Alejandro Cegarra / The New York Times
Alejandro Cegarra / The New York Times

Luta livre, ioga, dança: bem-vindo a um centro de vacinação mexicano

Para acalmar idosos da Cidade do México, que chegavam “com muito medo” aos locais de vacinação, autoridades chamaram bandas e lutadores mascarados

Natalie Kitroeffyp, The New York Times – Life/Style

17 de maio de 2021 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO – Uma pessoa com o traje do Charlie Brown acena com entusiasmo. Outra vestida de macaco finge tirar fotos com uma câmera de pelúcia. Um idoso que acabou de receber sua segunda dose da vacina da Pfizer pega um microfone e começa a cantar bem alto. "Tenho 78 anos, mas me dizem que pareço ter 75 e meio", diz o homem alegremente, a avaliação apoiada por sua aparente força pulmonar ao cantar uma "canción ranchera" de forma descontraída.

Em uma tentativa de melhorar o atendimento, os centros de vacinação na capital do México oferecem uma gama de opções de entretenimento, incluindo dança, ioga, apresentações de ópera ao vivo e a chance de assistir aos enormes lutadores de luta livre sem camisa fazendo a dança da cordinha.

O objetivo é tornar o processo o mais atraente possível, segundo uma mulher que liderou uma apresentação de canto e dança para pessoas que aguardavam a vacina em um desfile militar na Cidade do México em uma quarta-feira recente. "Ponha essas mãozinhas para cima!", gritava esporadicamente para as pessoas mais velhas que estavam sob seus cuidados.

"Só estou fazendo isso para me manter em movimento", comentou Flora Goldberg, de 86 anos, que obedientemente colocou os braços para cima e para baixo ao ritmo da música depois de ter sido vacinada.

O esforço é ainda mais importante devido ao alarmante ressurgimento do vírus na América Latina e aos esforços de vacinação irregular em muitos de seus países. As preocupações aumentaram recentemente com a rápida disseminação de uma variante do vírus descoberta no Brasil.

No centro de vacinação da Cidade do México, mulheres com camisa branca lideraram a multidão em poses de ioga que poderiam ser praticadas em uma cadeira de rodas. Os homens faziam manobras com um número surpreendente de bolas de futebol. Um cantor de ópera profissional dava parabéns a todos. "Que lindo dia para o México. Estarei aqui a semana toda", comemorou, recebendo aplausos consideráveis.

A pandemia não tratou bem o México. Embora o país tenha um dos maiores registros de mortes por coronavírus em todo o mundo, o governo resistiu à imposição de bloqueios rígidos, temendo danos à economia, e não fez testes em larga escala, argumentando que seria um desperdício de dinheiro.

Muitos acreditam que a única saída para esse pesadelo é a vacinação em massa, mas a campanha estava progredindo a passos lentos. Em meados de abril, porém, o ritmo se acelerou em todo o país – e, depois de alguma confusão inicial, a capital melhorou a eficiência no processo de vacinação. "Rapidamente, percebemos que, com a estratégia que vínhamos adotando, não poderíamos atender os idosos com o nível de serviço que eles merecem", disse Eduardo Clark, que ajuda a coordenar o programa de vacinação da cidade.

No início, as pessoas estavam sendo vacinadas em dezenas de escolas e clínicas da cidade. Sem funcionários mais experientes, o caos se instalava com frequência nos locais. Clark contou que, para obter a vacina, os idosos tinham de esperar durante cinco horas sob o sol nas movimentadas ruas laterais.

Assim, o governo consolidou a campanha de vacinação em locais mais amplos – e, logo, as pessoas que os administram começaram a competir para ver quem conseguia tornar a experiência mais memorável.

Clark insiste que a cidade não tentou fazer com que a campanha de vacinação viralizasse. "Eu não diria que se trata de publicidade. Mas, quando as mídias sociais mexicanas começaram a ser inundadas com vídeos de idosos dançando depois da vacinação, ficamos muito orgulhosos. Quase chorei", contou o coordenador.

É difícil dizer se o espetáculo está aumentando os números, mas as pessoas que chegam para ser vacinadas se sentem, pelo menos até certo ponto, confortadas com toda a atividade, de acordo com Beatriz Esquivel, que coordena os postos de vacinação para a cidade. Os idosos temiam que a vacina pudesse deixá-los doentes ou que o governo fosse injetar ar. "As pessoas estavam chegando com muito medo, muito estressadas, porque pensavam que a vacina causaria danos a elas. Queríamos relaxá-las e distraí-las", afirmou ela.

Goldberg, a dançarina relutante, achou o processo de vacinação organizado e eficiente – ao contrário de sua avaliação de tudo o mais que o governo fez durante a pandemia. "É por causa daquele homem – melhor não pronunciar o nome dele – que disse não à máscara." Ela não especificou se estava se referindo ao presidente Andrés Manuel López Obrador ou ao seu czar do coronavírus, Hugo López-Gatell, que mantêm uma relação confusa em relação ao uso de máscara. "Poderíamos ter evitado milhares e milhares de mortes se, desde o início, eles tivessem levado tudo isso a sério", disse suavemente, antes que um funcionário da cidade a levasse para fora da seção de observação.

A meia hora de distância, no estádio que sediou as Olimpíadas de 1968, Maria Silva, que havia acabado de receber a segunda dose da vacina da AstraZeneca, dançou com cinco lutadores de luta livre que usavam máscara colorida, chamados Gravity, Bandido, Guerrero Olímpico, Hijo de Pirata Morgan e Ciclón Ramírez Jr. "É um pouco de alegria. Isso reanima nosso coração", gritou Silva mais alto que a banda que tocava ao vivo a um metro de distância, enquanto balançava a cabeça ao ritmo da música.

Com a pandemia fechando as arenas de luta livre, o governo deu uma função criativa aos lutadores: abordar as pessoas de forma contundente para convencê-las a usar a máscara e encenar para elas durante a vacinação. "Estou feliz por eles estarem aqui, cooperando, em solidariedade às pessoas", observou Francisca Rodríguez, cuja cadeira de rodas do marido foi momentaneamente confiscada por um suado Ciclón Ramírez Jr.

Rodríguez achou que López Obrador fez um trabalho "excelente" na gestão da pandemia, embora tenha reconhecido que o presidente levou uma surra por se recusar a vacinar os trabalhadores dos hospitais privados, que dizem que estão sendo obrigados a esperar mais que os trabalhadores de hospitais públicos. "Há uma guerra da mídia contra López Obrador agora. Até os jornais americanos estão atacando o presidente", afirmou ela, incisivamente.

Enquanto as pessoas eram vacinadas e encaminhadas para a área onde ficariam em observação para reações adversas, os lutadores ecoavam o canto: "Sim, você pode!"

"Meus filhos vão me perguntar como foi, por isso vou levar provas para eles", contou Luis González, de 68 anos, que gravou a performance com o celular. Quando a esposa de González contraiu o coronavírus, há quatro meses, ele ficou ao lado dela, abanando-a com um pedaço de papelão para ajudá-la a respirar melhor. Depois de 38 anos de casamento, ele a viu morrer em casa, esperando por uma ambulância.

González ficou sentado na primeira fila mesmo depois que seu período de observação acabou, sozinho, vendo a dança dos lutadores. "Sinto um vazio, especialmente à noite. Durante o dia, eu me distraio com mais facilidade."

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.