Mojgan Ghanbari para o The New York Times
Mojgan Ghanbari para o The New York Times

Mercado de ações do Irã dispara em meio às sanções dos EUA

Ascensão atesta a riqueza dentro do país e a desenvoltura de suas empresas ao enfrentar sanções dos EUA

Peter S. Goodman, The New York Times

28 de fevereiro de 2020 | 06h00

LONDRES - Ele não se preocupou com a economia em colapso do Irã, o acordo nuclear que vem se desfazendo ou as ameaças de guerra feitas pelo presidente Donald Trump. Maciej Wojtal se concentrou numa questão mundana: onde a população do Irã irá comprar biscoitos de chocolate?

Os iranianos vêm sendo forçados a economizar, trocar o almoço nos restaurantes de kebab por prazeres mais baratos, como snacks adocicados. Gorji Biscuit estava bem posicionado para elevar os preços, uma vez que seus concorrentes estrangeiros foram obrigados a se afastar do Irã por causa das sanções americanas. Wojtal, que dirige um fundo de investimento dedicado a ações iranianas, comprou ações e viu seu valor multiplicar mais de cinco vezes em 2019.

“Há empresas que, na verdade, se beneficiaram com as sanções”, disse Wojtal. “Quem precisava competir com produtos importados enriqueceu”. Nascido e criado na Polônia, Wojtal, dirige o único fundo estrangeiro focado na compra de ações negociadas em duas bolsas em Teerã. Para evitar as sanções americanas que proíbem o uso do dólar em transações com o Irã, o fundo de Wojtal é administrado na Holanda e opera em euro.

As sanções proíbem vendas de petróleo iraniano, um forte componente da economia e o golpe sofrido pelo setor seguramente produziu uma desaceleração econômica. A economia iraniana vem contraindo à taxa de 9,5% ao ano, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Mas existe um mercado emergente subjacente - uma nação de mais de 80 milhões de pessoas, muitas com educação superior, está empenhada em se integrar com o resto do mundo. Iranianos criaram empresas que vêm crescendo rapidamente numa série de setores, desde o petroquímico e automotivo até a mineração e agricultura.

São essas empresas que possuem ações negociadas na bolsa de Teerã. No ano passado este foi o mercado acionário com melhor desempenho no mundo, mais do que dobrando de valor em termos de dólar. Vale notar que o título de mercado acionário com melhor desempenho no mundo tende a ser conquistado por países próximos do desastre, onde mesmo mudanças tímidas no sentido da normalidade mudam a sorte de uma companhia. Em 2018, a bolsa IBC de Caracas, na Venezuela, gerou os melhores retornos no mundo.

A duplicação dos preços das ações do Irã sinaliza a capacidade das companhias iranianas de se evadirem das sanções e ao mesmo tempo lucrarem por causa delas, como existem vários exemplos. Algumas pessoas afirmam que isso é resultado do incentivo da liderança iraniana no sentido de as pessoas aplicarem suas poupanças em ações num período em que as alternativas são escassas.

“Meu temor é de que isto não acabe bem”, disse Adnan Mazarei, membro do Peterson Institute for International Economics, em Washington. “Pode ser uma bolha”. O acordo nuclear intermediado pelo presidente Barack Obama em 2015 prometia um alívio depois de anos de sanções que asfixiaram a economia.

Com o esperado aumento do investimento internacional, Wojtal foi para Teerã onde encontrou um mercado de ações que vinha operando há mais de duas décadas. As duas bolsas em Teerã incluíam cerca de 600 empresas, entre elas fabricantes de produtos de primeira necessidade, como alimentos e produtos de limpeza.

Muitas empresas registravam um crescimento de receitas de 30% e 40% por ano, mas os preços das suas ações não refletiam esse bom desempenho. Mas então, em maio de 2018 o presidente Donald Trump revogou a participação americana no acordo nuclear firmado com o Irã e restabeleceu as sanções. Os cidadãos comuns iranianos rapidamente procuraram trocar a moeda doméstica em dólares, com o rial sofrendo uma desvalorização de 70% em 2018.

Para os exportadores iranianos, a moeda debilitada era uma boa notícia. Usaram o rial para pagar seus funcionários e comprar materiais, mas ganharam dólares com as vendas. Seus lucros e os preços das suas ações dispararam. Depois de perder 20% em 2018, o portfólio de Wojatal registrou um aumento de 170% no ano passado.

Os cerca de nove milhões de euros (quase US$ 10 milhões) que ele administra agora são de 20 indivíduos ricos da Europa. Ele pretende aumentar 10 vezes o fundo. Para alcançar essa meta, serão necessários ajustes contínuos de modo a se adaptar a circunstâncias que estão fora do seu controle. “Os riscos são óbvios”, disse ele. “É uma questão de geopolítica”. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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