Daniel Becerril/Reuters
Daniel Becerril/Reuters

México espera que petróleo renove setor energético

O país está investindo recursos públicos no setor dos combustíveis fósseis em vez de optar pela energia eólica e solar

Elisabeth Malkin, The New York Times

27 de abril de 2019 | 06h00

TULA, MÉXICO — O presidente Andrés Manuel López Obrador vislumbra um futuro no qual o México produzirá mais petróleo, gasolina e eletricidade. Mas sua estratégia aposta em um retorno ao passado de seu país. Rompendo com cinco anos de reforma do setor energético que abriram a indústria mexicana do petróleo ao setor privado, López Obrador quer gastar bilhões de dólares para reforçar empresas de energia pertencentes ao estado.

Obrador, um esquerdista orgulhoso, disse que pretende restaurar os dias de glória da empresa nacional do petróleo, Petróleos Mexicanos, ou Pemex, quando ela ajudava a tornar o México autossuficiente do ponto de vista energético e proporcionava centenas de empregos bem remunerados. A Pemex ainda é uma das maiores empregadoras do país e financia cerca de 20% do orçamento nacional. Mas a produção de petróleo caiu para cerca de metade do volume observado no auge, em 2004. O México foi o 11.º maior produtor mundial de petróleo no ano passado - em 2002, o país ocupava a quarta posição.

Para deter o declínio, o governo do antecessor de López Obrador, o ex-presidente Enrique Peña Nieto, começou a leiloar os direitos de exploração e produção de petróleo a empresas pertencentes a investidores. O México também permitiu que investidores estrangeiros expandissem sua presença na indústria energética. López Obrador interrompeu a maioria dos novos investimentos estrangeiros em energia.

Os críticos alertam que ele está investindo dinheiro público em uma indústria de combustíveis fósseis em processo de ser substituída por tecnologia mais limpa. “É impossível resolver os desafios do século 21 com uma visão digna da década de 1930", afirmou Lourdes Melgar, subsecretária de energia do governo anterior.

Sem investimento

Um dos maiores problemas é o fato de a Pemex e a empresa de eletricidade pertencente ao governo, Comissão Federal de Electricidade, não terem dinheiro para implementar a visão de López Obrador. E elas também carecem da experiência com tecnologias como a perfuração em águas profundas e a energia renovável.

Arrastando uma dívida de US$ 107 bilhões, a Pemex é a empresa de petróleo mais endividada do mundo. Em janeiro, sua produção foi a mais baixa em 40 anos, enquanto suas refinarias antigas funcionam com aproximadamente um terço da capacidade. A corrupção inchou os custos operacionais. E o México aplica impostos pesados aos lucros da Pemex. A maioria dos analistas estima que a empresa precise investir pelo menos US$ 20 bilhões.

López Obrador disse que a Pemex vai gastar US$ 8 bilhões para construir uma nova refinaria em três anos. Para os analistas, o plano é difícil de acreditar. O projeto é a peça central do esforço de Lopez Obrador para encerrar a crescente dependência do México em relação à gasolina importada dos EUA, que responde por cerca de dois terços do consumo nacional. Críticos dizem que ele está investindo bilhões em uma divisão corrupta e ineficiente da Pemex.

Na comissão de eletricidade, o governo cancelou em janeiro um leilão do direito de geração de energia éolica e solar, mesmo com os leilões anteriores produzindo alguns dos preços de energia mais baixos do mundo. O grupo ambiental Greenpeace disse que, sem mais investimentos em energia renovável, o México não conseguirá alcançar as metas de redução de emissões de gases-estufa combinadas no acordo de Paris, ou mesmo cumprir as próprias leis.

O presidente não excluiu completamente o investimento privado. Ele desafiou as empresas privadas de petróleo que entraram no México nos anos mais recentes a acelerarem suas operações para concorrer com a Pemex. “Nada de ideologia nem questões políticas; queremos um teste prático, com resultados. Vamos ver quem trabalha melhor", disse. 

As agências de classificação alertaram que podem rebaixar a nota da dívida mexicana, em parte por causa do volume de gastos do governo para sustentar a Pemex e a empresa de eletricidade. John Padilla, da empresa de consultoria IPD Latin America, disse que López Obrador não parece compreender como suas políticas energéticas estavam prejudicando a economia. O México “é incrivelmente dependente do mercado global, do comércio às finanças", ressaltou Padilla. “É nesse ponto que o desentendimento é maior". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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