Sara Farid para The New York Times
Sara Farid para The New York Times

Medo do extremismo leva França a assumir ensino de árabe no país

A iniciativa é parte dos esforços do governo em conter o radicalismo entre os jovens

Emma Bubola, The New York Times

03 de fevereiro de 2019 | 06h00

ROMAINVILLE, FRANÇA - Nas manhãs de domingo, Habiba Hatem, 9 anos, entra no carro do pai para frequentar aulas de árabe numa mesquita de um subúrbio ao norte de Paris.

"Hoje, vamos conversar a respeito de quando recebemos duyuf para o jantar", diz a professora a uma dúzia de meninos e meninas com idades entre 9 e 17 anos, todos nascidos na França. "Duyuf são os hóspedes", diz ela, escrevendo a palavra na lousa.

Os avós de Habiba vieram da Tunísia nos anos 1960, e o pai dela acredita na importância de manter a filha ligada a suas raízes. Mas a escola pública que ela frequenta não oferece aulas de árabe e, por isso, eles fazem a viagem semanal à mesquita de Romainville.

Cerca de 3 milhões de pessoas usam o árabe diariamente na França, fazendo deste o idioma estrangeiro mais falado do país, de acordo com o Ministério da Cultura. Mas a língua quase não é ensinada nas escolas públicas, o que levou as mesquitas e as associações particulares a preencher esta lacuna.

Agora, o governo está preocupado com o crescente número de estudantes que aprendem árabe longe da supervisão do estado.

Como parte da luta da França contra o extremismo, o ministério da educação anunciou em setembro um plano para retomar o controle do ensino do árabe "para garantir um currículo secular, diferente da versão oferecida pelas associações, que podem tender à radicalização", disse a porta-voz do ministério.

O plano do ministério está causando alarme entre políticos de direita. Luc Ferry, ex-ministro da educação, comentou que a medida equivaleria a permitir o islamismo nas escolas públicas. Mas muitos líderes da comunidade árabe defendem o plano. Azzedine Benjemaa, presidente da associação muçulmana da mesquita onde Habiba faz aula, disse que as aulas do sistema público de ensino teriam qualidade melhor do que as aulas religiosas.

"Nossos professores são muito dedicados e dispostos, mas não têm treinamento em pedagogia", disse Benjemaa. "Não foram aprovados nos exames nacionais".

Na mesquita, a aula de Habiba começa com uma prece. Na escola do ensino médio Claude Monet, no 13.º  Arrondissement de Paris, uma das poucas escolas públicas francesas que oferecem aulas de árabe, o professor começa a aula usando a rede profissional LinkedIn para mostrar aos alunos o número de vagas de emprego abertas para que fala árabe. Mas muitos dizem que a retórica do governo estabelece uma perigosa correlação entre a língua árabe, o Islã e o fundamentalismo religioso.

"Ainda que o ministro da educação enfatize que o aprendizado do árabe nas escolas seria uma celebração da cultura e da civilização árabe, essa decisão é tomada principalmente no contexto da luta contra a radicalização islâmica", disse Sarah Mazouz, do Centro Nacional para a Pesquisa Científica, mantido pelo governo.

Sarah, que estuda discriminação e naturalização, disse que tal abordagem confirma a existência de um "estereótipo arraigado segundo o qual o árabe seria o idioma dos fanáticos e obscurantistas".

Faz tempo que o árabe é ensinado nas universidades públicas da França, onde o idioma é visto como uma ferramenta útil para carreiras nas áreas de negócios e diplomacia. Na universidade de elite Sciences Po, em Paris, há 37 professores de árabe - em toda a rede de escolas públicas da França, eles são apenas 180. Mas, no ensino primário e secundário, o plano do ministério da educação encontrou resistência, disse Sarah.

"Há, na França, uma forte crença segundo a qual é a escola pública que forma os franceses, que é responsável por produzir cidadãos da França independentemente da história de seus pais", disse Sarah.

E qual a opinião de Habiba, que fala francês, a respeito dos próprios esforços para aprender o árabe? Ela disse que, quando a lição de casa se acumula, ela preferiria não ter aulas de árabe. Mas contou que precisa estar pronta para o verão, quando visitará os primos na Tunísia.

"É claro que eu quero aprender árabe", disse ela. "Todos na minha família sabem falar".

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