Vincent Tullo para The New York Times
Vincent Tullo para The New York Times

Meninas levantam a voz num universo predominantemente masculino

Protestos a favor de garotas em corais tradicionais ganha força

Michael Cooper, The New York Times

10 Janeiro 2019 | 06h00

Para os meninos que participam de corais em todo o mundo, este último Natal foi como qualquer outro. Para muitos na Grã-Bretanha, a véspera foi o momento de sintonizar a transmissão de um corista solitário cantando “Once in Royal David’s City” num falsete agudíssimo, antes de ser acompanhado pelos demais meninos e rapazes do coral de King’s College, em Cambridge, fundado em 1441.

Na Áustria, o Coro de Meninos de Viena, que é quase da mesma época, cantou uma obra de Haydn na manhã de Natal, na Capela Imperial. Também naquela manhã, na Alemanha, o Coro de Meninos de São Tomás, em Leipzig, que existe desde 1212, cantou músicas de Bach, que já foi seu líder. E, numa Igreja de São Tomás bem mais jovem, na Quinta Avenida de Nova York, um reconhecido coral de meninos e homens cantou a peça Festival of Nine Lessons and Carols na Véspera de Natal. 

O que nos leva a perguntar: onde estavam as meninas? A dúvida ecoou mais do que o habitual este ano, depois que a soprano britânica Lesley Garrett escreveu um artigo no mês passado pedindo à King’s College que inclua garotas no coral. “Todo Natal, eu acompanho a transmissão das Carols do coral de Kings, que chega ao mundo inteiro, e todo ano eu me pergunto onde estão as meninas", disse Lesley. “Assim, neste ano decidi fazer a pergunta ao público e ver o que aconteceria. O resultado foi uma manifestação maciça de opiniões apaixonadas.”

A alfinetada dela inspirou um debate a respeito das desigualdades de gênero, do valor das tradições, das particularidades dos timbres vocais de meninas e garotos na pré-adolescência, o diferente desenvolvimento da sua voz, e as dificuldades práticas de fazer garotos do século 21 deixarem de lado suas telas e esportes para se dedicarem à cantoria de melodias agudas nos corais.

Algumas das objeções ao apelo de Lesley pela inclusão das garotas foram musicais: os melhores corais de meninos são celebrados por seu timbre específico, às vezes descrito como puro ou etéreo. Mas ainda se debate até que ponto isso é obra da natureza - será que os meninos possuem um timbre único antes de suas vozes mudarem? - e até que ponto o som é o resultado do treinamento. Algumas pesquisas, realizadas com testes de audição envolvendo gravações, nos levaram a questionar o quanto os ouvintes são capazes de diferenciar entre as vozes de meninos e meninas.

David Hill, que foi diretor de música da Catedral de Winchester, na Grã-Bretanha, quando foi introduzido um coral feminino no fim dos anos 1990, citou a sonoridade específica dos meninos ao defender a preservação das tradições, dizendo que ainda deveria haver espaço para corais de meninos, corais de meninas e corais mistos. “Acabar com a tradição dos meninos e rapazes seria destruir algo único no universo dos corais, pelo qual o país é conhecido", declarou Hill, atualmente no Coral Bach.

Os corais de meninos são de uma época em que as meninas não podiam nem mesmo ir à escola, que dirá entrar para o clero. E muitos estão mudando, ainda que com atraso. A diversidade racial e étnica aumentou nos principais corais. E muitos corais britânicos antes dominados por homens agora incluem garotas e mulheres em diferentes graus. A Catedral de Salisbury ajudou a abrir este caminho em 1991 ao formar um coral de meninas; hoje, as cerimônias semanais são divididas igualmente entre meninos e meninas coristas.

Lesley disse não estar tão preocupada com o fato de meninos e meninas cantarem juntos, e sim com as oportunidades oferecidas às garotas: o acesso a bolsas de estudos para as grandes escolas de corais, oferecendo ótimo ensino; ou as mesmas chances de cantar em ocasiões importantes e de maior destaque, como as turnês. “Não estou sugerindo que deveríamos abolir os corais de meninos", disse ela. “Só acho que precisamos trabalhar com mais afinco para que as meninas tenham paridade de oportunidades. Em resumo, igualdade.”

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