Altaf Qadri / Associated Press
Altaf Qadri / Associated Press

Apesar de críticas, militares dos EUA mantêm minas terrestres em seu arsenal

Em 1997, mais de 120 países assinaram a Convenção de Ottawa banindo minas terrestres antipessoal que explodem indiscriminadamente

John Ismay and Thomas Gibbons-Neff, The New York Times

12 de fevereiro de 2020 | 06h00

WASHINGTON - O governo de Donald Trump, que ao ser eleito prometeu acabar com "guerras sem fim", está comprometido com armas proibidas por mais de 160 países e as prepara para uso futuro. Bombas de fragmentação e minas terrestres antipessoal, explosivos mortais conhecidos por mutilar e matar civis por muito tempo após o término do conflito, tornaram-se parte integrante dos planos de guerra do Departamento de Defesa - mas com pouca lógica pública oferecida sobre onde e por que elas seriam usadas.

Essas novas políticas, endossadas pelo secretário de Defesa Mark T. Esper, podem ser rastreadas até 2017, quando o chefe de defesa na época, Jim Mattis, estava elaborando uma estratégia militar que nomeou a Rússia e a China como os principais rivais do poder dos Estados Unidos. Ambos têm forças terrestres significativas, e minas historicamente têm sido usadas para negar às tropas de um adversário a capacidade de avançar no campo de batalha.

O porta-voz das forças armadas, Jonathan Hoffman, disse recentemente que a mudança de política "foi o resultado de uma extensa conversa" com diferentes departamentos do ramo executivo. O objetivo é "fornecer aos comandantes em terra munições não permanentes, necessárias para o sucesso da missão em grandes contingências em circunstâncias extremas ou excepcionais", disse ele.

Ex-oficiais de defesa disseram que o debate sobre a reintrodução de minas terrestres e outras chamadas armas de negação de área veio à tona em 2017, quando o governo analisou a rápida invasão e anexação da Crimeia pela Rússia. Em novembro, Mattis anulou um memorando de 2008 que suspendia o uso de quase todas as armas de fragmentação e ordenou a destruição do estoque atual. Essas armas, construídas para uso durante uma possível Terceira Guerra Mundial com a União Soviética, eram propensas a fracassos e ganharam descrédito por matar e ferir civis e tropas americanas.

Linhas industriais antes consideradas extintas nas empresas de defesa estão retornando. Isso se deve em parte aos esforços de lobby de oficiais militares aposentados, como Robert H. Scales, um major-general do Exército aposentado que serviu como consultor de Mattis na revisão de combate de infantaria.

Mas seu argumento baseou-se, em parte, em um entendimento imperfeito da eficácia das munições de fragmentação em conflitos passados, especialmente na Guerra do Golfo de 1991, onde as análises posteriores encontraram altas taxas de falhas e poucas evidências de que haviam dissuadido as forças iraquianas na medida em que se acreditava inicialmente.

Em outubro de 2019, o Exército pagou US$ 11,5 milhões à Northrop Grumman e US$ 23,3 milhões à Textron para o desenvolvimento de novas minas antiveículos, de acordo com um centro de pesquisa e desenvolvimento de armas do Exército em Nova Jersey. Naquela época, o valor total dos dois contratos era estimado em quase US$ 60 milhões.

Em 1997, mais de 120 países assinaram a Convenção de Ottawa banindo minas terrestres antipessoal que explodem indiscriminadamente. Os Estados Unidos não foi um deles, e justificou a decisão citando a necessidade de usar minas ao longo da fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, e continua não sendo um dos 164 países que agora fazem parte do tratado.

"Como essas políticas podem ser justificadas, sabendo que tantas pessoas decidiram que essas armas não têm lugar nos combates de guerra e o que essas armas fazem com pessoas de todo o mundo?", perguntou Rachel Stohl, especialista em controle de armas do Stimson Center, grupo de pesquisa não partidário. "É incompreensível." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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