Pascal Rossignol/Reuters
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Pesca de arrasto pode produzir tanto carbono quanto as viagens de avião, diz estudo

Pesquisa também constatou que a conservação estratégica de zonas marinhas não só protegeria espécies ameaçadas, como também sequestraria enormes quantidades de carbono responsável pelo aquecimento do planeta

Catrin Einhorn, The New York Times – Life/Style

14 de abril de 2021 | 05h00

Pela primeira vez, os cientistas calcularam a quantidade do dióxido de carbono que contribui para o aquecimento do planeta liberada no oceano pela pesca de arrasto no leito marinho, na qual enormes redes são arrastadas pelo fundo oceânico na pesca de camarões, badejos, bacalhau e outros peixes: o equivalente às emissões globais do tráfego aéreo na atmosfera.

Embora preliminar, esta foi uma das mais surpreendentes descobertas de um estudo pioneiro publicado na revista Nature. O estudo oferece essencialmente um mapa interativo revisto pelos pares que mostra como as nações podem fazer frente às crises inter-relacionadas da mudança climática e do colapso da vida animal nos mares.

O trabalho sai após uma pesquisa semelhante que focalizou recentemente a proteção da terra, com o objetivo de embasar um acordo global sobre biodiversidade a ser negociado no final do ano em Kunming, na China.

A proteção de zonas estratégicas dos oceanos do mundo da pesca, da perfuração e da mineração não só protegeria as espécies ameaçadas e sequestraria vastas quantidades de carbono, concluíram os pesquisadores, como também aumentaria a pesca em geral, fornecendo maiores quantidades de proteína saudável para a humanidade.

“É uma tríplice conquista”, observou Enric Sala, biólogo marinho que dirige o projeto Pristine Seas da National Geographic. Sala chefiou a equipe de 26 biólogos, cientistas do clima e economistas que trabalharam no estudo.

Quanto e quais partes do oceano a ser protegido e a sua extensão dependem do valor atribuído a cada um dos três possíveis benefícios: biodiversidade, pesca e armazenamento de carbono.

Para maximizar apenas a pesca, concluiu o estudo, os países precisariam reservar 28% dos oceanos para a conservação. Ocorre que as zonas onde a pesca não é permitida servem como viveiros, a fim de permitir  a renovação das populações de peixes e crustáceos, que então se espalham além das zonas protegidas.

Por exemplo, este ano, um estudo concluiu que uma redução de 35%  das áreas de pesca da lagosta espinhosa da Califórnia favoreceu um aumento geral de 225% da pesca após seis anos. “O pior inimigo da pesca e da segurança alimentar é a pesca descontrolada”, afirmou Enric Sala. Neste momento, 7% dos oceanos estão protegidos, enquanto menos de 3% são altamente protegidos.

As populações de tubarões e arraias caíram de maneira tão drástica que, alertam os cientistas, resta pouco tempo para salvá-los. As reservas de pesca estão declinando à medida que as temperaturas dos oceanos aumentam.

A descoberta das emissões provocadas pela pesca de arrasto intensifica a urgência. Anualmente, mostrou o estudo, as traineiras para a pesca no fundo do mar varrem, ao que se calcula, perto de 5 milhões de quilômetros quadradosSe não for liberado, o carbono ali armazenado poderá durar dezenas de milhares de anos.

A equipe não planejava calcular a quantidade de emissões liberadas pelo arrasto até que um revisor externo da Nature pediu isto, disse Sala. Por isso, a sua equipe contratou mais um pesquisador e começou a trabalhar.

“Não conseguia acreditar”, comentou, descrevendo a conversa em vídeo quando os seus colegas revelaram o número de emissões. “Imediatamente fui para o Google e verifiquei as emissões globais por setor e por país, e falei: ‘Uau, é algo maior do que a superfície da Alemanha’”.

O carbono liberado do leito do oceano produz uma água mais acidificada, ameaça a vida marinha e reduz a capacidade dos oceanos de absorver dióxido de carbono atmosférico. China, Rússia, Itália, Grã-Bretanha e Dinamarca lideram mundialmente no que se refere à quantidade de emissões pela pesca de arrasto.

Trisha Atwood, ecologista aquática da Universidade do Estado de Utah, que participou do estudo, comparou este tipo de pesca à derrubada das florestas para dar lugar à agricultura.

“Isto está destruindo a nossa biodiversidade, está destruindo os corais que levam centenas de anos para crescer”, disse Atwood. “E agora este estudo mostra que tem também esse outro tipo de impacto desconhecido, ou seja, ela cria uma quantidade de CO2”.

Na atual pesquisa, Atwood e outros estão estudando se o dióxido de carbono que sai do fundo do mar escapa para o ar também. Dados iniciais mostram que isto ocorre “em grande proporção”.

“Posso afirmar que os resultados são preocupantes”, afirmou.

Os cientistas enfatizam que as medidas de conservação precisam acontecer simultaneamente a uma transição urgente a fim de que se abandonem os combustíveis fósseis.

Para construir o banco de dados para os algoritmos do estudo, os pesquisadores vasculharam o oceano em blocos de 50 quilômetros  por 50 quilômetros. Para calcular a biodiversidade, eles incluíram as espécies que vivem nestes blocos, seus riscos de extinção, seus papéis no ecossistema, determinando ainda se eram únicos no mundo.

Em seguida, acrescentaram dados sobre a pesca para cada quadrado juntamente com as taxas de reprodução e crescimento das espécies, área de distribuição e a sua movimentação. Calcularam ainda a biomassa máxima que cada quadrado conteria se não houvesse pesca. Além disso, acrescentaram dados sobre o carbono do leito oceânico e os mapas do Global Fishing Watch em que se realizava a pesca de arrasto.

“Os resultados desta análise de alto nível contêm uma mensagem muito esperançosa”, afirmou Josephine Iacarella, ecologista aquática da Fisheries and Oceans Canada, que não participou do estudo.

As conclusões dos trabalhos sugerem um esforço internacional para salvaguardar pelo menos 30% das terras e águas da Terra até 2030, conhecido como 30 x 30. Mas como ocorre na terra, os lugares mais estratégicos a serem protegidos não estão equitativamente distribuídos entre as nações. As negociações serão difíceis. E o dinheiro será um problema.

“Atualmente, cada nação age de acordo com as próprias prioridades”, disse Iacarella. “Elevar este esforço a um nível global é mais complexo, mas a discussão pode começar com estudos como este”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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