Toya Sarno Jordan para The New York Times
Toya Sarno Jordan para The New York Times
Paulina Villegas e Elisabeth Malkin, The New York Times

01 de janeiro de 2020 | 06h00

ECATEPEC, México - Itan Flores era uma adolescente quando o primeiro namorado a prendeu em um quarto por seis semanas. De acordo com a jovem, ele voltava apenas para estuprá-la. Ela fugiu quando ele esqueceu de trancar a porta. 

Ele a ameaçou dizendo que, se contasse o ocorrido à polícia ou aos pais dela, mataria sua família. “Até hoje, meus pais não sabem que fui prisioneira", disse Itan, 24 anos. “Durante muito tempo, pensei que era tudo culpa minha.”

Uma em cada três mulheres na América Latina vivenciou situações de violência sexual ou física, de acordo com as Nações Unidas, mas 98% dos assassinatos ligados a questões de gênero ficam sem investigação na região.

As mexicanas foram às ruas para acabar com a ideia segundo a qual teriam provocado a violência da qual são vítimas. Sua raiva está ecoando pela América Latina, onde o machismo é comum. As manifestações no México tem sido estridentes, com janelas quebradas, pixações e bombas de glitter arremessadas contra policiais.

Se a violência em geral alcançou patamares sem precedentes no México, os analistas dizem que muitos assassinatos de mulheres podem ser atribuídos especificamente a questões de gênero. E o número de mulheres mortas de maneira violenta no México está aumentando: de sete por dia em 2017 para 10 em 2019, de acordo com a ONU Mulheres.

O que se vê agora é uma nova geração de mulheres que conhecem seus direitos e aprenderam a lutar por eles, disse Lourdes Barrera, integrante do coletivo feminista Las Luchadoras, da Cidade do México. “Há um grande embate entre aquilo que elas aprenderam e a realidade o México: o assédio que sofrem nas ruas, a violência dos cônjuges, a violência que vemos todos os dias", disse ela.

Depois que um protesto paralisou a Cidade do México em agosto, a prefeita Claudia Sheinbaum condenou as manifestantes por terem depredado a famosa estátua do Anjo da Independência. Diante da indignação com os comentários dela, a prefeita se reuniu com grupos de mulheres. Em novembro, prometeu criar um cadastro central de abusadores com banco de dados de DNA e pressionou pela aprovação de uma lei municipal tipificando como crime o compartilhamento não autorizado de conteúdo sexual na internet.

Mas, no vasto subúrbio de Ecatepec, as mulheres dizem que a polícia não as protege, chegando até a atacá-las. “Viver aqui é uma constante luta pela sobrevivência", disse Itan. “Temos que estar sempre alertas.”

Itan se juntou a outras para criar um coletivo chamado Mulheres da Periferia pela Periferia. O grupo organiza aulas de autodefesa e prepara apresentações de arte.

“Essas jovens estão tomando as ruas para recuperar sua dignidade, e estão nos ensinando lições importantes", disse Eréndira Cruz, investigadora especial de questões femininas da Comissão Nacional de Direitos Humanos do México. “Diante do desespero, elas representam uma profunda esperança.” / AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.