Dado Galdieri para The New York Times
Dado Galdieri para The New York Times

Militares brasileiros preparam ampla campanha eleitoral

Cerca de 90 representantes das Forças Armadas devem se lançar candidatos nas eleições de 2018

Ernesto Londoño e Manuela Andreoni, The New York Times

26 Julho 2018 | 15h15

RIO DE JANEIRO - Membros das forças armadas do Brasil, que ficaram fora da vida política após o fim da ditadura militar 30 anos atrás, estão fazendo sua maior incursão na política em décadas, ao ponto de alguns alertarem para o risco de uma intervenção.

Generais e outros oficiais da reserva com fortes laços com a cúpula militar estão preparando uma grande campanha eleitoral, com aproximadamente 90 veteranos das Forças Armadas se lançando como candidatos para uma série de cargo, incluindo a presidência, nas eleições nacionais marcadas para outubro. Eles dizem que tal iniciativa é necessária para resgatar o país de uma liderança política enraizada que desarrumou a economia, fracassou em conter a violência e desviou bilhões de dólares em esquemas de corrupção.

E se a urna não trouxer mudanças rápido o bastante, alguns destacados generais da reserva alertam que líderes das Forças Armadas podem se sentir obrigados a intervir para reiniciar à força o sistema político.

"Estamos vivendo um momento crítico, caminhando pelo fio da navalha", disse Antonio Mourão, general de quatro estrelas que entrou para a reserva depois de sugerir, ainda em uniforme, que uma intervenção militar poderia ser necessária para afastar de vez a corrupta classe política dominante. "Ainda acreditamos que o processo eleitoral vai representar uma solução preliminar para que possamos mudar de curso".

A entrada dos militares na política é uma importante mudança, que preocupa muitos brasileiros. A ditadura militar no país durou 21 anos, até chegar ao fim em 1985. Desde então, o Brasil teve seu mais longo período de governo democrático. Mas os veteranos e oficiais da reserva que organizam campanhas para as eleições nacionais de outubro dizem que "valores militares" como a disciplina e o patriotismo são fundamentais para consertar o Brasil.

Analistas afirmam que as chances de uma intervenção militar são remotas, mas veem com maus olhos o crescente perfil público de figuras ligadas às forças armadas.

Pelo menos 434 pessoas foram assassinadas pelo governo durante a ditadura ou estão desaparecidas desde então. Mas o Brasil fez muito menos que seus vizinhos para punir os abusos dos anos 1960 e 1970.

Mourão e outros oficiais da reserva defendem a candidatura de um congressista de extrema direita, Jair Bolsonaro, um ex-capitão do exército que fala duro e propõe medidas no mínimo polêmicas para a restauração da ordem, como conceder à polícia liberdade para matar criminosos.

Bolsonaro, primeiro ex-oficial a apresentar uma candidatura viável para a presidência desde a restauração da democracia, disse recentemente que nomearia generais para ministérios importantes, "não por serem generais, mas por serem competentes".

A fé nas instituições de governo do país caiu nos anos mais recentes, especialmente após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e os imensos esquemas de pagamento de propinas que mancharam todos os principais partidos políticos.

Um levantamento realizado pela Latinobarómetro, que acompanha a opinião pública na América Latina, revelou no ano passado que apenas 13% dos brasileiros se diziam satisfeitos com o funcionamento da democracia, o número mais baixo entre os 18 países pesquisados. O estudo revelou também que apenas 6% dos brasileiros defendiam seu governo, muito abaixo de outros governos muito impopulares, como os de Venezuela e México.

Mas, ainda que a maioria dos brasileiros reprove o presidente Michel Temer e o congresso, oito de cada 10 participantes demonstraram uma opinião favorável em relação às forças armadas, de acordo com outro levantamento realizado no ano passador.

De acordo com analistas e generais da reserva, é por isso que Temer concedeu aos oficiais do exército um poder incomum em seu gabinete. Rompendo com o passado, Temer nomeou um general para o ministério da defesa em fevereiro.

Os pedidos públicos por intervenção militar voltaram em 2013, quando grupos de direita retomaram esse slogan durante uma caótica onda de protestos de rua orquestrados contra o governo de esquerda da presidente Rousseff.

Desde então, os pedidos por intervenção militar se tornaram mais estridentes, especialmente durante uma paralisante greve de caminhoneiros ocorrida em maio.

"É um grito de desespero contra toda essa corrupção", disse Luciano Zucco, tenente-coronel que pediu licença do exército para se candidatar a deputado estadual. Ainda assim, Zucco se disse contrário a um golpe. "A intervenção tem de acontecer pelo voto", afirmou.

O general Eduardo Villas Bôas, comandante do exército, disse recentemente que os pedidos de intervenção militar vêm de pessoas que não conhecem o "espírito democrático que reina nos quartéis".

Maurício Santoro, cientista político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, disse que embora ninguém no Brasil peça uma ditadura duradoura, muitos brasileiros, especialmente aqueles que não viveram a ditadura militar, parecem acreditar na ideia de uma intervenção breve.

"Há muitos no Brasil que parecem favoráveis  à ideia de o exército afastar a classe política atual e, em seis meses, convocar novas eleições", comentou Santoro.

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