Luis Torres/european pressphoto agency, via Shutterstock
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México, o estado fracassado

Cartéis de tráfico de droga se beneficiam com a incompetência de ambos os lados da fronteira

Bret Stephens, The New York Times

16 de novembro de 2019 | 15h16

Em uma viagem a trabalho ao México, jantei com um dos estadistas decanos do país e o escutei descrever os maiores desafios nacionais. Ele apontou três: “Estado de direito, estado de direito e estado de direito”.

A verdade dessa observação foi evidenciada poucos dias depois, quando homens armados assassinaram nove pessoas da família LeBarón, no estado de Sonora, norte do país. A motivação do massacre não está clara, mas sua barbaridade está: três mulheres e seis crianças foram executadas a tiros disparados a curta distância e carbonizadas enquanto ainda estavam vivas, nos carros que as transportavam.

O episódio ganhou muita repercussão nos Estados Unidos, em grande parte porque os LeBarón são parte de uma comunidade mórmon americana instalada há longa data no norte do México (George Romney, pai do ex-candidato à presidência Mitt Romney, nasceu numa colônia mórmon em Chihuahua, em 1907, da qual foi forçado a fugir, ainda criança, durante a Revolução Mexicana).

Mas a razão pela qual essa matança realmente importa é por ser ainda outro alerta de que o México está caminhando rapidamente na direção de se tornar um estado fracassado.

A situação é resultado da combinação de incompetência administrativa e vazio ideológico entre Donald Trump e seu colega mexicano, Andrés Manuel López Obrador. Em 2015, perguntei ao então candidato Trump se ele temia que suas políticas protecionistas prejudicassem o México de maneiras que, no fim das contas, acabariam prejudicando os EUA. A resposta dele: “Eu não me importo com o México, sinceramente. Eu realmente não me importo com o México.”

Desde então, Trump forçou uma dúbia renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, mas ainda tem de obter do Congresso a ratificação do novo acordo comercial, o que ocasiona incertezas nos negócios que levaram a economia mexicana à beira da recessão.

Levou mais de um ano para o governo americano substituir seu embaixador no México, após o último ter se demitido do cargo em desagrado. E a insistência de Trump para que o México militarize sua fronteira sul, com a Guatemala, têm exaurido o Exército dos soldados necessários para combater os cartéis de tráfico de drogas.

No mês passado, na cidade de Culiacán, noroeste do país, as forças de segurança mexicanas se viram rapidamente superadas em termos de homens e armamentos quando tentaram prender o filho de Joaquín “El Chapo” Guzmán, o chefão da droga encarcerado. Os soldados capitularam, e o filho do chefe do crime foi prontamente libertado.

Se as ações de Trump têm sido nocivas, as de López Obrador têm sido desastrosas.

A estratégia do mexicano em face à violência dos cartéis tem sido aumentar o gasto público em programas sociais enquanto pede aos criminosos que pensem nas suas mães. Ele tem afirmado que a criminalidade está sob controle e ainda insiste que não tem nenhuma intenção de repensar sua abordagem. No fiasco em Culiacán, ele elogiou a decisão de soltar o filho de El Chapo e determinou que o nome do agente que deu a ordem para a operação fosse revelado, colocando a vida dele em perigo. Grande parte do corpo de oficiais do Exército critica abertamente seu comandante-em-chefe.

Essa paródia de política está produzindo um resultado previsível: 2019 está a caminho de se tornar o ano mais violento no México em décadas, com cerca de 17 mil homicídios entre janeiro e junho. Em números absolutos, esse montante ultrapassa o total das mortes de civis no Iraque no auge da guerra, em 2006.

Mas o que poderia funcionar? Uma conversa com um ex-agente sênior de inteligência dos EUA sugere uma analogia.

“O que sempre foi necessário”, disse o ex-agente, “é construir uma campanha ampla e integrada entre civis e militares, na qual os ‘militares' incluam todas as forças de segurança, similar a uma campanha de contrainsurgência como aquela levada a cabo no Iraque durante a escalada da violência no país”.

Mas isso já não foi tentado anteriormente?

Não exatamente. Durante a presidência de Felipe Calderón (2006-2012) o México adotou uma estratégia estilo “rei do crime”, de derrubar os líderes dos cartéis. Mas ações de decapitação nunca funcionam quando seu inimigo é uma complexa organização. O sucessor dele, Enrique Peña Nieto, acreditava que a prosperidade econômica e a reforma política seriam antídotos para a criminalidade. Mas isso demonstrou ser mais uma miragem, enquanto o crescimento empacou e a corrupção aumentou.

“Quando presidentes mexicanos voltaram o olhar para essa questão, ela se mostrou uma tarefa desanimadora”, ressalta o ex-agente. “Isso requer muito pessoal - e não são somente forças de segurança para expulsar o inimigo, manter o território e construir relações. Elas têm de receber o apoio de autoridades judiciais fortes que, por sua vez, têm de receber o apoio de autoridades prisionais fortes. Esses são os três pilares de sustentação do estado de direito e, se os três estão abalados, isso pode fazer com que toda a estrutura desabe.”

No México, todos os três pilares ruíram. As prisões estão fora de controle. As autoridades municipais se curvam diante dos cartéis. A “taxa de impunidade”- a probabilidade de um crime não ser punido - fica pouco abaixo dos 99%.

Ou o país controla a crise em suas instituições e seus déficits em liderança ou ficará cada vez mais parecido com o Iraque de antes da campanha se contrainsurgência, mas com o dinheiro da droga no lugar do fanatismo religioso. Donald Trump pode não se importar com o México, mas os americanos deveriam se importar com o vizinho. Mesmo que os EUA construam um muro, nenhuma crise jamais vai respeitar uma fronteira. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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