Steve Gschmeissner/Science Source
Steve Gschmeissner/Science Source

Milhões de bactérias programadas para matar o câncer

Bactérias testadas em camundongos conseguiram chegar ao fígado, que costuma ser colonizado pelo câncer em metástase

Carl Zimmer, The New York Times

19 de julho de 2019 | 06h00

Os cientistas usaram bactérias reprogramadas geneticamente para destruir tumores em camundongos, método que pode levar a tratamentos mais precisos contra o câncer envolvendo menos efeitos colaterais. O novo estudo, publicado no dia 3 de julho na revista Nature Medicine, é uma amostra do que está por vir, disse Michael Dougan, imunologista de Boston cuja pesquisa ajudou a informar o estudo.

Nossas células imunes conseguem reconhecer e destruir as células do câncer. Mas os tumores podem se esconder valendo-se de um gene chamado CD47. O gene produz uma proteína que reforça a superfície de glóbulos vermelhos saudáveis, protegendo-os das células imunes. Mutações nas células do câncer podem ativar o gene CD47, permitindo que cresçam e se tornem tumores.

O imunologista Nicholas Arpaia, da Universidade Columbia, em Nova York, e o biólogo sintético Tal Danino se indagaram a respeito da possibilidade de usar bactérias para voltar o sistema imunológico contra as células de câncer dentro dos tumores. Anticorpos comuns são moléculas grandes que não conseguem penetrar em um tumor maior, e as bactérias não conseguem produzir anticorpos para o CD47. Mas, recentemente, Dougan e sua equipe desenvolveram um nanocorpo, potente e minúsculo anticorpo que pode ser produzido por uma bactéria. Os pesquisadores inseriram o gene do nanocorpo nas bactérias, e então injetaram cinco milhões de micróbios alterados em tumores de camundongo.

Depois de se estabelecer e multiplicar, 90% dos glóbulos infectados se romperam, espalhando os nanocorpos. Esses nanocorpos se ligaram às proteínas CD47 nas células do câncer, eliminando sua camuflagem. Além disso, fragmentos das bactérias mortas vazaram para fora do tumor. Os restos atraíram a atenção de células imunes, que atacaram as células de câncer desmascaradas.

Dentro do tumor, as bactérias sobreviventes começaram a se multiplicar novamente. Quando a população cresceu o bastante, a maioria delas se autodestruiu novamente, produzindo nova onda de nanocorpos e fragmentos. A abordagem tem o potencial de reduzir os efeitos colaterais do tratamento contra o câncer. Em vez de inundar os camundongos com remédios, as bactérias coordenaram ataques direcionados contra os tumores, e os nanocorpos que escaparam das células de câncer foram removidos rapidamente. Depois de matarem um tumor com bactérias, outros tumores nos camundongos começaram a encolher. 

O médicos Arpaia e Danino estão agora explorando a possibilidade de usar essas bactérias reprogramadas no tratamento contra o câncer. O objetivo é tratar algumas formas de metástase com uma pílula de bactérias programadas. 

Em pesquisas anteriores, Danino descobriu que as bactérias engolidas pelos camundongos conseguiam chegar ao fígado, que costuma ser colonizado pelo câncer em metástase, e invadir tumores ali. Se bactérias geneticamente reprogramadas ajudarem as células imunes a identificar um tumor ali, é possível que ataquem o câncer em outras partes do corpo.

Quando Dougan desenvolveu o nanocorpo do CD47, ele reconhece que transportá-lo até as células do câncer seria crucial para sua eficácia. Mas ele nunca imaginou que alguém o esconderia dentro de um "micróbio de Troia". “Adoro quando esse tipo de coisa acontece", comemorou. “É uma maquininha fantástica". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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