Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times
Sui-lee Wee, The New York Times

08 de dezembro de 2018 | 06h00

Tang Haiyan administra uma escola tendo em mente uma missão clara: treinar meninos para se tornarem homens. É claro que há muitas maneiras de ser homem, mas Tang está pensando num tipo específico: um homem que pratica esportes, que supera desafios. “Vamos ensinar os garotos a jogar golfe, velejar e andar a cavalo", disse Tang, 39 anos, “mas não cultivaremos maricas". Tang fundou o Clube dos Meninos de Verdade, que está no centro do debate na China a respeito do significado de ser homem. É um debate alimentado por preocupações quanto à eficácia do exército e resultados acadêmicos frustrantes entre os garotos.

De acordo com a mentalidade do clube, a alternativa para os meninos, de idades entre 7 e 12 anos, é a vida numa sociedade em que ídolos pop andróginos, mães superprotetoras e uma maioria de professoras podem transformá-los em "bebês chorões afeminados". Numa recente tarde de domingo, 17 garotos do Clube dos Meninos de Verdade corriam e tentavam derrubar uns aos outros enquanto aprendiam a respeito do futebol americano. Vestindo um agasalho vermelho, Tang comandava os meninos com jogos de pergunta e resposta.

“Quem é o melhor?” gritou ele.

“Eu sou o melhor!” gritaram todos.

“Quem é o mais forte?”

“Eu sou o mais forte!”

“Quem são vocês?”

“Homens de verdade!”

É verdade que o clube parece destinado a solucionar um problema que a China não tem. Os homens ainda dominam os níveis mais altos da política e dos negócios no país. O sexismo institucional é generalizado. A riqueza se concentra nas mãos dos homens. Mas a preocupação da China com homens fortes adquiriu uma dimensão política. A mídia estatal disse que os videogames, a masturbação e a falta de exercício tornaram muitos jovens inaptos para as forças armadas.

“Apagar as características de gênero de um homem que não teme a morte nem as dificuldades", disse Peng Xiaohui, professor de sexologia da Universidade Normal da China Central, é como aceitar o “suicídio de um país". Tang, ex-professor e técnico de futebol americano, disse que a ideia de fundar o clube surgiu de suas conversas com pais preocupados com o desempenho escolar dos filhos. De acordo com um levantamento realizado em 2014 com 20 mil alunos do ensino primário chinês e seus pais, quase dois terços dos meninos tinham desempenho acadêmico insuficiente, sendo que entre as meninas essa proporção era inferior a um terço.

Mais de 2 mil meninos se matricularam no Clube dos Meninos de Verdade, de acordo com Tang. A mãe Sun Y decidiu matricular o filho de 8 anos por acreditar que o clube ensinaria ele a trabalhar em equipe. Ela pagou cerca de 2 mil dólares por um semestre de aulas. “Ele costumava chorar, mas, agora, parece muito mais disposto", disse ela. “Me parece que sua capacidade de tolerância aumentou, ele aprendeu a lidar com o fracasso e a frustração.”

No início do curso, vários meninos falavam em voz baixa ou passavam meia hora chorando, disse Guo Suiyun, um dos professores. “Quando um deles chora, não aparece ninguém para confortá-los", disse Guo, 30 anos. “Nós apenas os incentivamos a serem fortes.”

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