Nasa/The New York Times
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E se o lixo espacial e a mudança climática se tornarem o mesmo problema?

Mudanças na atmosfera causadas pelas emissões de dióxido de carbono aumentam a quantidade de detritos que permanecem em órbita

Jonathan O’Callaghan, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2021 | 05h00

É fácil comparar o problema do lixo espacial à mudança climática. As atividades humanas geram um número excessivo de satélites inoperantes e fragmentos de maquinário descartados na órbita terrestre. Se isso não for controlado, esse lixo espacial trará problemas importantes para as gerações futuras – tornando o acesso ao espaço cada vez mais difícil ou, pior, impossível.

Mas lixo espacial e mudança climática podem estar ligados. A atmosfera do nosso planeta naturalmente empurra os detritos em órbita para baixo e os incinera na camada inferior da atmosfera, mas os níveis de dióxido de carbono cada vez maiores vêm baixando a densidade da camada superior da atmosfera, o que pode diminuir esse efeito. Segundo um estudo apresentado em maio na Conferência Europeia sobre Detritos Espaciais, o problema tem sido subestimado e a quantidade de lixo espacial em órbita pode ser 50 vezes maior até 2100.

“Esses números nos pegaram de surpresa”, disse Hugh Lewis, especialista na área de lixo espacial na Universidade de Southampton, na Inglaterra, e coautor do estudo que será submetido a uma revisão por pares nos próximos meses. “É um motivo de alarme”.

Nossa atmosfera é uma aliada útil na limpeza do lixo espacial. As colisões com suas moléculas provocam um arrasto, empurrando os objetos de volta para atmosfera. Abaixo de 480 quilômetros acima da superfície terrestre, muitos objetos naturalmente irão se decompor na camada inferior da atmosfera mais densa e se desintegrarão em menos de 10 anos.

Na camada inferior da atmosfera, as moléculas de dióxido de carbono conseguem liberar de novo a radiação infravermelha que absorve do Sol, que é então capturada pela atmosfera mais densa como calor. Mas acima de 96 quilômetros, onde a atmosfera é mais diluída, ocorre o oposto. “Não existe nada que ajude a recapturar essa energia”, disse Matthew Brown, que também é da Universidade de Southampton e autor principal do estudo.

É o escape de calor que leva o volume da atmosfera, e portanto a sua densidade, a diminuir. Segundo Brown e sua equipe, desde 2000, a atmosfera a pouco mais de 400 quilômetros perdeu 21% da sua densidade por causa dos crescentes níveis de dióxido de carbono. Em 2100, se esses níveis de dióxido de carbono dobrarem – o pior cenário descrito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, esse percentual pode chegar a 80%.

No caso do lixo espacial, as implicações são gritantes. Mais de 2.500 objetos em tamanho maior do que 10 centímetros orbitam atualmente numa altitude igual ou inferior a 400 quilômetros. No pior cenário, o tempo de vida em órbita aumentado de até 40 anos significará que menos objetos serão arrastados para a camada mais inferior da atmosfera. Nesta altitude, os objetos devem aumentar 50 vezes, no total de 125 mil.

Mesmo no melhor dos casos, em que os níveis de dióxido de carbono venham a se estabilizar ou até reverter, a quantidade de lixo espacial ainda assim deve dobrar. Brown acredita que o resultado mais provável será de um aumento entre 10 e 20 vezes.

A pesquisa é “um trabalho muito importante”, afirmou John Emmert, cientista no U.S. Naval Research Laboratory, em Washington, que tem estudado a perda de densidade atmosférica. Mas, na sua opinião, são necessários mais estudos para compreender a gravidade do problema – sabendo-se que o impacto do ciclo solar do sol é um fator importante nas mudanças da densidade atmosférica.

As conclusões também implicam desafios para os órgãos reguladores e operadores de satélites, especialmente SpaceX, Amazon e outras empresas que pretendem criar megaconstelações de milhares de satélites para fornecer para regiões remotas da Terra.

Por exemplo, só em maio a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos aprovou pedido da SpaceX para diminuir a órbita de quase três mil satélites da sua constelação Starlink, argumentando que o arrasto atmosférico eliminará naturalmente os satélites inativos e os detritos num tempo razoável.

A pesquisa de Brown e sua equipe sugere que essa ideia pode ser falha.

Um porta-voz da FCC disse que muitos dos interessados atualmente usam o Debris Assessment Software da Nasa para prever o tempo de vida dos satélites em órbita na camada inferior da Terra. “Não sabemos hoje se existem planos para mudar esse programa para enfrentar as mudanças na composição atmosférica previstas no documento. A FCC periodicamente revê suas regras e regulamentos e os atualiza de acordo com os avanços observados no mercado e no conhecimento científico. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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