Tess Mayer/The New York Times
Tess Mayer/The New York Times

Por que a apicultura está crescendo em Nova York

O hobby é uma ótima técnica para lidar com a pandemia. No entanto, muitas abelhas na cidade também podem representar uma ameaça ambiental

Hillary Richard, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2021 | 05h00

NOVA YORK – Em abril de 2020, durante o pico da pandemia em Nova York, uma delicada missão de resgate aconteceu.

Andrew Coté e três colegas, usando máscaras e luvas resistentes, pegaram um elevador, subiram dois lances de escada e se esforçaram para subir uma escada de metal vertical de aproximadamente 6 metros até o telhado de um prédio vazio no centro da cidade. Lá, eles recuperaram quatro caixas de aproximadamente 68 kg cheias de centenas de milhares de abelhas agitadas, transportaram-nas para a rua e colocaram-nas em uma caminhonete com outras caixas de telhados vizinhos.

As abelhas foram então levadas para seu novo lar no Queens.

O apiário do Queens County Farm Museum é agora um "quem é quem" das abelhas resgatadas em Manhattan. Elas vêm dos telhados do hotel InterContinental New York Barclay, da loja principal da Brooks Brothers e do New York Institute of Technology, entre outros lugares. O apiário foi inaugurado oficialmente no começo do verão passado (no hemisfério norte) , um momento perfeito, já que boa parte das abelhas de Nova York (muitas das quais vivem em cima de prédios de escritórios e hotéis da cidade) se viram abandonadas e no limbo durante o shutdown.

Desde que a cidade de Nova York legalizou a apicultura em 2010, a prática cresceu em popularidade. É uma atividade que se desenvolve em um espaço pequeno; uma colmeia tem mais ou menos o tamanho de um pequeno móvel com duas gavetas. Agora existem organizações sem fins lucrativos focadas nas abelhas, parques públicos com jardins polinizadores e potes de mel hiperlocais em abundância nos mercados verdes. O novo apiário no Queens, que basicamente teve que administrar um excesso durante a pandemia, é um exemplo do comportamento dos nova-iorquinos loucos por abelhas.

Mas também existe uma preocupação crescente entre alguns cientistas de que as abelhas, a maioria delas importadas para a cidade para alimentar o frenesi da apicultura, são uma ameaça para os polinizadores nativos de Nova York, cujas populações decrescentes podem afetar a flora local e o meio ambiente em geral.

Há entre 115.000 e 125.000 apicultores em todo o país, segundo o Agricultural Marketing Resource Center. O Department of Health and Mental Hygiene da cidade de Nova York, que supervisiona a apicultura na cidade, contabilizou 326 colmeias registradas em 2020. Embora os apicultores sejam obrigados a registrar suas colmeias, raramente o fazem. Coté, presidente da Beekeepers Association da Cidade de Nova York e apicultor de quarta geração, acredita que há mais de 600 colmeias ativas na cidade.

Vários estabelecimentos, como a Bushwick bakery L'imprimerie e o New York Hilton Midtown, agora têm suas próprias colmeias e fazem pratos e coquetéis com mel cultivado localmente, disse Dan Winter, vice-presidente da American Beekeeping Federation e presidente do Empire State Honey Producers Association. “As pessoas querem saber de onde vem seu mel e gostam que ele seja local.”

“As abelhas estão no topo da lista no que se refere às espécies mais importantes. Elas polinizam mais de um terço das colheitas que alimentam 90% do mundo”, disse Winter. “As abelhas são responsáveis por US $30 bilhões por ano em colheitas”.

No mês de abril, Coté chegou à sua fazenda em Norwalk, Connecticut, com um caminhão cheio de abelhas italianas de um criador na Geórgia. Ele então transferiu as abelhas para um furgão e uma caminhonete antes de ir para a cidade, carregando 300 pacotes diferentes com 12.000 abelhas cada. Ele os entregou a apicultores entusiasmados em um ponto de encontro no Central Park West.

Esses pacotes de abelhas podem ser problemáticos, segundo Sarah Kornbluth, associada à Divisão de Zoologia de Invertebrados do American Museum of Natural History, que expressou sua preocupação com as aves locais e outros animais que dependem de abelhas nativas. A cidade de Nova York tem cerca de 200 espécies nativas (não incluindo as abelhas, que originalmente vieram da Europa), então as abelhas competem fortemente com os polinizadores nativos da cidade, levando-os para longe em busca de provisões, o que retarda seu crescimento populacional.

“Não há necessidade de abelhas europeias na cidade, e seria ótimo tê-las apenas com objetivos educacionais,” disse Kornbluth, que gostaria mais de ver um movimento para manter as abelhas que já estão aqui. “Acho que há muito espaço para diversão na conservação dos polinizadores nativos, e se alguém pode fazê-lo, são os apicultores.”

Há um pequeno movimento em andamento: casas de abelhas estão sendo instaladas pela cidade. A Bee Conservancy, sediada em Nova York, criou seu programa Sponsor-a-Hive (Patrocine uma colmeia) no ano passado em colaboração com a Brooklyn Woods, uma organização sem fins lucrativos que treina adultos desempregados e de baixa renda em marcenaria e fabricação. As casas das abelhas de pinheiro são feitas com uma mistura de tubos de nidificação para abelhas nativas garantindo, assim, uma diversidade de espécies.

“Se você quer comida local, você realmente precisa de abelhas locais”, disse Guillermo Fernandez, o fundador e diretor executivo da Bee Conservancy. “Para muitas abelhas, uma área de algumas centenas de metros pode ser o seu mundo inteiro, por isso pequenas coisas podem somar muito”, disse Fernandez, que acha o caos da colmeia relaxante. “Uma colmeia é uma caixa de calma em uma cidade frenética”, disse ele. "O zumbido e a delicadeza são bem relaxantes." /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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