Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Militares de Mianmar usam o Facebook para incentivar genocídio dos rohingya

Autoridades afirmam que minoria étnica tem sido vítima de notícias falsas há anos

Paul Mozur, The New York Times

25 de outubro de 2018 | 06h00

NAYPYIDAW, MIANMAR- Eles se diziam fãs de astros pop e dos heróis nacionais enquanto inundavam o Facebook com o seu ódio. Um deles afirmou que o Islã era uma ameaça global ao budismo. Outro compartilhou uma notícia falsa sobre o estupro de uma mulher budista por um muçulmano.

Na realidade, as mensagens no Facebook eram de pessoas do Exército de Mianmar que transformou as redes sociais em um instrumento de limpeza étnica, segundo ex-oficiais militares, pesquisadores e funcionários civis.

Membros das Forças Armadas foram os primeiros agentes de uma campanha sistemática por meio do Facebook que durava há cinco anos, e que visava principalmente a minoria muçulmana rohingya do país, afirmaram fontes. Os militares exploraram o amplo alcance do Facebook em Mianmar, onde é tão usado que muitos dos 18 milhões de usuários da internet confundem a plataforma da mídia social do Vale do Silício com a própria internet. Grupos de defesa dos direitos humanos atribuem à propaganda contra os rohingya a incitação ao crime, ao estupro e à maior migração humana forçada da história recente.

Embora em agosto o Facebook tenha retirado as contas oficiais de líderes militares de Mianmar, a amplitude e os detalhes da campanha de propaganda - escondida atrás de nomes falsos e contas simuladas - continuou despercebida. Descrita por cinco pessoas que pediram para não ser identificadas, a campanha envolvia centenas de militares que criaram contas falsas e páginas de notícias e de celebridades no Facebook e depois as despejavam com comentários e mensagens incendiárias nos horários de pico das visualizações.

Trabalhando em turnos em bases localizadas nas colinas próximas da capital, Naypyidaw, os funcionários também estavam encarregados de colher informações em contas populares e de criticar mensagens não favoráveis aos militares, segundo as fontes.

O Facebook confirmou muitos dos detalhes sobre a campanha. O seu diretor de política de segurança cibernética, Nathaniel Gleicher, disse ter encontrado “tentativas claras e deliberadas de espalhar subrepticiamente a propaganda diretamente ligada a militares de Mianmar”.

Este mês, depois de uma série de perguntas formuladas pelo jornal “The New York Times”, a companhia afirmou ter retirado várias contas supostamente destinadas a divertimento, mas que estavam ligadas ao Exército. As contas tinham 1,3 milhão de seguidores.

“Descobrimos que essas páginas sobre divertimento, beleza e informações aparentemente independentes estavam relacionadas ao Exército de Mianmar”, declarou a companhia em seu anúncio.

As ações não divulgadas anteriormente dos militares de Mianmar no Facebook são alguns dos primeiros exemplos  de um governo autoritário que utilizou as redes sociais contra seu próprio povo. No passado, com o apoio do Estado, russos e iranianos divulgaram pelo Facebook mensagens incendiárias a pessoas em outros países no intuito de provocar hostilidade. Nos Estados Unidos, alguns grupos estão adotando táticas semelhantes na véspera das eleições de meio de mandato.

Em agosto, depois de meses de notícias sobre a propaganda conta os rohingya no Facebook, a companhia admitiu que demorou demais para agir no caso de Mianmar. Na época, mais de 700 mil rohingya haviam fugido do país no prazo de um ano, “em um exemplo típico de limpeza étnica”, segundo a ONU. A companhia declarou que está intensificando seus esforços para acabar com esses abusos.

O Exército de Mianmar não comentou a iniciativa.

A operação dos militares de Mianmar pelo Facebook começou há vários anos e envolveu 700 pessoas. Ao que tudo indica, eles começaram criando diversas páginas no Facebook destinadas a astros pop, modelos e outras celebridades birmanesas, como uma rainha de beleza reproduzindo a propaganda militar. 

Dedicaram uma página do Facebook a um atirador militar, Ohn Maung, aclamado em todo o país por ter sido ferido em batalha. Também mantinham um blog popular, chamado ‘Olhares opostos’, sem vínculos externos com os militares, informaram as fontes.

Estes então tornaram-se canais de distribuição para fotos sensacionalistas, notícias falsas e mensagens destinadas a incendiar os ânimos, que tinham frequentemente como alvos muçulmanos de Mianmar. Contas falsas mantidas pelos militares ajudavam a espalhar o conteúdo, calar as críticas e alimentar brigas entre comentaristas para agitar o público.

A página de Ohn Maung no Facebook ganhou grande número de seguidores por causa das suas descrições do dia a dia da vida do soldado. A conta foi repassada a uma equipe de militares para produzir propaganda, como mensagens que retratavam os rohingya como terroristas, contaram duas pessoas.

Tanto o Facebook quanto os líderes civis de Mianmar declararam estar profundamente convencidos do poder da plataforma.

“Facebook em Mianmar? Não gosto disso”, disse Oo Hla Saw, um parlamentar. “Foi perigoso e prejudicial para a nossa transição democrática”.

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