Diego Levy para The New York Times
Diego Levy para The New York Times

Mercados emergentes podem enfrentar grande fuga de capital

Altas dívidas em moeda estrangeira agravam a situação de países como Argentina, Rússia e Turquia

Matt Phillips, The New York Times

24 Setembro 2018 | 10h00

As moedas despencam, a inflação sobe, os investidores estão agitados: o pânico ainda toma conta de algumas economias em desenvolvimento. 

O agravamento desta situação contrasta significativamente com o panorama dos Estados Unidos, onde o mercado continua em alta e as condições da economia são otimistas.

Mas as economias de Argentina, Turquia e Rússia se encontram à beira da turbulência. Conheça alguns dos problemas fundamentais de cada um destes países:

Argentina

A Argentina passou a maior parte dos últimos 20 anos fechada aos mercados globais, na esteira de seu derretimento, em 2001. Mas a eleição do presidente Mauricio Macri, em 2015, constituiu uma virada histórica. Ele estabeleceu como sua prioridade fazer o país voltar a gozar das boas graças dos investidores internacionais, retirando as restrições ao fluxo de capitais dentro e fora do país, na tentativa de conseguir acordos com credores que ainda esperam os pagamentos devidos desde o colapso de 2001.

A Argentina recuperou o acesso ao mercado de ações em abril de 2016, quando levantou US$ 16,5 bilhões junto a investidores internacionais. Depois disso, tentou investidores globais com títulos de alto rendimento e a promessa de que o país controlaria gradativamente o problema dos gastos.

Mas a lua de mel da Argentina com os investidores globais acabou este ano. Uma forte seca afetou a produção de soja e milho, crucial para a economia. Por outro lado, o governo mostrou escassos progressos na redução dos déficits. E o banco central baixou os juros enquanto a inflação subia rapidamente, o que foi considerado um sinal de que não se comprometera seriamente a preservar a saúde do peso.

Considerando a história argentina - que inclui as crises de 1980, 1982, 1984, 1987, 1989 e 2001 -, os investidores não se mostraram dispostos a esperar para descobrir o que poderia acontecer.

Este ano, o peso caiu mais de 50% em relação ao dólar. A moeda continuou despencando mesmo depois que o banco central elevou os juros a gritantes 60%, e, em junho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou uma linha de crédito de US$ 50 bilhões.

Turquia

A economia turca funcionou a todo vapor na maior parte dos últimos dez anos. O crescimento registrou em média uma taxa de cerca de 6,8% desde 2010, superando os 3,9 pontos percentuais da economia mundial e outros mercados emergentes, conforme mostram dados do FMI.

Entretanto, grande parte da disposição da economia dependia de uma bolha alimentada pela dívida. As companhias turcas abusaram da emissão de títulos, em grande parte denominados em dólares e euros. O governo do presidente Recep Tayyip Erdogan gastou também para subsidiar grandes projetos.

Todo este dinheiro devido em outras moedas torna problemático o colapso da lira turca. A moeda está afundando há anos, o que veio acarretando uma elevada inflação, mas venda da moeda se transformou em derrota depois que Erdogan foi reeleito em junho e recebeu novos e mais amplos poderes.

Agora, com a lira desvalorizada em 40% em relação ao dólar, as companhias que ganham em liras, mas precisam pagar suas dívidas em dólares, encontram-se em uma situação muito difícil. O número de falências deverá aumentar, e agora muitos economistas acham que a Turquia entrará em breve em uma recessão.

Rússia

Os problemas da Rússia com os mercados globais são peculiares. Desde janeiro de 2017, o governo Trump deu continuidade, de modo geral, à política do governo Obama ao impor sanções a cidadãos com vínculos com o país.

Como os investidores globais contavam com o crescente isolamento do país da economia mundial, o rublo caiu 18% este ano. Uma moeda fraca torna as importações mais caras. As importações russas, embora reduzidas, subiram, e os juros estão crescendo, o que poderá constituir um atraso para o crescimento.

O governo pretende aumentar seus gastos na tentativa de manter a economia caminhando. O patamar da dívida da Rússia, relativamente baixo - sua dívida pública é inferior a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) -, consente um amplo espaço para mais gastos com a construção de estradas e com o bem-estar social, desde que o país consiga os recursos em algum lugar. 

Mas como os investidores internacionais desconfiam da Rússia, o país precisou reformular seu programa de gastos internos e constatou que dinheiro pode significar a tomada de decisões impopulares, como a elevação da idade da aposentadoria. A impopularidade do presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, é resultado desse tipo de propostas.

O que pode acontecer daqui em diante?

É possível que outros países atraiam as atenções dos investidores mais tensos. Mas não é simples prever exatamente até onde vai esta situação. Os investidores já olham com desconfiança os países que devem muito dinheiro em moeda estrangeira. Mas esta é apenas uma parte da história.

Se os investidores acreditam que um país continuará pagando os detentores de seus títulos em uma moeda que mantém seu valor, provavelmente acabarão aceitando até os piores patamares da dívida. Se esta confiança começar a se desfazer, muito cuidado.

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