Luis Antonio Rojas para The New York Times
Luis Antonio Rojas para The New York Times

México reforça vigilância na fronteira e desencoraja imigrantes

Aumento da fiscalização ao longo da fronteira com a Guatemala dificultou a passagem pelo território mexicano

Maya Averbuch e Kirk Semple, The New York Times

20 de julho de 2019 | 06h00

NENTÓN, GUATEMALA - A família Aguilar se preparava desde fevereiro para a viagem rumo ao norte. Pediram emprestado US$ 2,6 mil, pagaram a um contrabandista e deixaram sua casa na Guatemala em meados de junho. Mas, na fronteira da Guatemala com o México, o contrabandista disse que a travessia para o México era arriscada demais. Um acordo estabelecido em 7 de junho entre as autoridades mexicanas e os Estados Unidos para reduzir a imigração trouxe mais agentes de segurança para a fronteira.

A mobilização das forças mexicanas afetou o fluxo habitual de pessoas e mercadorias na fronteira, semeando o medo entre os imigrantes e os contrabandistas que os ajudam. “Não sabemos de nada, se a mudança é definitiva ou apenas por algum tempo", disse Juan Alberto Aguilar, 27 anos, que viajava com a mulher e a filha de três anos. A família estava sentada na praça central de Nentón, vilarejo perto da fronteira entre Guatemala e México, esperando pela van que os levaria para casa.

O plano de mobilização é parte de um acordo entre o governo do presidente Andrés Manuel López Obrador, do México, e o governo americano para evitar as ameaças de tarifas pesadíssimas anunciadas pelo presidente Donald Trump. Em Ciudad Hidalgo, cidade de comerciantes no México perto do extremo sudoeste da fronteira, estes disseram ter observado uma considerável queda nos negócios em meados de junho.

A maioria dos seus clientes é de guatemaltecos que evitam o pagamento de impostos alfandegários sobre as compras voltando ilegalmente para a Guatemala a bordo de jangadas que transpõem o Rio Suchiate, demarcando a fronteira nesse trecho. “As pessoas têm medo de vir porque temem que o governo virá tomar suas mercadorias", disse Mary, comerciante de Ciudad Hidalgo que teve medo de revelar o sobrenome.

“Vivemos desse comércio e precisamos dele para trazer comida para casa.” Em Nentón, Silvia Avaja, 30 anos, proprietária de um mercado, disse viajar habitualmente ao México uma vez a cada três meses para comprar artigos de toalete. Mas as novas medidas de segurança no México assustaram.

Ela também ficou sabendo que as autoridades mexicanas estavam apreendendo as mercadorias compradas no mercado negro. “Estou pensando em não voltar mais para lá", disse ela. Mas o efeito da mobilização é sentido principalmente entre os imigrantes sem documentação, para quem o México parece agora mais impenetrável.

Jonathan, 28 anos, seminarista da Nicarágua, disse ter fugido de casa depois de ser submetido à perseguição das autoridades e ameaças de morte após sua participação nos protestos contra o governo no ano passado. Primeiro tentou a vida na Costa Rica, mas, novamente ameaçado de morte, viajou para o México.

Ele chegou até Frontera Comalapa, 40 quilômetros depois da fronteira do México, antes que as novas medidas interrompessem sua viagem. “Nunca pensei que seria assim", disse ele no mês passado. Três amigos nicaraguenses que também chegaram à Frontera Comalapa já tinham voltado à América Central para esperar um momento melhor de tentar a travessia para os EUA.

Mas Jonathan disse que voltar à Nicarágua não era uma possibilidade para ele. Sua meta era chegar aos EUA, que prometiam uma qualidade de vida melhor. “Vou lutar", disse ele, recusando-se a informar o nome completo por causa do seu status ilegal no México. “Farei o possível para chegar lá.”

Mas, por enquanto, ele pensa na possibilidade de pedir asilo no México. Defensores dos imigrantes dizem que um número muito maior de centro-americanos e outros estão tomando essa decisão. E talvez eles não tenham escolha. Uma nova regra vai negar à maioria dos centro-americanos as proteções do asilo nos EUA a não ser que eles tenham solicitado asilo no primeiro país pelo qual passaram.

Em Ciudad Hidalgo, empreendedores que oferecem serviços aos imigrantes observaram uma queda na demanda. “Antes, havia famílias inteiras atravessando", disse Israel López Ordoñez, 52 anos, barqueiro do rio. “Agora, não mais.” Na cidade guatemalteca de La Mesilla, perto de Frontera Comalapa, Carmelo, 50 anos, cambista de moeda estrangeira, disse que vários conhecidos seus desistiram dos planos de imigração para o norte.

“É ruim para nós", disse ele. “Se um guatemalteca viaja para os EUA, muitos aqui conseguem sobreviver com o que ele ganha.” Os defensores dos imigrantes acreditam que a presença crescente das forças de segurança vai reduzir o número de pessoas tentando imigrar para o norte, mas esperam que, com o tempo, o fluxo volte ao normal.

“Será como na época da eleição de Trump, quando o número de imigrantes se manteve baixo por vários meses, mas voltou a aumentar", disse David Tobasura, do American Friends Service Committee. “Isso não vai deter a imigração. Certamente, em questão de semanas ou meses, os números vão subir de novo, e tudo será como antes.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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