causa de problemas como coleta do lixo, má qualidade das estradas e do sistema de saúde.

Por enquanto, poucos esperam que os protestos tragam grandes mudanças, pois o presidente Vladimir Putin ainda goza de ampla popularidade. Mas, depois de cinco anos de queda nos salários, ajustados pela inflação, os russos estão percebendo a dissociação entre a ascensão da Rússia no exterior e a estagnação de sua economia doméstica.

A Rússia ocupa o 73.º lugar no ranking global de PIB per capita, entre Seicheles e Grécia. Em uma medida dos tempos difíceis enfrentados por muitos no país, a agência estatal de estatísticas da Rússia divulgou este ano um levantamento mostrando que cerca de um terço dos russos não teria dinheiro para um par de calçados extra para o inverno. 

“O que está acontecendo é muito natural", disse a cientista política Ekaterina Schulmann. “A piora nas condições econômicas e a queda nos salários estão azedando a opinião pública.” Um dos problemas que estão ganhando destaque particular é o empobrecimento dos médicos na zona rural da Rússia, como Korovin, que vive em Okulovka, Novgorod.

Korovin, que recebe cerca de US$ 8.670 por ano, além de horas-extra por operações de emergência, tratou recentemente um paciente que tinha sido esfaqueado no abdômen inferior. Por essa operação de uma hora e meia, realizada fora do horário de trabalho, o hospital, financiado pelo programa de seguro de saúde administrado pelo governo da Rússia, pagou a Korovin 500 rublos, ou US$ 7,70.

Na sua greve, médicos e enfermeiros exigiram que as autoridades locais cumprissem um decreto assinado por Putin determinando que os médicos recebam o dobro do salário médio das regiões em que trabalham. Na região de Novgorod, o dobro do salário anual médio seria 744.000 rublos, ou US$ 11.448, muito acima do salário de Korovin. “Votei em Putin; todos nós votamos em Putin", disse Korovin, último cirurgião restante na cidade. Mas seu salário, que nunca foi grande coisa, caiu ainda mais, disse ele. “Nunca pensei que teria de protestar.”

As greves dos médicos ainda não foram recebidas com uma repressão mais rigorosa. Os médicos perguntam: se forem demitidos ou detidos, quem vai assumir seus lugares? Cada vez mais, a resposta é: ninguém. Os médicos já estão deixando cidades provincianas e menores em grandes números, ansiosos pelas regiões de salários mais altos perto das principais cidades. Na região de Novgorod, os hospitais já têm 229 vagas em aberto para médicos, de acordo com um vereador da capital regional.

Em um dia recente, Korovin examinou um senhor que tinha quebrado uma costela em uma queda. Também cuidou do corte no pé de um homem. Minutos após a chegada de um repórter ao hospital, a polícia e um vereador da cidade vieram ao local - mas acabaram tomando o partido de Korovin.

Korovin, 61 anos, diz acreditar que já tratou todos na cidade, em um momento ou outro, incluindo o vereador em questão, Andrey Karpushenko, cujo apêndice ele removeu alguns anos atrás. Os dois trocaram lembranças da ocasião. “É claro que precisamos oferecer salários melhores", disse Karpushenko. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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