Anna Liminowicz/The New York Times
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Michal Matczak: Rapper polonês vai do escândalo ao estrelato

Artista ganhou destaque por suas letras que falam diretamente à juventude da Polônia e virou alvo dos governantes do país

Alex Marshall, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 05h00

VARSÓVIA, Polônia - Os vastos campos do aeroporto Bemowo, em Varsóvia, já receberam shows de algumas das maiores estrelas do mundo. Michael Jackson tocou lá. Madonna e Metallica também.

Mas, em outubro, mais de 30 mil pessoas - muitas delas adolescentes, tendo os pais como acompanhantes - se aglomeraram ao lado da passarela esperando que uma nova estrela subisse ao palco: Michal Matczak, rapper de 21 anos, com cabelo platinado e sorriso constante, mais conhecido como Mata. "Ele é um representante de nossa geração", disse Joseph Altass, de 20 anos, estudante que viajou de Gdynia, mais de 320 quilômetros ao norte de Varsóvia, para o show. Zuzia Waskiewicz, de 19 anos, compartilhando uma garrafa de vodca aromatizada com um amigo, concordou: "Ele é a primeira pessoa a falar coisas reais a respeito da gente".

Quando Mata apareceu às 20h, ficou claro que estava se dirigindo à geração mais jovem na plateia: uma das primeiras músicas da noite, Blok, falava de sair da casa dos pais e irritar os novos vizinhos por causa de festas. Em seguida, Mata fez uma ode à maconha, seguida de uma música sobre beber nos degraus de concreto que margeiam o Rio Vístula, em Varsóvia. A multidão acompanhava cada palavra.

O impacto de Mata na Polônia foi inevitável. No início deste ano, uma de suas faixas, Kiss Cam, foi reproduzida tantas vezes que apareceu em uma das paradas globais da Billboard; foi o primeiro polonês a realizar a façanha. Quando lançou Mlody Matczak (Jovem Matczak), seu segundo álbum focado em sua idade adulta, instantaneamente liderou o número de reproduções no Spotify do país. Várias de suas músicas têm mais de 50 milhões de visualizações no YouTube.

Mas uma faixa específica marcou a entrada explosiva de Mata na vida cultural polonesa há dois anos: Patointeligencja (amálgama das palavras polonesas para patologia e intelectualidade). Mata pinta um quadro da vida como estudante na Batory, escola de ensino médio de elite em Varsóvia, na qual se espera que os alunos estudem para ser admitidos nas melhores universidades do mundo. Em sua narrativa, poucos alunos estão estudando para as provas finais. Em vez disso, a maioria está lidando com drogas, álcool e sexo para aguentar a pressão. "Meu amigo queria gastar todo o salário do pai em drogas, mas o velho estava ganhando tanto que ele teria se matado se tentasse", diz Mata.

Patointeligencja virou sensação assim que apareceu no YouTube em dezembro de 2019. Cyryl Rozwadowski, editor do Newonce, popular site de cultura de língua polonesa, comentou que "foi tão inovadora que não consigo pensar nela só como uma canção".

Jornais e programas de TV começaram a usar a música para debater tanto as pressões sobre os jovens poloneses quanto questões de privilégio - por exemplo, se um garoto aparentemente rico como Mata deveria estar fazendo rap. Os debates geralmente refletiam as divisões políticas no país. A Polônia está há anos em uma guerra cultural, com os liberais de um lado e o atual governo conservador do Partido da Justiça e da Lei do outro, enfrentando questões como direitos dos homossexuais, aborto e até mesmo o Estado de direito.

Algumas seções conservadoras da mídia, incluindo a principal emissora de TV governamental do país, apresentaram a obra de Mata como um mostruário das disfunções da elite liberal. Frequentemente, destacavam que o pai de Mata é Marcin Matczak, advogado e acadêmico conhecido por sua feroz oposição às políticas do partido no poder. Em seu novo álbum, Mata faz um tributo a ele chamado Papuga, ou Papagaio, gíria para advogado na Polônia. Seu pai deu as boas-vindas à associação, lançando este ano um livro chamado How to Raise a Rapper (Como criar um rapper, em tradução livre).

Poucas horas antes do show no aeroporto, Mata afirmou em entrevista no luxuoso escritório de sua gravadora que gostava de provocar escândalo. "Sou um pouco viciado em adrenalina", declarou, acrescentando que, como filho único, ansiava por atenção. Às vezes, ele se sente "mais como um troll da internet do que como um rapper".

Mas insistiu que não tinha escrito Patointeligencja aos 18 anos para causar rebuliço. Digitou a letra no celular durante o último ano na Batory, "depois de ter sofrido um grande colapso". Um relacionamento de três anos havia terminado, e ele estava sobrecarregado por causa das provas e dos professores que diziam que estava caminhando para o fracasso.

Um dia, faltou à aula e foi ao Caffe Nero, onde colocou álcool em um café enquanto procurava uma batida no YouTube. Quando encontrou o ritmo para Patointeligencja, a letra saiu ferozmente de dentro dele. "Foi só um fluxo de consciência, todas as emoções ruins saindo de mim. Mesmo agora, fico animado quando penso naquele momento. Eu me senti vivo."

Mais tarde, Mata cantou a música para o pai, e este observou que essa era "a cura" para seu colapso. Logo estava escrevendo seu álbum de estreia, 100 Dni Do Matury (Cem dias para as provas finais), que os críticos mais tarde chamaram de um adeus à sua infância. Conseguiu se formar.

Mlody Matczak aborda principalmente sua nova vida como adulto, segundo ele, mas também inclui uma faixa que xinga figuras políticas polonesas que fizeram críticas a ele e ao pai. Há uma música sobre seus avós, que morreram este ano em decorrência de complicações da Covid-19. Contou que, em um dos funerais, se levantou para cantar e o pianista lhe pediu um autógrafo.

Os críticos na Polônia estão falando do novo álbum como sendo muito mais do que uma fábrica de escândalos. Bart Strowski, coautor de uma série de livros sobre o rap polonês, disse que gostou da dualidade de Mata. "Por um lado, é um jovem rapper furioso, influenciado por bebida e maconha. Por outro, é um garoto comovente e sensível, escrevendo canções incomuns, cheias de detalhes sociológicos incríveis."

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