Meu primeiro encontro durou cinco semanas
Maggie Shipstead, The New York Times - Life/Style

21 de janeiro de 2021 | 05h00

"Ventania a vinte nós", escreveu ele. "Pensando em você."

“Enviado por telefone via satélite do alto-mar”, dizia o rodapé do e-mail. “Por favor, mantenha as respostas curtas.”

Ele estava em algum ponto da Antártica, um lugar onde já estivera dezenas de vezes, a bordo de um navio turístico simples onde era o líder da expedição. Havia um capitão e uma tripulação separados, mas ele dirigia o itinerário, supervisionava a equipe e os guias e era responsável por 50 passageiros abastados que gastaram cinco algarismos para percorrer duas mil milhas náuticas do hostil Oceano Antártico para uma terra distante de gelo e neve.

"Pensando em voz alta", escreveu ele em janeiro, "não tenho ideia de como está sua agenda para abril, mas eu poderia ir para a Califórnia e ficar por lá algumas semanas. Eu estaria interessado em fazer caminhadas em parques nacionais."

Concordei, mas logo ele escreveu com uma nova proposta: ele compraria uma passagem de avião para as Ilhas Salomão para mim e nós navegaríamos em um barco aberto de 6 metros, explorando atóis e baías e acampando na praia.

"Maggie", escreveu ele, "sei que é um grande pedido para um primeiro encontro. Aguardo apreensivamente sua resposta. Será que fui longe demais?"

Ele perguntou se eu tinha alguma preocupação e eu tinha. Elas incluíam (mas não estavam limitadas a) queimaduras de sol, crocodilos de água salgada, munições não detonadas da Segunda Guerra Mundial e a possibilidade simples, mas assustadora, de que, uma vez sozinhos em um pequeno barco, ele e eu poderíamos descobrir que não gostávamos realmente um do outro. Nós nunca nem havíamos nos beijado. Éramos basicamente estranhos e ele era 30 anos mais velho do que eu. Eu tinha 32 anos.

Um de meus amigos o chamava de marujo velho; outro, de marinheiro antigo. Sua vida era tão aventureira que, na minha mente, o conceito de idade realmente não se aplicava. Ele vivia a maior parte do tempo em navios e passava seu tempo livre em motos de neve pela Sibéria.

Eu o conheci em uma viagem que ele liderou às remotas ilhas subantárticas espalhadas ao sul da Nova Zelândia. Embora reviradas pelo vento, as ilhas têm temperaturas relativamente amenas e são cheias de vida: flores gigantes de aparência pré-histórica, milhares de pinguins-reis e albatrozes-reais do sul de um branco ofuscante com envergadura de quase 4 metros.

Eu me senti cheia de vida ali também, revigorada pela vida selvagem. Aparentemente imune ao enjoo que derrubou muitos passageiros, passei horas na ponte de comando vendo a proa se chocar com as ondas.

No meio da viagem de duas semanas, comecei a me perguntar se ele tinha uma queda por mim. Não, devo estar imaginando coisas. E mesmo se eu não estivesse, eu poderia seriamente considerar alguém muito mais velho, tão interessante? Mas minha paixão pelas ilhas subantárticas havia me deixado com menos ressalvas, e ele fazia parte dessas ilhas. Em uma delas, ele havia redescoberto uma espécie de pássaro que antes se pensava extinta. Em outra, ele conseguiu uma cicatriz no joelho de uma mordida de leão-marinho. Às vezes, quando falava sobre a vida selvagem subantártica, ele ficava com os olhos marejados.

Enquanto eu me sentava no bar do navio com alguns cineastas irlandeses - os únicos outros passageiros bem abaixo da idade de aposentadoria - ele me trouxe pequenos presentes, assim como pinguins cortejam oferecendo pedrinhas a parceiros em potencial: tigelas extras de batata frita, um livro que ele coescreveu.

Os cineastas sorriram com malícia para mim.

“É uma loucura eu achar que estou interessada?”, perguntei pra eles.

Em nossa última noite, eu o procurei, curiosa para saber se ele tentaria algo. Nossa conversa foi no mínimo estranha, mas no decorrer dela ele me contou que havia chegado à noite a um acampamento de pastores de renas Chukchi na Sibéria. Acima de um vasto rebanho de milhares de animais e a fina nuvem congelada da respiração delas, luzes verdes retorcidas da aurora no céu.

Nunca antes invejei tanto a lembrança de outra pessoa. Minha bússola interna girou em sua direção e travou.

Quando deixei o navio, decidi que se ainda pensasse nele em uma semana, entraria em ação. No oitavo dia, enviei um e-mail casualmente perguntando sobre acompanhá-lo em uma de suas viagens à Sibéria para escrever sobre isso. A logística não funcionou, mas logo estávamos tentando descobrir onde e quando poderíamos nos encontrar.

