Kendrick Brinson/The New York Times
Kendrick Brinson/The New York Times

Você usaria roupas íntimas absorventes se elas fossem mais acessíveis?

Estilista de Hollywood, Karla Welch encontra novo mercado com um produto menstrual promissor

Jessica Testa, The New York Times - Life/Style

16 de janeiro de 2021 | 05h00

O conceito de “sangue” e “sangramento” geralmente é evitado no marketing de massa de produtos para menstruação. Só recentemente, e com algum alarde, os comerciais passaram a mostrar um líquido vermelho sendo absorvido, em vez do habitual azul.

Mas quando se trata de roupas íntimas absorventes - um tipo cada vez mais popular de lingeries feitas com tecido extra-absorvente - é difícil de evitar. Ao menos quando se conversa com as fundadoras da Period Company, marca que foi lançada em outubro, divulgando roupas íntimas absorventes mais acessíveis e sustentáveis do que outros produtos menstruais. Para elas, sangrar é uma espécie de grande ato.

“Algo começa a acontecer emocionalmente quando você sangra na sua roupa íntima e não está usando absorventes internos ou externos, e não há resíduos - quando você simplesmente tem permissão para realmente ficar menstruada”, disse Sasha Markova, que, com Karla Welch, fundou a empresa.

“Deixar o sangue fluir é uma experiência muito diferente, e nos sentimos meio evangelizadoras a respeito disso”.

Sasha, diretora de criação de longa data, não está exagerando ao falar em evangelizar; ela se refere à mudança para o produto delas como "conversão". Como em “Nós realmente nos convertemos à ideia dessa roupa íntima”. Ou “A coisa incrível que você pode começar a fazer com a Geração Z é dizer: ‘OK, agora temos você. Ei, converta suas irmãs mais velhas e suas mães. ’”

Há um elemento espiritual nesta abordagem, chegando a algo entre o tipicamente californiano e o culto inofensivo. Mas a conversão é realmente essencial para administrar o negócio. A Period Company e todas as outras marcas que fabricam produtos alternativos (como o coletor menstrual) precisam de clientes que tenham a mente aberta o suficiente para romper com os produtos que sempre usaram - os produtos que suas mães lhes entregaram há muito tempo, "suspirando, como um fardo pesado”, disse Sasha.

Não é um ajuste fácil, especialmente quando gerações de mulheres foram criadas para temer os vazamentos. (Por um tempo, o medo da humilhação foi uma marca registrada dos comerciais de produtos para menstruação, junto com o misterioso líquido azul.) E há uma competição crescente entre aqueles que desejam essa conversão.

É por isso que ajuda o fato de a empresa ter sido cofundada por Karla, uma famosa estilista cujos clientes incluem Tracee Ellis Ross, Olivia Wilde e Sarah Paulson. (No Instagram, Chelsea Handler e Busy Philipps estavam entre as celebridades que fizeram publicidade gratuita à marca, usando camisetas com os dizeres: “Querida Mãe Natureza: Obrigada!”) Karla também projetou uma linha de camisetas em colaboração com a Hanes, inicialmente inspirada em seu cliente Justin Bieber, além de jeans com a Levi's.

 

Quatro anos atrás, quando a primeira menstruação de seu filho chegou, Karla se viu "completamente perdida", lutando para orientar o então adolescente, que não se identifica como mulher, por meio das opções tradicionais.

“O que me fez lembrar de quando menstruei [pela primeira vez] e minha mãe nem conversou comigo sobre isso”, disse ela.

Karla também estava cada vez mais determinada a reduzir a quantidade de lixo que produz, incluindo o plástico descartado toda vez que ela usava um absorvente embalado individualmente.

“Eu estava tipo, ‘tem que haver algo melhor’”, disse ela.

Redefinindo o conforto

Esse tipo de zelo é bastante comum quando se trata de produtos alternativos para menstruação. A internet está repleta de artigos e vídeos pregando o evangelho do coletor menstrual, em particular - ainda mais do que roupas íntimas absorventes - e os males destrutivos dos absorventes internos descartáveis.

Em 2018, essa devoção levou o Shelton Group, empresa de marketing com foco em sustentabilidade, a realizar uma pesquisa sobre esses produtos, coletando respostas de mais de 2 mil pessoas que menstruam.

Na pesquisa, quase 60% dos entrevistados disseram ter usado ou considerado o uso de produtos menstruais reutilizáveis.

“Ficamos pasmos com esse número”, disse Susannah Enkema, vice-presidente do grupo para pesquisas e ideias. Mas não foi nenhuma surpresa que a maioria desse grupo tivesse entre 18 e 34 anos, a faixa etária mais preocupada com o meio ambiente.

“É a categoria de produto perfeita para a geração Z e os jovens da geração Y que absolutamente, mais do que qualquer outra faixa etária, sentem um desejo - e até certo ponto uma obrigação - de se tornarem mais ecologicamente sustentáveis”, disse Suzanne Shelton, CEO da empresa.

 

Conforto sem frescuras

Quando Karla passou a buscar roupa íntima absorvente para sua filha, encontrou uma solução, embora não fosse perfeita. Já que a maioria delas custava entre US$ 25 e US$ 40, e ela não queria pagar US$ 40 por roupas íntimas de adolescente.

As duas marcas dominantes do mercado são Thinx e Knix, ambas fundadas em 2013. Em determinado momento, a Thinx foi considerada uma das empresas de crescimento mais rápido nos EUA. A marca foi manchete por seus anúncios no metrô e pela fundadora, Miki Agrawal, que se autodeclara como "SHE-EO" (grupo que apoia mulheres e pessoas não binárias), demitida em 2017 após alegações de assédio sexual (que ela negou). Outro concorrente, a TomboyX, é especializada em roupas íntimas de gênero neutro, enquanto a Ruby Love (anteriormente PantyProp) foi fundada para ajudar aqueles com incontinência urinária.

As fundadoras da Period Company disseram que são fãs dessas marcas, mas, como Karla repetiu, ela e Sasha estão mais interessadas em ser como a Jockey, oferecendo roupas íntimas básicas sem enfeites, do que como a La Perla. Os preços das peças da Period Company variam entre US$ 12 e US$ 14. (Comparativamente, um pacote de absorventes internos descartáveis normalmente custa menos de US$ 10.)

Suas roupas íntimas se ajustam bem, mas com alguma elasticidade, não são muito diferentes de modeladores, se um modelador tivesse um absorvente costurado na virilha entre duas camadas grossas de algodão. A conversão para a roupa íntima absorvente parece mais fácil para quem já confia nos absorventes reutilizáveis. Existem alguns cortes diferentes, incluindo cintura alta e biquíni. Elas são todas pretas, exceto por dois modelos de tamanho adolescente cinza. Após um dia de uso, o produto é enxaguado na pia, torcido e, em seguida, levado à máquina de lavar ou lavado à mão. Os tamanhos vão até o 3G, mas a empresa espera chegar até o 6G em breve.

“A única maneira de você realmente mudar é se estiver disponível para todos, for acessível e estiver disposto a entrar em um mercado de massa”, disse Karla. “Não queremos ser chiques. Queremos ser acessíveis.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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