KC Nwakalor / The New York Times
KC Nwakalor / The New York Times

Na África Ocidental, o '#MeeToo' esbarra no '#EntãoProve'

Onda de casos de violência sexual na região (e no mundo) alerta sobre as dificuldades que vítimas têm para denunciar

Julie Turkewitz, The New York Times

15 de novembro de 2019 | 06h00

LAGOS, NIGÉRIA - Ela afirmou que aquilo era um segredo tão dolorido que não conseguia mais guardar. Então, aos 34 anos, Busola Dakolo, uma conhecida fotógrafa nigeriana, foi à TV e finalmente falou. Ela disse que tinha sido estuprada duas vezes quando era adolescente, pelo pastor da igreja que frequentava, Biodun Fatoyinbo, líder religioso cujos cultos atraem milhares de pessoas e que começou a ser chamado de “pastor Gucci” pelos fãs, impressionados com seu suntuoso estilo de vida. Ele nega a acusação.

Depois de anos em que o silêncio a respeito de estupros e assédios sexuais foi a regra, a África Ocidental tem testemunhado uma onda de denúncias ligadas ao movimento #MeeToo (#EuTambém). As acusações vêm de uma rainha da beleza do Gâmbia que afirmou ter sido estuprada pelo ex-presidente; de uma ex-assessora presidencial de Serra Leoa que disse ter sofrido um ataque sexual de um líder religioso; e de uma jornalista nigeriana da BBC que obteve imagens de câmera escondida de professores solicitando sexo em troca de admissões e notas.

As gravações provocaram indignação e levaram à suspensão de pelo menos quatro professores. Mas muitas mulheres que tornaram públicos crimes sexuais enfrentaram fortes retaliações, incluindo ataques contra sua reputação e acusações de terem mentido a respeito das denúncias.

Enquanto os detratores afirmam estar meramente aplicando o ceticismo adequado a acusações que não foram provadas, quem apoia as denunciantes afirma que essa reação revela como é difícil para as mulheres da região se abrir.

Medo de denunciar

Mulheres de muitos países foram vítimas de retaliações. Mas as vítimas de ataques sexuais na África Ocidental dizem ter medo de outras coisas, como envergonhar suas famílias, afastar maridos em potencial ou enfrentar instituições poderosas. “Tudo ainda gira em torno de proteger esses homens”, afirmou Busola. A acusação que ela fez resultou em uma visita da polícia, que lhe disse que ela estava sendo investigada em um caso de associação para cometer crimes.

Fatoyinbo afirmou no Instagram que muitas pessoas usaram acusações similares para tentar extorqui-lo. “Nunca estuprei ninguém na minha vida, mesmo quando era um incrédulo”, escreveu o líder religioso, que se recusou a conceder entrevista.

Busola afirmou que fez a revelação depois que ela e seu marido, um astro pop, souberam que o pastor tinha continuado a atacar sexualmente outras frequentadoras da igreja. Mas o custo pessoal, ela acrescentou, foi alto - e incluiu ameaças, assédios e uma difícil conversa com seus três filhos a respeito de estupro. “Você começa a se perguntar, será que fiz a coisa certa?."

Religião

A religião tem uma força enorme na Nigéria, país de 200 milhões de pessoas dividido entre cristãos e muçulmanos. Nos últimos anos, Fatoyinbo aumentou a presença de sua congregação, a Assembleia da Comunidade de Sion, para cinco cidades. Ele prega a cada vez mais popular teologia da prosperidade, que postula que o sucesso econômico pode ser obtido por meio da fé e das doações para a igreja.

Mas Busola encontrou-se com Fatoyinbo aproximadamente duas décadas atrás, quando ele era um astro em ascensão e ela, ainda uma adolescente. Quando ela tinha 17 anos, o pastor a estuprou em duas oportunidades, ela afirmou, uma vez na casa dela e outra em uma beira de estrada em um lugar isolado. Busola disse que o pastor se desculpou, pondo no diabo a culpa pelo seu comportamento.

A entrevista que Busola concedeu em junho ao jornalista Chude Jideonwo, na qual ela acusou Fatoyinbo pela primeira vez, inspirou um protesto do lado de fora de sua igreja e o forçou a tirar uma licença. Mas Busola logo se viu sob pesadas suspeitas. Em um domingo, recentemente, milhares de fiéis se reuniram na igreja da Fatoyinbo para vê-lo pregar a respeito da importância de resistir “a tudo que o inimigo usa para tentar nos seduzir."

Do lado de fora, alguns diziam que o pastor não poderia ter feito nada de errado. Outros admitiam que um encontro sexual poderia ter acontecido, mas encorajavam o pastor a seguir em frente. “Perdoar e esquecer”, afirmou Stephen Yakubu, de 52 anos. “Não é isso que Deus diz?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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