Brett Deering / The New York Times
Brett Deering / The New York Times

Um jeito diferente de lidar com a terra: deixe o gado pisotear tudo

Um pasto regenerativo é capaz de armazenar mais carbono no solo, em suas raízes e outros tecidos vegetais. Mas em que grau isso pode realmente ajudar na luta contra a mudança climática?

Henry Fountain, The New York Times - Life/Style

28 de março de 2021 | 05h00

CANADIAN, Texas — Adam Isaacs estava cercado de vacas em um antigo pasto que foi usado à exaustão ao longo dos anos. Depois, o lugar virou um emaranhado de ervas daninhas.

“A maioria das pessoas preferiria chegar aqui e começar a fumigar” o terreno com herbicidas, afirmou ele. “Minha família fazia isso. Não funciona.”

Em vez disso, Isaacs, da quarta geração de rancheiros dessa terra de relevo ondulado, no extremo nordeste do Texas Panhandle, colocou seus animais para trabalhar nessa pastagem, usando cercas elétricas portáteis para confiná-los em pequenas áreas, para que eles sejam obrigados a pisar em algumas das ervas enquanto pastam.

“Deixamos o gado esmagar bastante coisa”, afirmou ele. Isso acrescenta matéria orgânica ao solo e o expõe ao oxigênio, o que ajuda capins e outras plantas mais desejáveis a ocupar o espaço. Finalmente, por meio de uma contínua e cuidadosa administração do terreno, o pasto se torna saudável outra vez.

“Essas vacas são minha ferramenta para lidar com a terra”, afirmou Isaacs. “É muito mais fácil trabalhar com a natureza do que contra ela.”

O objetivo dele é transformar esses 2 mil hectares em algo parecido com as verdejantes pradarias de variados capins que prosperaram nessa parte do sul das Grandes Planícies por milênios e serviu de pasto para milhões de bisões.

Isaacs, 27 anos, cria bezerros a partir de centenas de vacas e pouco mais de uma dezena de touros que se reproduzem, vendendo os bezerros para a indústria alimentícia assim que são desmamados. Melhorar a terra beneficiará seu negócio, fornecendo um pasto melhor para os animais, com menos perda de solo e de nutrientes para a erosão e melhorando a retenção de água em uma região onde a média de precipitação mal chega a 457 milímetros ao ano.

Mas uma terra mais saudável também pode ajudar o planeta ao sequestrar mais carbono, por meio de raízes e outros tecidos vegetais que usam o dióxido de carbono do ar em seu crescimento. Armazenar essa matéria orgânica no solo impede o carbono de retornar para a atmosfera na forma de dióxido de carbono ou metano, dois grandes causadores do aquecimento global.

Com o governo Biden propondo pagar a agricultores que armazenarem carbono, o sequestro do elemento no solo ganhou apoio como ferramenta de combate à mudança climática. De acordo com seus defensores, se aplicada em escala suficientemente grande, a medida pode ter um papel significativo na mitigação do aquecimento global.

Muitos cientistas afirmam, porém, que essa hipótese é exagerada: o solo não é capaz de armazenar carbono suficiente por tempo suficiente para que isso tenha um efeito considerável. E medir a quantidade de carbono no solo é problemático, afirmam eles.

As práticas de melhoria do solo que rancheiros como Isaacs aplicam são chamadas de pasto regenerativo, parte de um movimento mais amplo conhecido como agricultura regenerativa.

Os termos não possuem definições precisas, mas as técnicas de agricultura regenerativa se valem de pouca ou nenhuma aragem do solo, cultivos rotativos, plantios de cultivos que cubram e beneficiem o solo antes do cultivo principal ser colhido e maior uso de compostagem, em vez de fertilizantes químicos.

Trabalhar com pastos regenerativos significa administrar de perto o local e o período que os animais pastam, ao contrário das técnicas mais tradicionais, segundo as quais os bichos são deixados pastando sobre o mesmo campo mais ou menos continuamente. Esses rancheiros também utilizam melhor o estrume de seu gado para manter os pastos saudáveis.

Essas práticas estão se disseminando entre fazendeiros e rancheiros nos Estados Unidos, estimuladas por preocupações ambientais a respeito do dano à terra causado pela agricultura e a pecuária em escala industrial, bem como pelo seu efeito na intensificação do aquecimento global. Nos EUA, a agricultura é responsável por 10% das emissões de gases-estufa.

As empresas de agronegócios e os grandes produtores de alimentos estão lançando iniciativas para encorajar práticas regenerativas como parte de um esforço para conquistar consumidores preocupados com a mudança climática e a sustentabilidade.

E em suas manobras iniciais para combater a mudança climática, o governo Biden citou a agricultura como um “elemento fundamental” em sua estratégia. Uma das ideias é alocar US$ 1 bilhão para pagar aos agricultores US$ 20 por tonelada de carbono que armazenarem no solo.

