Laura Boushnal / The New York Times
Laura Boushnal / The New York Times

Nova onda de migrantes preocupa os europeus

O número de chegadas é apenas uma fração do pico de 2015, quando Lesbos, na Grécia, foi o ponto de entrada da Europa mais procurado por quem fugia da guerra civil na Síria

Patrick Kingsley, The New York Times

19 de setembro de 2019 | 06h00

SKALA SIKAMINEAS, GRÉCIA – O primeiro bote aportou às 17h45, em uma praia rochosa nas proximidades de uma remota aldeia de pescadores da Grécia. Depois da chegada da 13ª embarcação na ilha de Lesbos, cerca de 35 minutos mais tarde, 547 migrantes haviam entrado em solo grego a poucos metros uns dos outros em plena luz do sol, no dia 29 de agosto.

Esta flotilha repetia um padrão que não se via aqui desde 2016, quando a União Europeia prometeu mais de US$ 6 bilhões à Turquia para reforçar as patrulhas de fronteira e manter os migrantes longe da Europa. Desde então, apenas um ou dois barcos de refugiados conseguem chegar por dia a este trecho da costa grega. Mas este ritmo mudou desde agosto, o mês de movimento mais intenso em mais de três anos, alimentando os temores de uma migração em massa.

O número de chegadas ainda é apenas uma fração do pico registrado em 2015, quando Lesbos foi o ponto de entrada da Europa mais procurado - principalmente pelos migrantes que fugiam da guerra civil na Síria. No mês passado, foram cerca de 10 mil as chegadas em toda a Grécia; em outubro de 2015, no ápice da crise, foram registradas mais de 210 mil.

Mas a recente onda ocorre enquanto o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ameaça mais uma vez permitir que um grande número de migrantes atravesse a Turquia rumo à Grécia, se os políticos europeus não derem ao seu país o apoio financeiro necessário, ou ele cancelará o seu projeto de estender a influência turca no norte da Síria. “Ou isto acontecerá”, afirmou Erdogan em um discurso, este mês, “ou abriremos nossas portas”.

Há 3,6 milhões de refugiados sírios vivendo na Turquia, além de centenas de milhares procedentes de outros países. Se a Turquia tornar a vida deles insustentável, ou relaxar os esforços para mantê-los longe da Europa, as consequências poderão ser dramáticas. “As recentes afirmações de Erdogan de que pretende liberar uma nova onda de refugiados são o produto de sua crescente frustração com o número enorme que já se encontra na Turquia,” explicou Bulent Aliriza, diretor do projeto Turquia do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos em Washington.

O fato de que contrabandistas turcos tenham podido reunir tantas pessoas no dia 29 de agosto e enviá-las para a Grécia levantou indagações sobre a possível cumplicidade do governo turco. A Guarda Costeira da Turquia não respondeu, naquela tarde, às repetidas solicitações de intervenção de seus colegas gregos, segundo a Refugee Rescue, uma pequena organização privada de barcos salva-vidas que ajuda os migrantes em grande sofrimento. Embarcações turcas também se ativeram a patrulhas matutinas, enquanto contrabandistas enviavam repetidamente refugiados para a Grécia durante a tarde.

Deportações

Neste verão, o governo de Erdogan intensificou as deportações de sírios da Turquia, e em vários círculos acredita-se que esta repressão tenha causado o aumento das partidas para a Grécia. Entretanto, mais de 80% dos migrantes que chegaram a Lesbos em agosto eram provenientes do Afeganistão.  As condições cada vez mais precárias  na Turquia e no Irã, onde pelo menos um milhão de afegãos vive em exílio, e também no próprio Afeganistão, levaram muitos refugiados afegãos a se dirigirem para a Europa.

Apenas 5% dos migrantes que chegaram a Lesbos no mês passados vinham da Síria, o que sugere que poucos sírios estão ansiosos por deixar a Turquia. Mas o número enorme de sírios que já se encontram na Turquia gera ressentimentos na base política de Erdogan, e ele pretende reduzir a população de refugiados.

Rotina de caos

Em Lesbos, cerca de 10 mil pessoas foram enviadas para o campo de Moria, construído para apenas 3.100. Embora a União Europeia tenha destinado por volta de US$ 1,9 bilhão ao governo grego para subsidiar o bem-estar dos refugiados, a Grécia se recusou a melhorar as instalações temendo encorajar a vinda novos migrantes.

Alguns moradores do campo passam até um ano vivendo em barracas em farrapos, e aguardam até 12 horas por dia nas filas para a comida, que frequentemente acaba antes que todos estejam servidos.  Às vezes, o esgoto puro penetra nas barracas, enquanto as brigas e os ataques sexuais são uma ocorrência frequente.

Sobrecarregados, trabalhadores da área da saúde lutam para tratar m número cada vez maior de pacientes. Youssef al-Hassan, de 44 anos, chegado recentemente a Lesbos, ficou satisfeito por permanecer por sete anos na Turquia. Mas as deportações de sírios neste verão convenceram al-Hassan de que o país não é mais seguro. “Nós sentíamos que, nos próximos cinco minutos, eles poderiam chegar a nos escorraçar dali”, afirmou horas depois de chegar à Grécia. “A situação é tal que muitos mais virão”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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