Adriana Zehbrauskas/The New York Times
Adriana Zehbrauskas/The New York Times

México cria abrigo para prostitutas aposentadas

Criada com recursos públicos e privados, a casa atende, hoje, mulheres dos 53 aos 87 anos de idade

Adriana Zehbrauskas, The New York Times

31 Março 2018 | 10h30

CIDADE DO MÉXICO - Marbella Aguilar guarda seus livros usados em uma prateleira escondida em seu quarto na Casa Xochiquetzal, uma grande mansão colonial de cor amarela, no centro da Cidade do México.

“Adoro ler e escrever”, disse Marbella, 61. “Poesia, prosa, qualquer coisa. Não consigo dormir sem os meus livros ao meu lado”. Ela menciona “Os Miseráveis” e “Lolita”, bem como obras de Pablo Neruda e de Leon Tolstoi.

Mas suas próprias experiências pessoais dariam um livro, porque ela não teve uma vida comum. E a Casa Xochiquetzal não é uma casa comum: é um abrigo para prostitutas aposentadas ou semiaposentadas.

A Casa Xochiquetzal, que tem o nome da deusa asteca da beleza e do sexualidade, abriu as portas em 2006, depois que Carmen Muñoz, uma ex-prostituta, encontrou algumas de suas antigas colegas dormindo embaixo de papelões em La Merced, bairro da luz vermelha nas proximidades. As mulheres estavam em condições miseráveis, sozinhas, sem ter aonde ir.

Carmen as abrigou e começou a procurar aliados. Um grupo de conhecidas feministas mexicanas ofereceu-se para ajudar. Com recursos privados e públicos e um edifício que a prefeitura da Cidade do México cedeu gratuitamente, fundaram a Casa Xochiquetzal.

“É comum membros da família, até mesmo filhos, as abandonarem, e inclusive as atacarem, quando descobrem que são trabalhadoras do sexo”, disse Jesica Vargas González, diretora do abrigo. “Esta é ainda uma ocupação muito estigmatizada”.

As atuais 16 ocupantes, com idades que vão dos 53 aos 87 anos, são responsáveis pela preparação das refeições e pela limpeza dos quartos e de todas as áreas comuns. Elas obedecem a um cronograma que detalha as tarefas obrigatórias.

“Eu gosto de tudo limpo, brilhando”, disse Rosa Belén Calderón Velásquez, 68, aparentemente sempre ocupada em passar o pano no chão ou tirando o pó. “Minha mãe costumava dizer: ‘Faça direito ou não faça nada’”, acrescentou com um olhar exasperado no rosto.

As moradoras têm duas oficinas diárias de artesanato e de culinária. A única televisão, no pátio, só é ligada depois das 6h da tarde. Não é permitido usar drogas na casa.

Às vezes, mulheres que não são prostitutas aposentadas podem se hospedar temporariamente, em geral mulheres sem-teto que são vítimas de abusos. Todas recebem assistência médica e psicológica.

“Estas mulheres precisam de muito amor, elas sofrem de uma grande solidão”, explicou Karla Romero Téllez, 29, psicóloga voluntária do abrigo. “Mas elas são muito fortes. São sobreviventes. É isso o que as define”.

María Norma Ruiz Sánchez, 65, foi estuprada aos 9 anos, quando voltava da escola em uma aldeia rural, em Jalisco. Ainda tem a cicatriz na coxa esquerda provocada pela faca que rasgou seu uniforme escolar.

Ela fugiu de casa aos 14 anos, para escapar do irmão que abusava dela. Um motorista de caminhão deu carona para ela até San Francisco, nos Estados Unidos. Lá, ela passou o aniversário de 15 anos sozinha em um quarto, comendo sanduíche de galinha e tomando cerveja.

Mas logo voltou para o México. Ela teve o primeiro de seus quatro filhos aos 16 anos, trabalhou na lavoura, foi dona de cabaré, tornou-se lutadora profissional e teve inúmeros amantes, mas um único verdadeiro amor. Também tentou o suicídio quatro vezes.

María Norma ainda vai ocasionalmente ao seu escritório, como o chama, um parque ao lado da estação do metrô de Hidalgo, onde novos clientes e antigas lembranças convergem em uma espécie de névoa. “Estou muito cansada, tudo dói”, contou. “Brinco a respeito da minha vida para poder viver um dia após o outro, mas minha tristeza não tem fim”.

As moradoras, antes tão familiarizadas com o ritmo frenético e arrebatador das ruas ao seu redor, agora observam calmamente de longe a vida desenrolar-se nas ruas, espiando por trás das altas janelas da casa.

Marbella trabalha do outro lado da rua, em uma loja de bonecas. Ela não gosta de falar do passado, e quando começa sua história, não consegue segurar as lágrimas. Mas recitou parte de um poema que ela mesma escreveu:

“Eu sou a única que te ama

Sou a única que te ouve quando estás triste

Sou a única que te conforta em tuas noites de sofrimento

A única que te aquece quando estás com frio

E mesmo se me ignoras,

estarei sempre aqui para ti."

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