Mauricio Lima para The New York Times
Mauricio Lima para The New York Times

México cria abrigos temporários para acolher migrantes da América Central

Questão diplomática será desafio para o presidente Andrés Manuel López Obrador

Kirk Semple, The New York Times

03 de janeiro de 2019 | 06h00

TIJUANA, MÉXICO - O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, baseou sua campanha na promessa de que ajudaria seu povo. Mas os milhares de migrantes que agora se amontoam na fronteira com os Estados Unidos revelam o enorme desafio que a migração em grande escala constitui para toda a região. Eles enfatizam a pressão que o México está sofrendo por ter se tornado o destino de imigrantes, e não apenas um corredor de passagem.

“As elites econômicas e políticas da América Central, juntamente com o México, há muito tempo estavam acostumadas a considerar a imigração um problema dos Estados Unidos, afirmando que é para lá que as pessoas querem ir, e portanto é melhor não se envolver. A crise que eclodiu recentemente agora obriga a América Central e o México a não se esconderem por trás desta desculpa esfarrapada, o que é bom”, disse Carlos Heredia, professor da CIDE, uma universidade da Cidade do México.

No dia 20 de dezembro, os Estados Unidos anunciaram que os imigrantes em busca de asilo no país terão de esperar no México até que os seus casos sejam solucionados. Antes, os que recebiam uma aprovação inicial na fronteira podiam permanecer nos Estados Unidos até a solução definitiva do seu processo. Os tribunais de imigração americanos têm 760 mil casos pendentes, segundo relatórios.

Mas o plano talvez não seja visto de bons olhos no México. O governo López Obrador, quem sabe em troca de um acordo sobre o asilo, espera que o governo Trump apoie uma estratégia abrangente de desenvolvimento para sanar os problemas da pobreza e da violência que geram em grande parte a migração.

No dia 1º de dezembro, López Obrador, os presidente da Guatemala e de Honduras, e o vice-presidente de El Salvador, assinaram um acordo sobre a elaboração de uma estratégia que as autoridades mexicanas compararam ao Plano Marshall, a iniciativa americana para a reconstrução da Europa Ocidental depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas, no curto prazo, o governo López Obrador terá de cuidar dos migrantes. Ao todo, cerca de 8 mil deles vindos com as caravanas chegaram até a fronteira, e a maioria parou em Tijuana. As autoridades locais e estaduais procuraram acomodá-los, abrindo um abrigo temporário em um complexo esportivo.

A burocracia federal proporcionou acesso rápido ao processo de asilo mexicano. Os migrantes podem pedir asilo  ou então um visto humanitário, que é válido por um ano, é renovável e permite que os solicitantes trabalhem legalmente. No final de novembro, mais de 400 migrantes haviam apresentado o pedido.

Muitos acharam a opção do visto humanitário mais atraente porque oferece maior flexibilidade quanto ao lugar onde podem morar, e o seu processo é mais rápido. Antes mesmo das caravanas, o sistema de concessão de asilo do México já se encontrava sob pressão. Em 2017, foram mais de 14.600 os pedidos de asilo no México, 11 vezes mais do que em 2013, segundo o governo. A ONU calcula que em 2019 poderão chegar a 47 mil.

Recentemente, Oscar López Davila, 31, migrante proveniente de Honduras, analisava os prós e os contras do pedido de um visto humanitário em comparação ao asilo. A sua intenção mesmo era chegar aos EUA, e ele espera que, uma vez que toda a comoção gerada pelas caravanas tenha se acalmado, encontrar uma maneira - legal ou não - de cruzar a fronteira.“Posso ficar aqui e alugar um apartamento por um ano, e esperar até que tudo se acalme”, refletiu. “Mas o meu sonho são os Estados Unidos”.

Maya Averbuch e Paulina Villegas contribuíram para a reportagem.

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