Krista Schlueter para The New York Times
Krista Schlueter para The New York Times

Mercado de pulgas na Califórnia atrai de hipsters a atores de Hollywood

Há 50 anos o Rose Bowl recebe multidões em busca de roupas vintage e móveis raros

Jacob Bernstein, The New York Times

18 de outubro de 2018 | 06h00

PASADENA, CALIFÓRNIA - Às 4h da manhã do segundo domingo de cada mês, lanternas se acendem como vaga-lumes na seção K do estacionamento do Rose Bowl Stadium. São empunhadas por colecionadores em busca de tesouros: cadeiras de Hans Wegner, calças Levi's com o corte perfeito e camisetas de shows do AC/DC e do Wu Tang Clan.

Os proprietários dos brechós se queixam da falta de bons negócios, mas voltam sempre, chegando até a pular a cerca para bater a concorrência antes da abertura dos portões às 5h da manhã.

Em toda a Costa Leste dos Estados Unidos, os mercados de pulgas estão desaparecendo. Mas, na região de Los Angeles, o clima ensolarado e a falta de empregos alimentaram uma próspera comunidade de trocas e vendas.

Para Fiora Boes, organizadora do mercado de pulgas Silver Lake, em Angeles, esse público é movido "pelo desejo de estar na moda e ter algo para mostrar no Instagram".

Fiora descreveu como "essa molecada" revira as publicações nas redes sociais, os brechós e as feiras de caridade em busca de achados raros. "Então, eles vestem a peça uma ou duas vezes e depois a vendem no mercado de pulgas - ou no Instagram".

O mercado de Rose Bowl atrai cerca de 2.500 vendedores, que pagam aproximadamente US$ 100 por uma cabine, e é organizado há 50 anos nos estacionamentos ao redor do estádio com capacidade para 90 mil lugares, lar da equipe de futebol americano da Universidade da Califórnia em Los Angeles.

O mercado de Rose Bowl foi fundado por Richard Gary Canning, cuja empresa, RG Canning Attractions, começou no ramo da promoção de shows e espetáculos automobilísticos. O mercado deveria servir como uma fonte de renda periférica.

"Nunca imaginei que abandonaríamos a produção de shows e ficaríamos apenas com o mercado, mas foi isso que aconteceu", disse o diretor administrativo, Mike Redd, 71 anos, que vai ao Rose Bowl praticamente todos os meses desde 1968.

Nos anos 1970 e 1980, segundo Redd, o maior mercado do Rose Bowl era o de antiguidades. No início do século 21, o mercado de roupas vintage explodiu, e o Rose Bowl se converteu num ritual religioso para os hipsters unidos pelo desejo de competir entre si para ver quem fica com a jaqueta Cross Colours e a bolsa Chanel.

Atualmente, mais ou menos às 8h da manhã, o Bowl se torna um espetáculo de rua, repleto de barbudos e tatuados em busca de botas Red Wing em meio a colecionadores como a designer de joias Lisa Eisner; a atriz transgênero Candis Cayne; e Brad Pitt, conhecido aqui tanto por seu conhecimento de móveis quanto por seus filmes. Redd disse que, alguns anos atrás, Pitt veio e reparou numa cadeira que despertou seu interesse. O vendedor pedia US$ 600 por ela. Pitt sabia que a cadeira valia muito mais. Assim, ele sacou um maço de notas e deu ao vendedor uma bonificação de US$ 2 mil.

Levando em consideração a preferência política progressista do Sul da Califórnia, surpreende que muitos se interessem por artigos do passado de gosto duvidoso. Vemos por toda parte camisetas com a inscrição "Free O.J.", da época em que O.J. Simpson era julgado pelo assassinato da ex-mulher, Nicole Brown Simpson. Cada uma é vendida por cerca de US$ 100.

Nicholas Baier, um vendedor com cabelo trançado, encontrou uma camiseta com a bandeira sulista da confederação. Não se sentiu ofendido. "Bill Cosby está na minha cabine", disse ele, dando de ombros. "É apenas história" (Baier é branco).

O vendedor Brian Cohen, 44 anos, oferecia camisas com estampas coloridas dos anos 1950, ao preço de US$ 50 cada. Ele disse que, quando os visitantes chegam, sua primeira frase é "'Não consegue fazer um preço melhor?'. Mesmo aqueles que não sabem falar inglês conhecem a palavra 'desconto'".

Hoje, o número de jovens vendedoras no Rose Bowl é muito maior, e muitas delas ocupam cabines decoradas com tendas e tapetes tribais no chão. Mas Cohen as chama de "mocinhas do Etsy", lamentando o efeito de sua presença no Bowl: "Todos começaram a prestar atenção na decoração".

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