César Rodríguez / The New York Times
César Rodríguez / The New York Times

Migrantes fogem de nova ameaça: a mudança climática

A variação do clima arruína colheitas e intensifica o fluxo migratório de famílias rumo aos Estados Unidos

Kirk Semple, The New York Times

27 de abril de 2019 | 06h00

CORQUÍN, HONDURAS – O agricultor olhava seu pedaço de terra, com uns míseros pés de café com as folhas doentes e murchas, em dúvida quanto à próxima colheita. No ano passado, dois dos seus irmãos e uma irmã, desesperados em busca de uma maneira melhor para sobreviver, decidiram abandonar seus pequenos cafezais nesta parte montanhosa de Honduras. Migraram para o norte e conseguiram entrar nos Estados Unidos.

Em fevereiro, o filho de 16 anos do lavrador também foi para o norte, ignorando os apelos da família para que ficasse. Os desafios para quem vive da terra em Honduras sempre foram enormes, desde a pobreza e um governo negligente às oscilações dos preços de uma commodity internacional. Mas para os agricultores, os cientistas e o setor agrícola há uma nova ameaça que arruína as colheitas, complicando a vida e intensificando o fluxo migratório de famílias inteiras rumo aos Estados Unidos: a mudança climática.

A elevação gradativa das temperaturas, eventos atmosféricos mais destruidores e cada vez mais imprevisíveis – como a chuva que não cai quando deveria, ou é muito violenta quando não deveria – subverteram os ciclos das culturas e favoreceram o persistente alastrar-se de pragas. Os obstáculos minguaram a produção ou varreram colheitas inteiras, deixando famílias já pobres na miséria. A América Central é uma das regiões mais vulneráveis à mudança climática, afirmam os cientistas. E como a agricultura emprega grande parte da força de trabalho – cerca de 28% em Honduras, segundo o Banco Mundial – o sustento de milhões de pessoas está comprometido.

No ano passado, o banco informou que a mudança do clima poderá impelir pelo menos 1,4 milhão de pessoas a abandonarem suas casas no México e na América Central e a migrarem nos próximos trinta anos. Nos últimos anos, os Estados Unidos destinaram dezenas de milhões de dólares em ajuda aos agricultores da América Central, incluindo iniciativas para ajudá-los a fazer frente à mudança do clima.

Mas o presidente Donald J. Trump disse que, como prometeu, cortará a ajuda a Honduras, Guatemala e El Salvador porque, segundo ele, estes países insistem em não conter o fluxo migratório para o norte. “Se Donald Trump retirar todos os recursos destinados a Honduras, irá gerar mais desemprego, e mais migração”, afirmou María Esperanza López, gerente geral da Copranil, uma cooperativa de cafeicultores na região oeste de Honduras. “E, com isto, mais cafezais serão abandonados”.

Os cafeicultores particularmente estão correndo o risco de quebrar, porque a cultura é extremamente sensível às variações climáticas.

Fredi Onan Vicen Peña, de 41 anos, cujos irmãos, irmã e o filho adolescente já desistiram e se integraram ao êxodo rumo ao norte, arrancou uma folha  de um pé de café. Ela tinha manchas amarelas e marrom: o sinal da ferrugem do café, uma doença influenciada pela variabilidade do clima. Ao que ele calcula, foram afetados cerca de 70% da sua cultura, que cobre dois hectares de terra. E alguns dos pés mais saudáveis começaram a florescer quase dois meses antes do tempo, colocando em dúvida  todo o ciclo de crescimento.

“Isto não estava previsto”, disse Vicen. Nas últimas décadas, as temperaturas médias subiram cerca de um grau na América Central, dificultando o cultivo do café em altitudes mais baixas, outrora bastante apropriadas. Isto obrigou alguns agricultores a procurar terras a altitudes maiores, a mudar de cultura, e também de profissão – ou a migrar.

Alguns cientistas do clima afirmam que sem dados meteorológicos a longo prazo, é difícil dizer com certeza se a crescente variabilidade é causada por uma mudança a longo prazo no clima da região. Mas eles estão propensos a crer nesta possibilidade. “Está se tornando algo muito inusitado, quase certamente trata-se de uma mudança climática”, analisou Edwin J. Castellanos, diretor do Instituto de Pesquisa da Universidad del Valle de Guatemala e um dos mais importantes cientistas da mudança climática da América Central.

