Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times

Médicos sírios enfrentam obstáculos na Alemanha

Regras complexas afastam estrangeiros e refugiados dos empregos na medicina

Melissa Eddy e Karam Shoumali, The New York Times

14 Setembro 2018 | 10h00

HEIDE, ALEMANHA - Quando Ayham Ebrahim fugiu da guerra na Síria em 2016 e foi viver com a mulher, uma pediatra, na Alemanha, ele ansiava por continuar a carreira como clínico geral.

Mas depois de chegar ao país que lhes estava oferecendo refúgio, em vez de encontrar um sistema ansioso para empregar seus talentos, Ebrahim disse ter encontrado obstáculos e atrasos que o deixaram desestimulado, desmoralizado e frustrado.

Foram necessários meses até que ele pudesse iniciar o processo de solicitação de status de refugiado. Isso atrasou o início de suas aulas de alemão, obrigatórias. Então, ofereceram à mulher dele um emprego temporário num hospital de pesquisas em Heide, cerca de 80 quilômetros ao oeste de Kiel, capital do estado de Schleswig-Holstein. Assim, ele foi morar com ela no norte do país. Mas não havia aulas profissionais de alemão na cidade menor, obrigando-o a viajar duas horas na ida e na volta para completar o curso.

"Tem sido muito difícil", disse Ebrahim, pouco depois de começar a trabalhar como estagiário na clínica West Coast, em Heide. "No trem, a caminho das aulas, houve momentos em que pensei em desistir".

Os economistas preveem que, já em 2020, a Alemanha pode enfrentar uma escassez de 1,8 milhão de trabalhadores capacitados em postos de trabalho tão diferentes como de médicos, garçons e faxineiros de hotel. Espera-se que os profissionais de medicina estejam entre os trabalhadores estrangeiros mais procurados na Alemanha nos próximos anos.

Ainda que nenhum país permita que médicos estrangeiros trabalhem em seu território sem antes garantir que eles atendam aos padrões locais, os sírios na Alemanha se queixam das complicações do sistema: há diferentes conselhos de credenciamento em cada um dos 16 estados do país, que, de acordo com eles, têm critérios diferentes entre si, e o tempo de espera entre os exames de admissão pode chegar a meses.

Nos anos transcorridos após a chegada de mais de um milhão de refugiados à Alemanha, foi debatida a questão da contribuição dos recém-chegados para a maior economia da Europa. Números recentes mostram que eles podem contribuir - se os alemães permitirem.

De acordo com dados da Agência Federal do Trabalho da Alemanha, em maio, 306.570 refugiados - mais de um quarto de todos os inscritos - tinham empregos que contribuíam para o sistema de bem-estar social. Embora isso seja apenas uma fração dos 63% da população alemã que trabalham em período integral (44,94 milhões), o número está aumentando.

O governo da chanceler Angela Merkel planeja facilitar a busca de trabalho para os estrangeiros na Alemanha. Uma proposta inicial que circulou no mês passado pede que os candidatos possuam a qualificação necessária, falem alemão e recebam uma oferta de emprego que lhes garanta a capacidade de se sustentar. Os mais de 3.370 médicos sírios que tratam pacientes em hospitais e clínicas da Alemanha devem ser pouco afetados pela nova legislação.

O país luta para preencher as vagas nas especializações médicas que tiveram o maior número de aposentados recentemente, numa mudança de geração.Ainda assim, o diretor da associação de médicos da Alemanha quer introduzir uma exigência para que médicos estrangeiros de fora da União Europeia precisem de aprovação num exame escrito equivalente ao aplicado aos estudantes alemães de medicina, em meio a preocupações com estrangeiros que estariam falsificando suas qualificações médicas nos países de origem.

Mahmoud Jalloud, 43 anos, um gastroenterologista de Raqqa, Síria, passou os primeiros cinco meses na Alemanha aprendendo sozinho a falar o idioma local. Depois de finalmente encontrar vaga numa aula, ele disse ter ficado cercado por outros que estavam ali aparentemente apenas para preencher os requisitos da obtenção dos benefícios sociais. 

"Terminei o curso de medicina em 2000 e investi outros sete anos me especializando em gastroenterologia", disse Jalloud. "Agora, tenho de passar por tudo isso para ser reconhecido como clínico geral, e Deus sabe quanto tempo será necessário até que eu seja reconhecido novamente como gastroenterologista".

A clínica West Coast desenvolveu programas de apoio para os funcionários recém-chegados. Alojamentos permitem que os novos membros da equipe vivam ali temporariamente enquanto procuram um lar. São acompanhados por escritórios que os auxiliam a completar a papelada e recebem orientação específica para a linguagem hospitalar. A assistência inclui aulas de idiomas adaptadas aos termos que os médicos precisam conhecer. 

"É útil. Queria muito participar", comentou Ali Eid, 31 anos, que trabalhava em hospitais sírios antes de fugir para a Alemanha.

Indagado se pensava em voltar para a Síria, Eid contou os anos que seriam necessários para concluir o estágio, as aulas de idioma e os vários exames até poder trabalhar como médico na Alemanha.

"Até lá, estarei velho demais para recomeçar", disse.

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