Mike Segar/Reuters/File Photo
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Shira Ovide, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2021 | 05h00

Por mais ou menos uma década, a Microsoft fracassou em tantas tendências significativas da tecnologia que acabou virando piada. Mas a empresa mais do que sobreviveu a seus erros épicos. Hoje, ela é (novamente) uma das superestrelas da tecnologia mundial.

A capacidade da Microsoft de prosperar, mesmo fazendo quase tudo errado, pode ser uma saga animadora sobre reinvenção corporativa. Ou pode ser uma demonstração angustiante de como é difícil acabar com os monopólios. Ou talvez seja um pouco dos dois.

Entender o poder de permanência da Microsoft é relevante quando se considera uma importante questão atual: as superestrelas da Big Tech de hoje são bem-sucedidas e populares porque são as melhores no que fazem ou porque se tornaram tão poderosas que podem viver de seus sucessos anteriores?

No fim das contas, a angústia sobre Big Tech em 2021 - os processos antitrustes, as novas leis propostas e a "gritaria" - se resume a um debate sobre se a marca de nossas vidas digitais é algo dinâmico que impulsiona o progresso ou se realmente temos dinastias. E o que estou perguntando é, qual deles foi a Microsoft?

Deixe-me voltar aos dias sombrios da Microsoft, que possivelmente se estendem de meados dos anos 2000 a 2014. Estranhamente, não foram tão ruins. Sim, a Microsoft era tão sem graça que foi humilhada nas propagandas da Apple na televisão e muitas pessoas na indústria de tecnologia não queriam ter nada a ver com isso. A empresa falhou em criar um mecanismo de busca popular, tentou em vão competir com o Google em publicidade digital e teve pouco sucesso na venda de seus próprios sistemas operacionais ou dispositivos para smartphones.

E, mesmo assim, nos anos mais tristes da Microsoft, ela ganhou muito dinheiro. Em 2013, o ano em que Steve Ballmer quase se aposentou como CEO, a empresa gerou muito mais lucro antes de impostos e outros custos - mais de US $27 bilhões - do que a Amazon em 2020.

Não importa o quanto o software da Microsoft possa ter sido ruim - e muitos realmente foram -, muitas empresas ainda precisavam comprar computadores Windows, software de e-mail e documentos da Microsoft e sua tecnologia para executar poderosos computadores back-end chamados servidores. A Microsoft usou esses produtos tão necessários como alavanca para criar novas e lucrativas linhas de negócios, incluindo software que substitui sistemas convencionais de telefonia corporativa, bancos de dados e sistemas de armazenamento de arquivos.

A Microsoft nem sempre foi boa naqueles anos, mas se saiu muito bem. E, mais recentemente, deixou de se arrastar e passou a ser financeiramente bem-sucedida e relevante em tecnologias de ponta. Então, essa reviravolta foi um sinal saudável ou desanimador?

Do lado saudável da contabilidade, a Microsoft fez pelo menos uma coisa certa: computação em nuvem, que é uma das tecnologias mais importantes dos últimos 15 anos. Isso e uma mudança cultural, foram as bases que fizeram com que a Microsoft deixasse de ganhar apesar da sua estratégia e produtos para ganhar por causa deles. Este é o tipo de reviravolta empresarial que deveríamos querer.

Também direi que a Microsoft é diferente de seus pares em Big Tech de uma forma que pode tê-la tornado mais resiliente. As empresas, não os indivíduos, são clientes da Microsoft e a tecnologia vendida para organizações não precisa necessariamente ser boa para vencer.

E agora a explicação desanimadora: e se a lição da Microsoft for que uma estrela que se apaga pode alavancar seu tamanho, marketing experiente e influência sobre clientes para se manter bem-sucedida, mesmo que faça produtos ruins, perca o controle sobre novas tecnologias e seja assolada por uma burocracia frouxa? A Microsoft era tão grande e poderosa que era invencível, pelo menos por tempo suficiente para surgir com seu próximo ato? E o Facebook ou o Google de hoje são comparáveis a uma Microsoft de 2013 - tão fortalecidos que podem prosperar mesmo que não sejam os melhores?

Não tenho respostas definitivas, e o tamanho e o poder não garantem que uma empresa possa resistir a muitos erros e permanecer relevante. Mas muito do drama e da luta em torno da tecnologia em 2021 depende dessas questões. Talvez a pesquisa pelo Google, as compras pela Amazon e os anúncios do Facebook sejam maravilhosos. Ou talvez simplesmente não possamos imaginar alternativas melhores porque empresas poderosas não precisam ser maravilhosas para continuarem vencendo. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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