Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Garimpeiros ilegais envenenam a si mesmos para sobreviver

Enquanto grande empresa de mineração tenta fechar operações ilegais, que usam mercúrio, pequenos mineradores dizem que não há outra maneira de sair da pobreza

Richard C. Paddock, The New York Times

18 de janeiro de 2020 | 06h00

TALIWANG, INDONÉSIA - O garimpeiro autônomo tinha algo a provar: o processamento do minério de ouro usando mercúrio líquido era absolutamente seguro. Assim, ele bebeu um pouco do produto químico tóxico. “Não me preocupo com o mercúrio", disse Syarafuddin Iskandar, 58 anos. “Já o bebi. Demos a substância às vacas e aos búfalos. Os animais beberam. Nada aconteceu. Não há problema.”

O feito fez dele famoso em Sumbawa, ilha indonésia situada 160 quilômetros a leste de Bali, onde campos improvisados de garimpeiros ocupam as encostas. Mas isso também ilustra a dura escolha enfrentada pelos garimpeiros. Para ganhar algum dinheiro, eles acabam envenenando a si mesmos, às suas comunidades e ao meio-ambiente com o uso do mercúrio, método proibido de extração do ouro a partir do minério.

Durante décadas, Syarafuddin e milhares de garimpeiros menores como ele trabalharam ilegalmente em Sumbawa Ocidental em terras que o governo arrenda a grandes mineradoras. Os garimpeiros informais não pagam nada pela exploração da terra, mas embolsam até US$ 6 milhões mensais em ouro. Cerca de um milhão de garimpeiros menores do ouro trabalham em toda a Indonésia.

O uso do mercúrio nos campos informais resulta em efeitos devastadores para a saúde e para o meio-ambiente. O metal pesado é conhecido como veneno de ação lenta que contamina a cadeia alimentar, causando defeitos de nascimento, problemas neurológicos e óbitos. Mas, como as minas trazem um benefício de curto prazo para a economia - empregando pessoas que, sem essa atividade, viveriam na mais abjeta pobreza -, o governo reluta em fechá-las.

Agora, uma empresa de mineração de Sumbawa Ocidental, PT Amman Mineral Nusa Tenggara, está adotando medidas para proteger o meio-ambiente. No ano passado, autoridades de um corpo das brigadas móveis da polícia fecharam os campos de dezenas de garimpeiros ilegais. A polícia ordenou que os garimpeiros destruíssem seu equipamento e fechassem a entrada das minas.

“Estamos arrasados com o fechamento desta mina, pois não temos outra forma de ganhar a vida", disse o garimpeiro ilegal Zaenal Abidin. O fechamento das minas não autorizadas é parte de uma campanha da Amman Mineral para deter o garimpo ilegal e o uso descontrolado do mercúrio.

“No início, pensamos que o problema era apenas a pilhagem ilegal de recursos", disse o diretor da Amman Mineral, Alexander Ramlie. “Mas, quando analisamos a questão mais a fundo, percebemos que se trata de um problema social mais grave. Eles estão criando um desastre ambiental.” Mas, na ausência de alertas do governo ou do policiamento da proibição ao uso do mercúrio, é fácil para os garimpeiros duvidarem da ideia de que a substância é nociva.

Cerca de sete mil garimpeiros autônomos trabalham há anos em uma mina operada pela Amman Mineral chamada Indotan, onde estabeleceram comunidades permanentes e um vilarejo industrial para o processamento do minério. Os garimpeiros combatem todas as formas de tirá-los das terras sem a oferta de outros empregos, said Anton, morador de Sumbawa e dono de minas e usinas. Como muitos na Indonésia, ele usa apenas um nome.

Usando colares de 22 karat feitos a partir do ouro produzido na sua mina, ele questionou por que empresas como a Amman Mineral obtêm lucrativas concessões de mineração enquanto ele e os colegas garimpeiros são mantidos na ilegalidade. “Por que permitir que forasteiros operem as minas quando nós, habitantes locais, somos proibidos de fazer esse trabalho?”, perguntou ele.

Os administradores das minas e os trabalhadores têm bons motivos para não ceder. Garimpeiros da região de Taliwang disseram ganhar até 15 vezes mais com o garimpo do ouro do que com outras ocupações, de acordo com levantamento. As autoridades disseram que o garimpo ilegal é a segunda atividade econômica mais importante para a economia de Sumbawa Ocidental, perdendo apenas para as operações legítimas da Amman Mineral.

Encontrar ocupações alternativas para os garimpeiros é um desafio em um país onde 26 milhões de pessoas - 10% da população - vivem na pobreza. As autoridades disseram não saber ao certo como proceder. As tentativas de convencer os garimpeiros a não usar o mercúrio tiveram pouco sucesso.

“Trata-se de um grande dilema", disse o regente de Sumbawa Ocidental, H.W. Musyafirin. “Se nós os impedirmos de trabalhar, teremos o problema econômico de como alimentá-los.” / Muktita Suhartono contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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