Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

Memórias despertadas ajudam a recuperar a identidade de pessoas com demência

Organizações na Europa adotam meios de instigar a memória daqueles que começam a perdê-la

Alan Matingly, The New York Times

01 Abril 2018 | 10h00

Para muitos, esta tem sido uma agradável surpresa: tire uma pasta do armário, abra-a e encontre partes de uma viagem que ficou para trás. Um mapa amarrotado, um bilhete de trem perfurado, um cartão postal que nunca foi enviado. Paramos, colocamos o dedo na lembrança, e por um instante, estamos lá de novo.

Agora, imagine abrir uma pasta com pedaços do dia a dia. Na Grã-Bretanha, os National Museums Liverpool prepararam cerca de 40 destas pastas, no âmbito de um programa que ajuda pessoas com demência. Uma delas foi enviada a um homem que mora em uma casa assistida, que passara a ter medo de água e se recusava a tomar banho.

A pasta continha um lembrete do passado com um odor muito forte: uma barra de sabonete com aroma carbólico.

“O objeto evocou nele uma lembrança muito pungente: ele costumava ficar diante do fogo na hora de tomar banho”, disse a “The Times” Carol Rogers, que trabalha para os museus. Ele tomou banho e seguiu adiante.

Outras pastas se concentram em temas como transportes e etnia. Uma delas continha folhetos de Paradas Gay e um par de sapatos de camurça marrom, que alguns homossexuais usavam para identificar-se como homossexuais quando isso era ilegal. Essas coisas fazem parte de um programa chamado House of Memories (Casa das Memórias), que inclui um aplicativo com imagens temáticas e visitas a museus com a finalidade de fazer com que os visitantes compartilhem das memórias da cidade.

Tais iniciativas acontecem também em outras partes. Nos Estados Unidos, a Minnesota Historical Society trabalha em um aplicativo, semelhante ao dos Museums Liverpool, enquanto visitas a museus com esta finalidade estão se tornando comuns na Alemanha.

Sybille Kastner, que dirige programas educativos no Lehmbruck Museum de Duisburg, na Alemanha, faz que os visitantes não só trabalhem com a memória, mas também com obras de arte. Ao contrário dos visitantes que ficam analisando a arte, pessoas com demência aproveitam mais reagindo emocionalmente ao que veem. “É uma experiência muito intensa”, disse.

Sybille também dirige oficinas em que se faz arte. Ela e outros perceberam que algumas pessoas com demência gostam de arte, embora anteriormente a arte não os interessasse.

“Vemos muitas pessoas extremamente interessadas, muito atentas - e certas coisas que achávamos impossíveis, se tornam possíveis”, explicou Marita Neumann, que dirige uma casa para adultos que recentemente levou um grupo a um museu. “As pessoas com demência também precisam de aventuras”.

As aventuras, e as lembranças, não se encontram exclusivamente nos museus. A fundação do clube de futebol West Bromwich Albion da Inglaterra tem um programa chamado Albion Memories, que leva regularmente grupos de torcedores idosos ao estádio quando não há jogo e o lugar está silencioso e vazio. Eles se acomodam em uma área que dá para o campo e assistem às entrevistas com os jogadores do time atual e os de décadas passadas.

“Queremos energizar as memórias dessas pessoas, levá-las a conversar de novo”, disse Paul Glover, da fundação. A paixão pelo futebol permanece nos torcedores, afirmou.

Jason Karlawish, da Universidade da Pensilvânia, explicou que a demência “afeta exatamente a sede da identidade. "Ela pode produzir uma identidade fraturada. A lógica deste tipo de atividade é avivar memórias emocionalmente importantes que se referem àquela identidade”.

Glover contou a Rory Smith de “The Times” que uma mulher viu o pai sob uma luz diferente depois que o acompanhou ao estádio.

“Ele começou a falar sobre jogos aos quais havia assistido, os jogadores que havia visto, os altos e baixos”, escreveu Smith. “Ele deixou de ser uma pessoa com demência. Voltou a ser o que sempre fora, que ainda era: um torcedor do West Brom”.

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