Stephen Speranza para The NewYork Times
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Mexicanos exigem mais do que a condenação de El Chapo

A catastrófica guerra contra o tráfico no México é muito maior do que um só homem, ainda mais quando o julgamento não abordará os assassinatos cometidos pelo cartel

Ioan Grillo, The New York Times

23 de fevereiro de 2019 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - As pessoas fizeram fila fora do tribunal em Nova York, no início de fevereiro, para ter a chance de ouvir as instruções do júri no julgamento de Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo. 

No dia 12 de fevereiro, o júri apresentou o veredicto de culpado em todas as acusações, inclusive formação de quadrilha para matar e lavagem de dinheiro. Durante o processo, enquanto a atenção do público americano se concentrava no tribunal, o governo mexicano concedeu uma entrevista coletiva à imprensa sobre desaparecimentos forçados. As cifras eram alarmantes. 

Os dois momentos - o julgamento de Guzmán em Nova York e a continuação da tragédia sangrenta no México - estão intrinsecamente relacionados. As autoridades afirmaram na coletiva de 4 de fevereiro que o México tem registros de mais de 40 mil pessoas desaparecidas, muitas delas em áreas onde os narcotraficantes são mais fortes.

Os investigadores descobriram 1,1 mil valas comuns, e o mais impressionante é que nos necrotérios há 26 mil corpos que não foram identificados. "O que revela a magnitude da crise humanitária", disse Alejandro Encinas, o subsecretário para os direitos humanos do México. "O nosso território tornou-se uma imensa tumba clandestina."

Entre os detalhes sobre o fascínio pessoal e a venalidade de Guzmán apresentados ao longo dos três meses do desenrolar do processo, foi fácil esquecer que a importância real de tudo isto era sua posição no topo do cartel da droga de Sinaloa, uma das forças que mergulharam a nação em um doloroso conflito armado e causaram tantos massacres, valas comuns e refugiados.

As histórias a respeito de Guzmán correndo nu pelos túneis com a sua amante, o glamour de sua esposa, uma rainha de beleza comparecendo ao tribunal, o brutal assassinato de informantes da polícia, a criatividade usada para contrabandear cocaína em latas de pimenta -  tudo isto não passa de cobertura de entretenimento.

O foco no indivíduo pode desviar a atenção das dimensões da crise vivida pelo México. O recente veredicto seguiu-se a mais de 200 mil assassinatos nos últimos dez anos, um grau de derramamento de sangue que dilacera o coração da nação. 

Mais de 100 jornalistas perderam a vida, inclusive o meu amigo e colega Javier Valdez Cárdenas, a respeito do qual foi interrogada uma das testemunhas contra Guzmán. Tudo isso deu origem a um movimento de familiares dos mortos e desaparecidos, com a finalidade de fazer pressão para ver punida a violência contra seus entes queridos, ou pelo menos encontrar seus corpos.

Diante de tamanha carnificina, obviamente é positivo que Guzmán, o líder de um dos cartéis envolvidos, seja condenado e provavelmente passe o resto da vida em uma prisão de segurança máxima. Mas, considerando que até o momento este foi o maior processo relacionado à catastrófica guerra das drogas do México, parece apenas uma vitória com um travo amargo na batalha pela justiça.

É doloroso que Guzmán seja condenado nos Estados Unidos e não no México, onde semeou a corrupção e o terror. Depois que ele fugiu de duas das mais famosas prisões de segurança máxima aqui, o governo mexicano reconheceu que as suas instituições não eram suficientemente fortes para mantê-lo preso e o extraditou para o norte.

Como resultado, as acusações foram relacionadas na maior parte às suas atividades no tráfico de drogas para os americanos e não aos seus assassinatos de cidadãos mexicanos. No processo, 14 comparsas testemunharam contra ele, segundo o tão criticado sistema da delação premiada.

Um deles, Juan Carlos Ramírez Abadía, apelidado Chupeta, confessou ter ordenado 150 assassinatos, na maioria em seu país, a Colômbia e, no entanto, esperava que sua sentença fosse reduzida em troca da delação. Depois de ouvir as gravações de áudio de Guzmán concluindo acordos de drogas, a questão que se levanta é se foi necessário que os promotores colaborassem com criminosos tão impiedosos.

"Foram beneficiados indivíduos loucos, narcotraficantes, maníacos", afirmou o advogado da defesa Jeffrey Lichman em suas alegações finais. "O dia em que os conluios da cocaína forem feitos no céu, poderemos chamar os anjos para testemunhar", afirmou a procuradora adjunta Amanda Liskamm, em sua refutação.

As testemunhas falaram dos subornos pagos a autoridades mexicanas, a policiais e soldados ao ex-presidente Enrique Peña Nieto, que foi acusado de receber US$ 100 milhões. Tragicamente, isto não chegou a surpreender os cidadãos no México, onde há muito as pessoas no topo do poder são acusadas de corrupção.

Entretanto, há poucas esperanças de que elas venham a ser punidas. O presidente Andrés Manuel López Obrador disse que o governo mexicano precisará de provas incontestáveis para processar Peña Nieto. "Não poderemos julgá-lo se não tivermos provas", afirmou. E acrescentou que processar um ex-presidente seria uma decisão que mergulharia o país em um confronto, enquanto ele tenta construir a união.

E, apesar da infâmia de Guzmán, há várias indagações, como ele foi realmente o maior traficantes do México ou apenas um dos vários barões poderosos, como o seu colega traficante de Sinaloa Ismael Zambada García, chamado El Mayo, que está foragido? Na realidade, a promotoria disse em suas alegações finais que não importa se Guzmán não foi o chefe supremo do cartel, pois de qualquer maneira, ele foi um dos chefões.

Um veterano agente da Drug Inforcement Administration dos EUA certa vez admitiu que a política de derrubar os chefões não parou o fluxo de drogas. Mas afirmou que poderá deter certos traficantes que estão se tornando excessivamente infames e poderosos, o que faz dele uma ameaça ao governo.

Talvez a condenação de Guzmán mostre, pelo menos, aos aspirantes a traficantes que eles não podem tornar-se tão notórios quanto El Chapo e escapar das malhas da lei. Mas para as famílias que procuram seus entes queridos nas valas comuns no México e as dos que morreram de overdose nos Estados Unidos, a busca por justiça e paz não acabou.

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