Violência e pobreza

A mudança climática raramente constitui o único fator na decisão de migrar. A violência e a pobreza são motivos fundamentais, mas a mudança do clima pode ter um papel decisivo, afirmam agricultores e especialistas. “Os pequenos cafeicultores já vivem na pobreza, já se encontram no limiar da incapacidade de sobreviver”, ressaltou Castellanos. Qualquer mudança na situação poderá levá-los a sair.

As perspectivas para a região parecem ruins. A diminuição da colheita de café e das culturas de subsistência, como milho e feijão, poderá aumentar consideravelmente a insegurança dos alimentos, além da desnutrição. Segundo algumas previsões, a superfície de terra adequada para a cafeicultura na América Central poderá cair mais de 40% até 2050.

Nos últimos dez anos, o número de produtores de café na região onde Vicen mora baixou de cerca de 12 mil para cerca de 9 mil, em parte por causa da pressão representada pela mudança climática, explicou Marlon Danilo Mejía, coordenador regional do Honduran Coffee Institute, uma associação do setor. A grande maioria  é composta de pequenos cafeicultores, que gerem menos de quatro hectares, afirmou.

José Edgardo Viven, de 37 anos, um dos irmãos de Vicen, trabalhou nos cafezais desde menino. Nesta parte de Honduras, o café é uma das principais culturas, e o produto na maior parte vai para a América do Norte. Europa e Ásia. Mas nos últimos anos, depois de uma epidemia de ferrugem e de outros problemas, como a queda violenta dos preços da mercadoria, o mais jovem dos Vicen disse que não podia mais ganhar o suficiente para cobrir os custos da produção com a colheita. Então foi para o norte com o filho de 14 anos, em agosto do ano passado, e cruzou a fronteira ilegalmente, estabelecendo-se no Texas. Um irmão e uma irmã, impelidos por circunstâncias semelhantes, logo depois partiram  e também entraram ilegalmente nos EUA.

“Para o pequeno produtor, posso te afirmar, não há como continuar”, destacou Vicen, que agora trabalha na construção e envia dinheiro para casa para o sustento da mulher e da filha. Quando ele era mais novo, a época da colheita “era uma festa”, lembra. Agora, “só há prejuízos, nada de lucros”. Quinze produtores da cooperativa de Vincen – mais de 10% dos seus membros – migraram para os EUA no ano passado, disse Esperanza López.

Stephanie Leutert, diretora da Mexico Security Initiative da Universidade do Texas em Austin, informou que as estatísticas sobre a apreensão de migrantes na fronteira do sudoeste dos Estados Unidos, nos últimos anos, refletem um forte aumento de pessoas procedentes do oeste de Honduras.

Depois que grandes caravanas de migrantes chegaram a Tijuana, no México, no outono passado, uma pesquisa da ONU constatou que 72% deles vinham de Honduras e 28% haviam trabalhado na agricultura. O êxodo agravou a escassez já considerável de mão de obra no oeste de Honduras. Alguns representantes do setor na região brincam que, se as recentes caravanas eram “caravanas de trabalhadores”, a próxima onda será a de “caravanas de agricultores”.

Os cafeicultores lutam para se adequarem às mudanças. Eles aprenderam a conhecer as espécies mais resistentes à praga e à seca, e já adotaram outras culturas – como cacau, abacates ou árvores que produzem madeira para construção. Iniciativas não governamentais e público-privadas  tentam ajudá-los. Alguns receberam  o apoio dos maiores vendedores de café –Starbucks, Tim Horton e Lavazza – para tentarem assegurar o seu fornecimento. Entretanto, nem a aplicação das melhores práticas  pode garantir que tudo correrá bem.

“O tempo ficou doido”, sublinhou Carlos Peña Orellana, de 58 anos, agricultor e membro de uma cooperativa local de café. “Tudo está descontrolado”.

Ele é proprietário de cinco hectares de terra, mas só pode cultivar cerca de dois. O seu sustento vem dos ganhos com a produção de uma estufa de tomates que construiu com a ajuda da cooperativa, e com as remessas de dois filhos que migraram para os EUA depois de lutarem contra a crise da ferrugem de 2012-13. “Eles estão ajudando a recuperar a fazenda. Agora, a situação está realmente muito difícil”, continuou. Orellana se virou para o filho mais novo, Carlos, de 12 anos, que considera um futuro migrante. Apontando um dedo calejado: “Você vai ser o próximo, não é?”, riu Peña. O menino fez uma careta, sem falar nada. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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