Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Medidas impopulares afetam aprovação de Putin no interior do país

Grandes investimentos na capital alimentam novos protestos em cidades da Rússia

Neil MacFarquhar, The New York Times

03 de março de 2019 | 06h00

URDOMA, RÚSSIA- A região rural e as cidades menores da Rússia há muito são um terreno fértil para o presidente Vladimir Putin e a sua mensagem sobre a restauração da antiga grandeza, mas mesmo aqui, há limites. Os planos de mandar o lixo de Moscou para as províncias - incentiva pelo sigilo, trapaças e desvirtuamento da lei - provocaram amplos protestos. Neste descontentamento, estão implícitos problemas econômicos cada vez mais graves e a convicção popular de que o governo despeja dinheiro na bela capital e sacrifica o interior, que já luta com dificuldades.

Foi por acaso que os moradores de Urdoma, a 1,1 mil quilômetros da nordeste de Moscou, souberam no ano passado do projeto do lixão, quando dois caçadores locais encontraram trabalhadores que derrubavam árvores abrindo espaço para a instalação. A notícia irritou Urdoma e dezenas de outras comunidades da província de Arkhangelsk.

“Toda a matéria prima - petróleo, gás, diamantes, madeira - vem destes lugares e é vendida no exterior, enquanto os lucros vão para Moscou”, queixou-se Yuri, um caçador de 41 anos que mora em um pequeno trailer montado pelos manifestantes para monitorar as atividades no local do lixão. “Nós não recebemos nada”.

As pesquisas mostram que o apoio a Putin está diminuindo, e pela primeira vez em 13 anos, muitos russos acham que o seu país está caminhando na direção errada. A opinião pública mudou consideravelmente nas províncias, onde a popularidade de Putin se baseava nas conquistas da área econômica e no orgulho nacional.

O governo introduziu mudanças extremamente impopulares, como o aumento da idade para a aposentadoria, a elevação dos impostos sobre as vendas e as tarifas dos serviços públicos. As rendas depois de descontada a inflação caíram cerca de 11% em cinco anos. Em Urdoma, com uma população de 4.750 habitantes, e em outros centros da região, as pessoas afirmam que o governador vendeu o seu ambiente idílico para os interesses ligados ao lixo, e o governo - em todas as esferas, até o gabinete de Putin - se recusa a responder às perguntas da população.

A questão é a quem os descontentes deverão recorrer com as suas queixas, e o que Putin fará a respeito. O custo dos protestos contra o governo pode ser alto, mas protestar por causa do lixo é considerado relativamente possível. Entretanto, um crescente descontentamento político fermenta nas manifestações, como as realizadas em toda a Rússia no mês passado contra a elevação das taxa de coleta do lixo e a falta de reciclagem.

As sanções e a queda dos preços do petróleo afetaram profundamente a economia russa. O apoio às intervenções na Síria e na Ucrânia, que contribuiu para aumentar a popularidade de Putin, desapareceu. “O povo está disposto a ser corajoso, mas não a pagar do próprio bolso”, disse Vladimir A. Ryzhkov, um político da oposição. “Pela primeira vez desde que Putin chegou ao poder, há 20 anos, a vida não está melhorando, mas piorando”.

Os russos agora sofrem de uma “profunda depressão” que promete intensificar-se, mesmo que não ameace Putin, escreveu Mikhail Rostovski, colunista do influente tabloide “Moscovski Komsomolets”. “Uma sociedade acostumada a termos como ‘Putin’ e ‘anos de fartura’ intercambiáveis de repente se depara com uma nova e surpreendente realidade”. Membros de Urdoma Limpa, o grupo à frente das iniciativas que lutam para proibir as importações de lixo em Arkhangelsk, notam que apesar das imensas riquezas naturais da Rússia, grande parte do seu povo vive na pobreza.

“Moscou é a cidade mais rica e ofuscante da Rússia,”, afirmou Sergei Yakimov, o advogado da organização. “Em vez de investir na reciclagem, seus representantes gastam com novos prazeres, e querem mandar o lixo para as províncias”. A região de Arkhangelsk, quase do tamanho da França, mas com apenas 1,1 milhão de habitantes, teria teoricamente um amplo espaço para a criação de um enorme lixão. As autoridades escolheram Shiyes, a cerca de 30 quilômetros ao norte de Urdoma, uma antiga aldeia na qual restou apenas uma estação de manutenção da estrada de ferro.

Igor Orlov, o governador de Arkhangelsk, enaltece o projeto como um investimento imprescindível que permitirá criar 500 empregos. Mas os habitantes se queixam das táticas sigilosas, desonestas, que o acompanham. Não houve nenhum estudo do impacto ambiental, e os moradores temem que ocorra a poluição do lençol freático e do rio Vychegda nas proximidades.

Depois de se queixarem de que não foi realizada nenhuma consulta pública como seria exigido, os habitantes de Urdoma despertaram um dia e viram dezenas de pessoas estranhas chegando de ônibus na cidade. Elas entraram no auditório onde haveria uma “audiência”, enquanto a polícia barrava a entrada dos moradores.

Em um discurso em agosto, Nikolai Viktorov, o proprietário de uma loja de maquinários, falou uma frase que se tornou uma espécie de grito de guerra. “Depois de nos livrarmos do lixo de Shiyes”, afirmou, “começaremos a nos livrar do lixo de Moscou”. / Ivan Nechepurenko, Sophia Kishkovsky e Oleg Matsnev contribuíram para a reportagem.

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