Daniel Becerril/Reuters
Daniel Becerril/Reuters

México luta para acabar com roubo de combustível

Por uma única torneira ilegal, em 10 horas, ladrões conseguem furtar 5,7 milhões de litros de gasolina

Kirk Semple, The New York Times

09 de maio de 2019 | 06h00

IRAPUATO, MÉXICO - Logo depois de assumir a presidência, Andrés Manuel López Obrador declarou guerra ao roubo de petróleo, uma praga que vem custando à nação bilhões de dólares ao ano. Os ladrões criaram uma forma de ataque particularmente oneroso: por uma única torneira ilegal, em 10 horas conseguem furtar 5,7 milhões de litros de gasolina. O problema se tornou a prioridade máxima do governo.

López Obrador estava determinado a honrar o mais rapidamente possível suas principais promessas de campanha:  combater a corrupção e a criminalidade, e reduzir a pobreza e a desigualdade fazendo com que as fontes de riqueza do país estejam disponíveis a todos. Mas no dia 1.º de dezembro, com o cargo, ele herdou uma economia inexpressiva, enquanto o México chegava ao fim do seu ano mais letal, com o mundo do crime mais fragmentado e complicado do que nunca, favorecido em parte pela corrupção crônica no governo.

Combater o roubo de combustível ofereceu-lhe a possibilidade de demonstrar que podia agir em várias frentes ao mesmo tempo. 

As organizações criminosas, às vezes em colaboração com funcionários corruptos da estatal petrolífera, Pemex, estavam retirando combustível dos dutos. Somente no ano passado, o crime custou ao governo mais de US$ 3 bilhões. “Optando por estancar o roubo de petróleo, ele reivindica o combate à corrupção e à insegurança, e poderá realizar coisas na área de energia que governos anteriores não conseguiram, ajudando ao mesmo tempo a Pemez a tornar-se a gigante de ontem”, afirmou Dwight Dyer, ex-funcionário do Ministério de Energia.

Em dezembro, Alfonso Durazo, ministro da Segurança do México, enviou tropas para os trechos do oleoduto que são frequentemente atacados e a instalações da Pemex onde se suspeitava que alguns funcionários cooperassem com as máfias do combustível. O governo fechou os dutos mais visados, provocando escassez e longas filas. Mas a população apoiou López Obrador - particularmente depois que um duto que havia sido sabotado explodiu em janeiro, matando mais de 130 pessoas. Menos de quatro meses mais tarde, López Obrador anunciou que seu governo reduziu roubos de combustível em 95%, e declarou vitória: “Conseguimos derrotar os ladrões de petróleo”.

Segundo a Pemex, em abril, o roubo caiu para uma média de 636 mil litros diários, em comparação com 13 milhões em dezembro. Os roubos são um problema antigo que se agravou nos últimos anos à medida que foi sendo gerido por gangues locais para os maiores grupos criminosos da nação. O impacto foi profundo para o estado de Guanajuato. A região registrou um considerável aumento da violência, em grande parte relacionada à batalha entre as organizações criminosas pelo controle do comércio do combustível roubado, afirmaram funcionários. No ano passado, foram registrados no estado mais de 2.600 homicídios intencionais, em comparação com cerca de 1.100 em 2017.

A reação das gangues à ofensiva do governo foi imediata. Em Guanajuato, elas bloquearam estradas incendiando veículos. Uma bomba foi plantada em um caminhão na frente de uma refinaria. O cartel de Santa Rosa de Lima, grupo local especializado em roubo de petróleo, mandou uma ameaça de morte a López Obrador. E bandidos abriram fogo contra o escritório local de um procurador geral da república, depois da prisão de membros suspeitos do cartel de Santa Rosa de Lima.

Observadores acreditam que os ladrões de petróleo voltarão a agir assim que o governo transferir suas forças para outra frente. Parte da ameaça virá do apoio local aos ladrões. Ocorre que alguns moradores conseguiram um trabalho com as gangues, enquanto outros estão felizes por pagar um preço menor pelo combustível. Durazo diz que pretende manter a pressão, e promete: “Vamos mantê-la pelo tempo que for preciso". / PAULINA VILLEGAS CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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