Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Mesmo antes das tarifas de Trump, a China fechou fábricas

País busca mudança para competir com os Estados Unidos em um novo nível

Keith Bradsher e Ailin Tang, The New York Times

31 Março 2018 | 11h00

CHENGKOUZHEN, CHINA - O apartamento de Li Jinzi ficou gelado quando os fornos esfriaram.

Li trabalha em uma fábrica chinesa de alumínio, uma daquelas instalações industriais gigantescas que  contribuíram para desencadear uma guerra comercial global. 

O presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, impôs recentemente tarifas mais elevadas às importações de aço e alumínio, porque as companhias americanas reclamavam que o governo chinês subsidia inúmeras fábricas que esbanjam recursos.

Mas aqui, na pequena cidade de Chengkouzhen, as autoridades deixaram a fábrica ociosa no ano passado. Com isto, ela deixou de produzir o vapor que aquecia os apartamentos onde moram os seus operários.

“Eu preciso usar um grosso casaco acolchoado de algodão, mesmo dentro de casa”, disse LI. “Só espero que esta fábrica volte a funcionar”.

As autoridades em Washington afirmam que a China tem inúmeras fábricas de aço e de alumínio - e muitas autoridades chinesas concordam. Em muitos sentidos, as tarifas de Trump visam batalhas comerciais do passado.

A China agora está obrigando muitas companhias a fecharem as fábricas que poluem e desperdiçam recursos, a fim de equilibrar a economia e despoluir o ar das cidades. O governo quer que elas produzam itens de maior valor e de alta tecnologia - de maneira a concorrer com os produtos americanos em um nível totalmente novo. A China já deixou de exportar aços planos ou alumínio, e atualmente vende pontes de aço pré-fabricadas e rodas de automóvel de liga leve de alumínio.

Nos próximos anos, ela pretende enfatizar mais produtos sofisticados como braços robóticos e automóveis elétricos em que aço e alumínio são apenas ingredientes.

A fábrica de Chengkouzhen transforma materiais brutos em alumínio bruto, que será afetado pelas tarifas de Trump. Mas a mesma proprietária opera outra planta - e esta continua operando. Esta planta, na cidade de Zouping, a 150 quilômetros de distância, usa alumínio bruto e o transforma em peças para automóveis.

Antes das tarifas, as imensas exportações de aço da China para o resto do mundo já vinham caindo, respaldadas pelas iniciativas de Pequim de restringir o setor, e aumentar a demanda interna. As exportações de alumínio da China estão crescendo, mas apenas a uma fração do seu ritmo anterior.

As duas fábricas, de Chengkouzhen e de Zouping, mostram que as autoridades chinesas ajudarão algumas plantas, e permitirão que outras fechem as portas.

Em Zouping, depois que alguns trabalhadores fizeram uma manifestação, as autoridades locais entraram. Elas ajudaram a pagar dois terços do salário dos trabalhadores e conseguiram fazer com que a companhia voltasse a operar parcialmente, segundo duas pessoas a par da situação que pediram para não ser identificadas.

Mas dois dos quatro fornos da fundição de Qixing em Zouping foram fechados.

Em Chengkouzhen, as autoridades viram poucas razões para manter a fábrica aberta.

Quando Li e o marido, que moravam em uma pequena cidade a meia hora de carro dali, se mudaram para Chengkouzhen, há cinco anos, acharam que os seus novos empregos permitiriam que eles passassem a fazer parte da classe cada vez mais próspera dos trabalhadores da indústria pesada da China.

Então veio o fechamento, no ano passado. No final do verão, com os equipamentos polidos, brilhantes, o trabalho de manutenção foi transformado em férias obrigatórias para todos, com a exceção de um grupo de operários. O outono chegou e depois o inverno, e os fornos da fábrica não voltaram mais a funcionar.

Os operários remanescentes recebem apenas uma parte do salário, em geral desembolsado graças à assistência do governo para evitar uma revolta. Alguns são pagos para manterem as luzes acesas.

“Nós ouvimos dizer que a fábrica de Qixing dava bons lucros e oferecia salários altos”, disse Li.  “Quem podia imaginar que entraria em colapso?”

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