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U.S. National Park Service via The New York Times
U.S. National Park Service via The New York Times

Geleira no Alasca está se movendo 100 vezes mais rápido do que o normal

A geleira Muldrow vem se movendo cerca de 27 metros por dia, o que chamou a atenção de cientistas

Henry Fountain, The New York Times – Life/Style

30 de abril de 2021 | 05h00

Nos últimos meses a geleira Muldrow, do lado norte do parque nacional de Denali, no Alasca vem se movendo cerca de 27 metros por dia, 100 vezes sua velocidade normal.

O evento empolgou os glaciologistas que se apressaram para estudar a geleira usando imagens de satélite, fotos aéreas e GPS delicadamente instalados sobre o gelo que se desloca.

Eventos de ondas glaciais com frequência duram apenas alguns meses. E muitos ocorrem em geleiras remotas e são detectados somente depois que encerraram, quando, por exemplo, imagens de satélite mostram que a frente de uma geleira avançou rapidamente. Mas a geleira Muldrow se encontra dentro do Parque e Reserva Nacional de Denali. Aviões regularmente sobrevoam a geleira transportando turistas e alpinistas ávidos para escalar a mais alta montanha da América do Norte.

No início de março, o piloto de um desses aviões sobrevoando a região observou um grande número de novas fendas como também mudanças nas morenas laterais, áreas de detritos rochosos que se acumulam ao longo das geleiras.

“Parecia que haviam sido lacradas”, disse Chris Palm, piloto da K2 Aviation.

Ele tirou fotos com seu celular que foram rapidamente compartilhadas entre pesquisadores, incluindo alguns do Serviço Nacional de Parques que vêm estudando a geleira há anos. Dados de satélite confirmaram que o gelo estava se deslocando mais rápido do que a média que vinha sendo registrada nas últimas décadas, de menos de 30 centímetros por dia.

O estresse e pressão do movimento rápido de tanto gelo – a geleira tem uma espessura de mais de 450 metros e 2,4 quilômetros de extensão vem causando toda a deformação e rachaduras.

“A geleira inteira está muito rachada”, disse Chad Hults, geólogo regional do Serviço de Parques do Alaska, que chegou a Muldrow no final de março de helicóptero para instalar equipamentos para medir a velocidade e outras características dessa onda glacial.

Hults participou de um estudo sobre a geleira de Muldrow há duas décadas, quando ela estava num período de descanso e era fácil caminhar por ela. Mas conseguiu ouvir estrondos e explosões da ruptura e queda do gelo, mesmo com o ruído do motor do helicóptero.

Muldrow foi a rota usada pelos primeiros alpinistas para chegarem ao pico de Denali em 1913, e ainda hoje alguns fazem esse trajeto para escalar a montanha. Mas com a temporada de escaladas começando, o caminho deverá estar intransitável, disse Hults.

Esses eventos de onda glacial ocorrem em apenas 1% das geleiras no mundo. E décadas se passam entre um evento e outro. Por causa dessas raras ocorrências, os cientistas não conseguiram estudá-los o bastante para ter uma total compreensão dos motivos que levam a essas ondas, ou avaliar como a mudança climática, que vem causando um derretimento rápido das geleiras do Alasca e outros lugares, pode estar afetando esses movimentos de recuo e avanço sazonais.

Segundo Mark Fahnestock, glaciologista da Universidade de Fairbanks, no Alasca, o equilíbrio de massa entre o topo e a base da geleira tem um papel fundamental nessa movimentação. Com o tempo, o gelo fica mais espesso nos trechos mais altos e mais frios da geleira e derrete nas partes mais baixas e mais quentes.

“Nas partes mais altas, o gelo solidifica, e nas mais baixas, ele derrete”, disse Fahnestock. O movimento da geleira restaura o equilíbrio, rapidamente mudando essa massa de gelo para as áreas mais baixas.

Como o aquecimento global vem provocando um acúmulo menor de gelo e mais derretimento, isso também tem um impacto”, acrescentou o glaciologista.

A última vez que esse evento foi observado na geleira Muldrow foi em 1956-57 e pesquisas na região indicam que ele ocorre a cada 50 anos. Portanto, essa nova onda glacial era esperada pelos cientistas. Mas o que na verdade desencadeia essa onda ainda não está totalmente compreendido.

No caso da onda glacial do Muldrow e muitas outras, a água que resulta do derretimento fica presa na base da geleira, cercada por sedimentos e pedras das rochas e pode ser isto que leva à movimentação da geleira, disse Martin Truffer, glaciologista da universidade de Fairbanks no Alaska.

A água do degelo, resultante do calor resultante do atrito do gelo com a rocha, e do calor dentro da própria Terra, se acumula na área enclausurada. Num determinado ponto, a pressão da água se torna tão forte que o atrito é reduzido e a geleira se movimenta com mais velocidade.

A geleira de Muldrow se situa ao longo de uma importante falha geológica e o terreno tem sido abalado por terremotos e sofre com uma grave erosão. Assim, a geleira, como muitas outras que se deslocam em ondas, tem muito detrito na sua base que impede o escoamento da água.

Essas ondas glaciais normalmente começam no inverno e terminam no verão quando a água da superfície derrete e aumenta muito o fluxo de água pela geleira a tal ponto que qualquer gargalo é rompido, o que reduz a pressão da água e aumenta o atrito, diminuindo a velocidade do gelo.

Algumas ondas começam novamente no inverno seguinte, quando o fluxo da água do degelo diminui. Mas Truffer e outros cientistas acham que a geleira Muldrow vem se movimentando tão rápido que a mudança do equilíbrio de massa deve ocorrer daqui a alguns meses e depois parar até uma próxima onda, daqui a algumas décadas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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