Hannah Reyes Morales para The New York Times
Hannah Reyes Morales para The New York Times

Menina da Mongólia caça lobos e tira selfies com águia

Com apenas 14 anos, Zamanbol dá novo frescor à tradição cultural da região

Hannah Reyes Morales, The New York Times

05 Janeiro 2019 | 06h00

BAYAN-OLGII, MONGÓLIA - Quando as aulas chegam ao fim na sexta feira, Zamanbol volta para casa, termina a lição de casa e cumpre suas tarefas como fazem as adolescentes de todo o mundo. Aos sábados, ela monta no cavalo, viaja até penetrar nas montanhas cobertas de neve e caça feras selvagens com um colega de confiança: sua ave de rapina treinada.

Zamanbol, 14 anos, é uma caçadora falcoeira. Nômade cazaque da região de Altai, na Mongólia, ela faz parte de uma geração de jovens nômades que estão adotando costumes de séculos atrás na busca de um elo com as raízes e a natureza num mundo sendo transformado pela tecnologia.

A jovem caçadora, que frequenta a escola na cidade durante a semana e volta para o iurte de sua família nômade nos fins de semana, viveu entre as águias a vida toda. A exigente arte da caça com águias foi ensinada a ela pelo avô, Matei. Com ele ao seu lado, a menina e sua águia já caçaram até lobos.

O avô ensinou a ela tudo que sabia a respeito do uso das águias na caça - como chamar a ave no céu, como sussurrar para acalmá-la quando está empoleirada no braço. Quando ele morreu, a neta herdou seu premiado pássaro. “Depois da morte do meu avô, quis continuar com o modo de vida dele", disse Zamanbol.

Assim como o treinamento dela teve início quando ainda era pequena, o treinamento das aves começa tão logo um filhote é capturado do ninho. O relacionamento resultante entre caçador e águia é de grande proximidade e dura vários anos; alguns podem durar mais de uma década, com alguns caçadores falando de suas águias como se fossem suas filhas. Os caçadores costumam cantar para as águias, para que se acostumem com a sua voz.

As águias fêmeas, maiores e mais fortes que os machos, são praticamente as únicas usadas nas caçadas. Depois de alcançarem um peso de aproximadamente sete quilos, as águias cavalgam com seus donos até as montanhas, onde são soltas para vasculhar a paisagem em busca de presas, que costumam ser raposas e lebres. Mas o grande prêmio são os lobos, ainda que os donos das águias temam pela segurança de seus animais quando descem para o perigoso golpe fatal.

No século passado, a falcoaria praticamente desapareceu. Foi mantida viva pelos cazaques do Altai na Mongólia Ocidental, província de Bayan-Olgii, onde pelo menos 400 pessoas de etnia cazaque se registraram formalmente como falcoeiros. A província é a única da Mongólia em que a maioria da população é cazaque, e também muçulmana.

Agora, possivelmente pela primeira vez na sua história, a arte da falcoaria e seu papel essencial na cultura cazaque do Altai são compartilhados com forasteiros. Caçadores se reúnem por dois dias durante o festival Águia Dourada. Um documentário de 2016 a respeito da jovem caçadora Aisholpan, falcoeira que ganhou a competição em 2014, ajudou a chamar a atenção internacional para a cultura cazaque do Altai.

Simplesmente reunir os caçadores já é um feito, pois muitos são pastores nômades. Muitos chegam a cavalo, vestindo peles. Durante o festival, veículos da era soviética são vistos pela estepe, com mercadores vendendo tapeçarias, livros encadernados em couro e garrafas ricamente decoradas. As crianças ficam sentadas no chão, divertindo-se com jogos que usam ossos pequenos de ovelha. O número de turistas estrangeiros frequentando o festival em outubro superou a marca de mil pessoas, de acordo com funcionários do governo.

Em 2018, 120 falcoeiros participaram. Do alto da montanha, a águia é libertada enquanto o caçador espera montado num cavalo no pé da montanha. O objetivo é fazer com que a ave se encontre com o falcoeiro numa área determinada com cerca de 20 metros de largura. Para atrair a águia, o caçador ergue um pedaço de carne e emite um grito agudo. Apenas 18 águias foram capazes de cumprir o objetivo. Cada encontro bem sucedido era recebido com vivas em toda a estepe. A águia vencedora é escolhida após a segunda rodada, que consiste em caçar uma carcaça presa a um cavalo galopante. Alguns estudiosos temem que o festival apresente a falcoaria como uma performance em vez de mostrá-la no seu contexto cultural, como forma de buscar alimento e peles. Mas, para muitos caçadores, o festival é uma forma de celebrar seu patrimônio cultural.

Quando Zamanbol cavalga até as montanhas para caçar, ela costuma deixar que as amigas a acompanhem, todas cavalgando confiantes pelo terreno acidentado, trocando gracejos enquanto galopam em velocidade. Nas selfies publicadas pelas garotas no Facebook, a águia de Zamanbol aparece entre elas como uma colega. “Sua águia é um amor", lê-se nos comentários. A tecnologia ampliou a distância entre as gerações em todo o mundo, e as coisas não são diferentes em Bayan-Olgii. Mas, para os poucos que a praticam, a falcoaria tem sido uma ponte ligando a juventude cazaque aos mais velhos.

Aigerim, 14 anos, demonstra interesse pelas águias desde quando era pequena. Numa caçada recente ao lado do pai, Asker, as duas águias decolaram de seus braços e, inesperadamente, se reuniram, apanhando uma raposa. Em seu longo histórico de caçadas, Asker disse que os momentos passados com a filha e a águia estavam entre suas memórias favoritas. Para Zamanbol, a águia é como uma encarnação dos avós, embora a ave que use para caçar hoje em dia não seja a mesma que o avô lhe deu.

Por questões de costume e afeto, as águias são libertadas depois de algum tempo. Zamanbol tinha 13 anos quando soltou sua primeira águia. A família abateu uma ovelha para a ocasião. Então, ela amarrou uma fita branca na pata da águia, subiu as montanhas e se despediu. “Foi triste", disse Zamanbol, “mas eu queria que ela fosse livre".

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