Gonçalo Curveira-Santos via The New York Times
Gonçalo Curveira-Santos via The New York Times

Proteger os leões ajuda toda a cadeia alimentar nas reservas da África do Sul?

O pressuposto de que instalar predadores alfa em parques de vida selvagem na África do Sul beneficia os pequenos animais necessita de mais testes, dizem os cientistas

Rachel Nuwer, The New York Times - Life/Style

07 de abril de 2021 | 05h00

Turistas visitam as reservas de animais selvagens na África do Sul para verem leões e leopardos, não civetas e cervos.

Os administradores desses parques, respondendo à pressão comercial, tendem a favorecer esses grandes e carismáticos gatos predadores. Embora as mais de 30 espécies de carnívoros de menor porte na África do Sul tenham um papel importante no seu ecossistema, pois mantêm as populações de suas presas sob controle, o que, por outro lado, influencia as comunidades de plantas, pouca ou nenhuma atenção é dada no sentido da sua proteção.

A ideia que tem prevalecido é de que, se leões são colocados no topo da cadeia alimentar, isto resultará em populações de outras espécies carnívoras mais saudáveis e todos os esforços para proteger os grandes predadores, como os leões, automaticamente beneficiam os pequenos também. Mas os cientistas carecem de evidências quanto a se tais pressupostos se confirmam no mundo real, especialmente em pequenas reservas como as encontradas na África do Sul.

Um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B revela que a dinâmica é mais complexa do que se imagina. Embora a presença dos leões aumente ligeiramente o número de espécies carnívoras pequenas vivendo na área, ela reduz sua variedade no geral.

“Não podemos apenas supor que, quando atuamos em prol dos leões, haverá benefícios gerais para toda a biodiversidade”, afirmou Gonçalo Curveira-Santos, candidato a um doutorado na área de preservação, na Universidade de Lisboa e autor do estudo. “Os predadores alfa são muito interativos num ecossistema e precisamos levar melhor em conta o seu efeito ecológico”. Muitas reservas de vida selvagem na África do sul são antigas fazendas de gado convertidas em ecoturismo. Se leões estão presentes, o fato é que normalmente foram reintroduzidos ali.

“Não estamos falando de uma natureza intacta, reservas fechadas onde os leões se movimentam livremente” disse Curveira-Santos. “Mas estamos nos referindo a pequenas reservas cercadas onde os leões são colocados depois de essa natureza ter sido extremamente afetada”.

Após sua reintrodução, os administradores tendem a investir muito dinheiro e trabalho na manutenção das populações de leões, incluindo o uso de patrulhas de combate à caça e de remoção de armadilhas colocadas nas reservas por pessoas das comunidades locais.

Curveira-Santos e seus colegas procuraram ver que efeitos, caso existam, essas atividades têm sobre espécies carnívoras que pesam menos de 20 quilos. E se concentraram em 17 reservas nas províncias de KwaZulu e Limpopo, na África do Sul, metade delas tendo reintroduzido os leões em suas propriedades. Eles usaram dados de câmera escondida coletados por um grupo chamado Panthera para calcular o número de pequenas espécies carnívoras em cada reserva e avaliar o alcance da sua presença.

Registraram 22 espécies carnívoras pequenas, desde o chacal listrado e o mangusto e até a raposas-orelhas-de-morcego. E descobriram que as espécies no geral são em número ligeiramente maior nas reservas onde há leões, mas que, em média, os leões reduziram a área de terreno dos pequenos carnívoros em aproximadamente 30%.

Para Curveira-Santos, está claro que os leões influem na distribuição desses carnívoros menores.

“A pergunta é a seguinte: é este o papel natural e uma boa coisa para a conservação ou é algo negativo porque estamos fazendo isso de maneira muito artificial?”

Talvez haja menos carnívoros pequenos porque os leões os estão matando ou os subjugando, disse ele. Ou os leões levam os pequenos carnívoros a evitarem determinadas áreas por medo - ou ambas as coisas. A equipe também não sabe dizer se essa dinâmica vem impactando o papel ecológico desses pequenos carnívoros. Mais estudos serão necessários, mas se eles estão sendo mortos por leões ou confinados a determinadas áreas onde os grandes gatos não pisam, isso levará a uma diminuição da população dessas espécies e criará desequilíbrios para outros animais e plantas.

Segundo Kelly Anne Marnewick, bióloga na Universidade Tshwane de Tecnologia, na África do Sul, que não participou da pesquisa, a reintrodução de leões nas reservas sul-africanas tem sido algo valioso, com os predadores agora sendo uma “preocupação menor” para os fins de preservação.

Com mais pesquisas, Curveira-Santos e seus colegas esperam determinar até que ponto podem coexistir os interesses comerciais do setor de turismo e os interesses ecológicos da comunidade interessada na preservação.

“Estamos apenas começando a desvendar a complexidade da diversidade e da dinâmica da comunidade de carnívoros. Serão necessárias mais pesquisas até podermos dizer o quanto as prioridades da gestão e as da preservação das espécies estão alinhadas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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