Jo Yong-Hak/Reuters
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Mãe recente, Michelle Wie West está inspirada para voltar ao golfe

'Eu costumava achar que meu pulso doía até eu entrar em trabalho de parto', disse a atleta

Karen Crouse, The New York Times - Life/Style

12 de agosto de 2020 | 05h00

Os olhos de Michelle Wie West não estavam com olheiras por causa do cansaço, como se poderia esperar de uma mãe do primeiro filho depois de um mês dele ter nascido. Seu rosto não está banhado em lágrimas como ocorreu há 13 meses depois de o seu corpo lesionado tirá-la novamente do campo, sugerindo o fim de uma carreira no golfe que antes parecia não ter limite. Wie West, de 30 anos, parecia renovada na coletiva de imprensa virtual para anunciar sua indicação como capitã assistente da Solheim Cup de 2021.

Ela falou sobre maternidade, insinuou um possível retorno à competição e fez piada quanto a alguma menção à sua aparência cansada. “Isto é maquiagem e café”, disse rindo. Atrás do seu ombro direito, aparece pendurado um dos vários autorretratos que ela pintou no decorrer dos anos, o de uma mulher em branco e preto com o cabelo preso no alto da cabeça, tendo como pano de fundo um pastel apagado.

A pintura emoldurada, uma das que decoram as paredes de sua casa em São Francisco, exala uma serenidade que não existia em seus retratos anteriores, como aquele da adolescência de uma mulher com longos cabelos negros, olhos tristonhos e uma boca fechada. Wie West despertou a atenção do público em 2000, quando, aos 10 de idade, se tornou a mais jovem jogadora a se qualificar para o United States Women’s Amateur.

Nas duas últimas décadas, ela conquistou cinco títulos da LPGA (Liga profissional de golfistas mulheres), incluindo o United States Women’s Open, de 2014, além de se formar em comunicações em Stanford e quase ter o melhor score no PGA Tour. Ao longo do caminho, ela se tornou uma espécie de teste de Rorschach para pais que conheciam sua história, a de uma infância perdida na busca de fortuna ou salva por uma ênfase na educação; a paixão de uma criança nutrida por pais amorosos e carinhosos ou prejudicada pelo envolvimento ativo deles.

Ser mãe, com frequência, é ver sua própria infância de uma maneira mais nítida. Wie West disse que não pensou ainda sobre como educará sua filha, Makenna Kamalei Yoona West, mas está certa disto: espera dar a ela os irmãos pelos quais ela própria, filha única, cresceu ansiando, e fluência na língua coreana, que ela sente tanta alegria por seus pais coreanos terem insistido que ela aprendesse. “Lembro-me de que odiava meus pais por me obrigarem a ir a uma escola de coreano aos sábados”, disse Wie enquanto o bebê começava a se mexer, dormindo no seu colo.

“Mas isso é algo que vou fazer certamente, porque conseguir falar coreano é muito importante para mim”. Sua filha, que nasceu quatro semanas antes da data prevista, já tem um taco de golfe sob medida. O marido de Wie West, Jonnie, executivo do Golden State Warriors, jogou basquete até a faculdade em Virgínia Ocidental, alma mater do seu pai, Jerry.

“Meu marido é um nerd do golfe. Estou certa de que ele irá colocar um taco de golfe nas mãos dela logo que for possível, porque acho que deseja jogar com ela um dia. Vamos ver se ela vai preferir um taco de golfe ou o basquete. Queremos colocá-la em muitos esportes”. A última rodada competitiva de golfe de Wie West foi em junho de 2019, no Women’s PGA Championship, em Hazeltine, um subúrbio de Minneapolis. Foi uma experiência nada alegre. Ela foi eliminada.

Ela ficou desconsolada quanto aos seus planos de jogar no futuro. Sua mão direita submetida a uma cirurgia não melhorou, disse ela na ocasião, e havia sofrido muitas lesões antes – no pescoço, nas costas, quadril, joelho e tornozelo – havia perdido a fé na capacidade de seu corpo voltar a funcionar. “Fiquei muito deprimida. Sentia que meu corpo estava falhando comigo, tanta era a dor”.

Ela se casou dois meses depois. A felicidade que sentiu na sua vida pessoal contrabalançou a tristeza com sua carreira no golfe paralisada. Com seu caminho de jogadora obstruído pelas luxações, Wie West iniciou um outro, para trabalhar no Golf Channel e CBS, incluindo uma cobertura do seu Masters. E, em seguida, ela ficou grávida. “Fiquei muito assustada, e muito preocupada. Não tinha nenhuma confiança de que meu corpo conseguiria carregar um bebê até o fim”.

À medida que Makenna crescia dentro dela, Wie West se maravilhava com as capacidades do seu corpo. “Antes achava que meu corpo estava completamente acabado, não conseguiria fazer mais nada, mas depois comecei a perceber que ele criou um ser humano completo a partir do zero. Isto mudou minha relação com meu corpo, tenho muito mais confiança nele agora”.

Tendo dado à luz uma criança saudável durante uma pandemia, Wie West pode ser perdoada por pensar que seu corpo agora é capaz de qualquer coisa, incluindo um retorno à competição da LPGA; ela retomou os treinos, com a filha no carrinho, que amamenta em intervalos. Uma volta às competições antes do final do ano do calendário não está fora de questão, disse ela, mas somente se a pandemia de coronavírus for controlada.

“Tudo depende da situação do mundo agora porque a saúde está em primeiro lugar”. A equipe dos Warriors, que registrava o pior desempenho na Conferência Oeste da NBA quando a temporada regular foi suspensa em março, não conseguiu avançar para os playoffs na Flórida, o que Wie West achou uma bênção disfarçada de decepção. “É uma situação em que, se eles fossem a Orlando e eu permanecesse em casa por decisão própria, em quarentena, meus pais não poderiam me acompanhar, eu ficaria totalmente sozinha durante meses. E essa ideia era assustadora”.

O PGA Tour se concentrará em São Francisco para o PGA Championship, que contará com o ex-campeão Justin Thomas, que tem o crédito de reunir Wie e West. Ambos eram amigos dele e Wie e West, depois do seu primeiro encontro, em segredo pediram informações um do outro para Justin. Apesar do seu papel de cupido, Justin Thomas não deve esperar ver o bebê quando estiver na cidade. “Não permitimos visita de ninguém”, disse Wie. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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