Eu disse sim para as Ilhas Salomão, mas o plano foi prejudicado por um conflito de agendas. Ele escreveu de volta no dia seguinte. Ele voltaria da Antártica em duas semanas, renovaria o estoque de provisões e reabasteceria, pegaria novos passageiros e partiria novamente. Eu queria ir junto?

"Você não vai gostar do corpo dele", disse minha mãe quando eu disse a ela que teria um primeiro encontro de cinco semanas em um continente coberto de gelo com alguém quase da sua idade. “Não será o que você está acostumada”. De forma ameaçadora, ela acrescentou: "Você não vai gostar das unhas dos pés dele."

Quando parti, era inverno em Los Angeles e, quando cheguei, era verão em Invercargill, uma cidade portuária na parte inferior da ilha sul da Nova Zelândia. Ele estava no terminal minúsculo, parecendo nervoso, vestindo uma camisa polo com o logotipo de sua empresa bordado no peito e segurando três rosas vermelhas envoltas em celofane.

Enquanto ele me beijava brevemente na boca, perguntei-me se faríamos sexo naquela noite. Eu não conseguia imaginar isso. Ele parecia totalmente desconhecido. A ficha caiu, assim que o navio partisse, eu não teria como voltar atrás.

Enquanto dirigíamos para as docas, ele segurou minha mão e explicou que havia me colocado em uma cabine de passageiros com uma simpática senhora Kiwi e, também, ele decidiu que seria melhor se eu atuasse como uma funcionária da expedição. Dessa forma, ele não pareceria estar envolvido com uma passageira e eu poderia comer com a equipe e, no geral, divertir-me mais.

Fui presenteada com a minha própria camisa polo com logo bordado. Nós concordamos que eu cuidaria do bar, conduziria as pessoas nas caminhadas e faria tudo mais que minhas modestas habilidades permitissem.

Parecia uma ótima ideia, pois eu não tinha interesse em ser aproveitadora ou concubina e ansiava pela legitimidade de fazer parte do time. Mas quando embarquei, o constrangimento tomou conta de mim. Embora os outros integrantes da equipe fossem gentis, eu pude ver a verdade em como eles olhavam para mim: eu era a namorada. Coloquei as rosas na minha bolsa.

Não posso contar toda a história de um primeiro encontro que poderia ter sido um desastre, mas acabou sendo o risco que inspirou meus riscos subsequentes, um salto em algo extremamente incerto, algo que não durou, mas expandiu meu mundo em caminhos além da latitude. Passei a cobiçar sua competência e intrepidez e percebi que minha tarefa não era agarrá-lo, mas estimular essas qualidades em mim mesma, sair pelo mundo em busca do que mexe comigo.

Não posso contar a história toda porque é muito longa. Mas, se pudesse, contaria como ele me levou a uma floresta de árvores de retorcidas, onde flores vermelhas caídas de seus galhos cobriam o chão e pinguins e leões-marinhos espiavam por trás de troncos cobertos de musgo. Eu contaria a você sobre mares cobertos de gelo e pinguins emergindo de águas negras. Eu contaria sobre os bilhetes de amor que ele deixou no meu travesseiro. Eu poderia garantir a você que, na verdade, ele não tinha certeza de que dormiríamos juntos na viagem, mas eu admitiria também que na primeira semana, meu nervosismo se transformou em um poderoso desejo.

Por fora, nós lutamos para nos conectar, mas algo escondido e sem nome nos uniu. Explicar seria tão impossível quanto explicar por que nós dois amamos o mar, os animais selvagens, as paisagens naturais. Depois de cada dia de trabalho terminado, conforme navegávamos para cada vez mais longe do meu mundo conhecido, eu iria para sua cabine e subiria em seu beliche enquanto ondas de seis se chocavam com o navio e o crepúsculo perpétuo do verão Antártico pairava sobre o mar.

Já que não posso lhe contar sobre tudo isso, também não tenho que explicar como as coisas desmoronaram. Eu não preciso falar sobre como ele ficava impaciente nos espaços urbanos domesticados onde passo a maior parte da minha vida, ou como ele teve problemas para me incorporar ao seu mundo também. Não vou lhe dizer que a última noite que passamos juntos foi em um trailer no Alasca, estacionado ao lado do quintal de um homem que mais tarde ganharia uma corrida anual de trenós, ou que acordei no meio da noite com uma centena de cães de trenó uivando juntos, um vórtice de som sobrenatural e inescrutável.

Enquanto ele dormia ao meu lado, imperturbável, pensei em como essa memória seria só minha: a noite lilás, o homem adormecido, o céu com luzes em redemoinho e o som dos cachorros. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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