Em certas ocasiões, defensores da agricultura regenerativa fizeram alegações extravagantes a respeito de seu potencial no combate ao aquecimento global. Entre eles está Allan Savory, agricultor originário do Zimbábue e um dos líderes desse movimento, que, em uma TED Talk de 2013 citada frequentemente, afirmou que essa prática poderia “reverter" o aquecimento global.

Algumas pesquisas afirmam que a implementação ampla das práticas regenerativas ao redor do mundo poderia ter um efeito significativo, armazenando até 8 bilhões de toneladas de carbono ao ano no longo prazo, o que equivale aproximadamente à emissão anual decorrente da queima de combustíveis fósseis atualmente.

Enquanto existe um amplo consenso de que técnicas regenerativas são capazes de melhorar as condições do solo e gerar outros benefícios, algumas análises revelaram que os números do potencial sequestro de carbono são enormemente superestimados. Entre as críticas, pesquisadores apontam que estudos de curto prazo podem mostrar fortes elevações de carbono no solo, mas esses benefícios diminuem com o tempo.

“É realmente muito bom ver o setor privado e o governo americano levando a sério a redução das emissões na agricultura”, afirmou Richard Waite, pesquisador sênior do World Resources Institute, uma organização de pesquisa ambiental com sede em Washington. Mas, em se tratando da captura de carbono no solo, a análise do instituto indica que “as oportunidades de mitigação são menos substanciais”.

Colocar o foco no sequestro de carbono no solo também arrisca roubar atenção de outras importantes maneiras de reduzir a pegada de carbono da agricultura, afirmou Waite, incluindo aumentar a produtividade, reduzir o desmatamento e mudar a dieta para o consumo de alimentos menos danosos ao clima.

Tim LaSalle, ex-diretor executivo do instituto de Savory que posteriormente cofundou um programa de agricultura sustentável na Universidade Estadual da Califórnia, em Chico, afirmou que considera o movimento uma “mudança de olhar a respeito do solo e seu potencial”.

“E é aí que a ciência está incompleta”, afirmou ele, argumentando que a maioria das pesquisas tem como foco somente um ou dois fatores, sem considerar o complexo sistema solo-vegetal de maneira completa.

LaSalle e colegas estão coletando dados de pesquisas que demonstram os benefícios das práticas regenerativas, incluindo testes em campo usando compostos inoculados com fungos e outros micróbios que reduzem ou eliminam a necessidade de fertilizantes químicos.

“Temos que divulgar os dados para transformar o entendimento das pessoas a respeito da realidade”, afirmou ele.

Isaacs, que estudou agronomia na Universidade Texas Tech e trabalhou dois anos no Serviço de Conservação de Recursos Naturais do Departamento de Agricultura dos EUA, faz algumas medições e análises para aferir os benefícios de seus esforços.

“Fazemos muitas pesquisas”, afirmou ele, tirando fotos e coletando amostras para determinar a atividade microbial no solo, acompanhando as condições de crescimento das plantas e a analisando a maneira como a mescla de espécies está se transformando. “Assim, conseguimos observar tendências”, afirmou ele. “Quando você está em campo todo dia, é difícil ver o que está fazendo.”

Como em outros pastos do rancho, Isaacs usou aqui sua cerca eletrificada para que o gado paste em lotes pequenos por curtos períodos de tempo — 200 cabeças, talvez, pisando o solo de um espaço não muito maior que um quintal de casa de subúrbio, às vezes somente por meia hora. Mover a cerca para diferentes pontos dá ao terreno tempo para se recuperar.

“Era isso que os bisões faziam”, afirmou ele. “Vinha um milhão deles de uma vez, pisava em tudo, e depois a manada ia para um novo pasto. E eles não voltavam até que chegasse a hora de pastar por lá novamente.”

Esse trabalho exige planejamento e movimentação frequente do gado. Mas Isaacs conta com auxílio da tecnologia — ele usa um pequeno drone para ajudá-lo a reunir o rebanho e está investindo em dispositivos que lhe permitirão abrir e fechar os portões das cercas a partir de um aplicativo em seu telefone.

Isaacs mencionou várias espécies de capins altos que estão crescendo em meio a espécies mais baixas nas encostas. Fazer com que o gado paste intensamente em determinados locais, permitindo sua recuperação posteriormente, facilitou o retorno desses capins altos, afirmou ele, e o gado os consome. “Na fase de crescimento, nada poderia ser melhor”, afirmou ele.

“Quanto mais trabalho o solo, melhor ele fica, com cada vez mais capim”, afirmou Isaacs. “E quanto mais capim cresce, melhor para o solo.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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