Ilustração de Shannon Lin/The New York Times
Ilustração de Shannon Lin/The New York Times

Millennials buscam equilíbrio entre trabalho e vida

Pesquisa de uma empresa de contabilidade e consultoria concluiu que, para esta geração, o trabalho é uma tarefa, não um lugar

Claire Cain Miller e Sanam Yar, The New York Times

24 de outubro de 2019 | 06h00

Quando Ariel Coleman, de 28 anos, deixou o seu emprego anterior de gerente de projetos de um banco, não foi porque o seu novo empregador lhe ofereceu um aumento de salário ou uma função mais elevada. “O equilíbrio entre trabalho e vida é muito melhor”, afirmou

Na nova companhia, Omfgco, uma firma de gestão de marcas e design de Portland, en Oregon, todos os funcionários trabalham em casa às terças e quintas-feiras, no horário de sua preferência.

No banco, ela contou, as pessoas a criticavam porque ela estava ausente nas horas de expediente. Na Omfgco, isto é encorajado. “Aqui, o que vale é: faça o seu trabalho e não se preocupe com os horários”, disse. “Um cliente me chama às 20h e eu fico feliz de conversar com ele, porque isto significa que, amanhã, às 10h da manhã, vou poder levar o meu cachorro para passear. Isto permite que a minha carreira esteja mais integrada com a minha vida. É o que faz com que as pessoas se sintam mais humanas", continuou. 

Muitas das suas amigas escolheram os seus empregos por motivos semelhantes. “É o que fazem a geração Z e a do Milênio – nada de correr atrás de títulos, e sim dos melhores ambientes de trabalho. Nós somos combatentes silenciosos, reescrevemos a política debaixo do nariz dos Baby Boomers”.

Para muitos americanos, trabalhar tornou-se uma obsessão:  longas horas no expediente e aspirar incessantemente a algo mais alto. Mas, cada vez mais, os jovens trabalhadores estão pisando no freio.

São sempre mais numerosos os que esperam e pedem flexibilidade – licença maternidade paga e um generoso período de férias, e também coisas do dia a dia, como a possibilidade de trabalhar fora do escritório, de chegar mais tarde ou sair mais cedo, ou ter tempo para a academia ou a meditação. O resto da sua vida se passa ao telefone, e não presa a um lugar ou a um horário determinado – por que teria de ser diferente? Os jovens trabalhadores de hoje foram chamados de preguiçosos e arrogantes. Ao contrário, acaso não serão eles os primeiros a compreender o verdadeiro papel do trabalho na vida – e acabar reformulando a rotina do trabalho para todos os outros?

“Eles mostraram que não precisam estar no escritório das 9h às 17h para serem eficientes, nada disso”, destacou Ana Recio, vice-presidente executiva da área de recrutamento global da empresa de tecnologia Salesforce. “Esta geração está preparando sozinha o caminho para que a força de trabalho como um todo cumpra as suas obrigações fora do escritório e de maneira flexível".

Uma pesquisa da empresa de contabilidade e consultoria, PwC, concluiu que para a geração do milênio, o trabalho é uma tarefa, não um lugar. O estudo aponta que flexibilidade significa moldar as próprias funções de maneira a adequá-las à vida de todos os dias. Isto poderá significar trabalhar sem estar presente no escritório ou mudar de horário quando necessário. Mas isto é ainda raro nas companhias, e quem apela por esta mudança em geral são os funcionários de formação superior, de colarinho branco.

Os pesquisadores constataram que nem todos os jovens pedem estes benefícios, mesmo que os queiram, porque  temem ser considerados preguiçosos ou desleais. E quando buscam uma vida mais equilibrada, frequentemente se dão conta de que as empresas tradicionais não concordariam com isto.

Flexibilidade

Entretanto, as companhias de pesquisa concluíram que, para os jovens, a flexibilidade é uma das condições na hora de pleitear um emprego. Em um levantamento realizado entre 11 mil trabalhadores e 6.500 diretores de empresas formados pela Escola de Administração de Empresas de Harvard e do Boston Consulting Group, a grande maioria disse que entre as novas medidas que afetarão mais urgentemente os seus negócios estão as expectativas dos empregados de um melhor equilíbrio entre vida e trabalho e de um trabalho autônomo e flexível. Apenas 30% disseram que as suas empresas estão preparadas para isto.

Exigir que os empregadores tratem bem os empregados faz parte do sistema de valores da geração de trabalhadores mais jovens, que tem formação diferente, afirmam pesquisadores e recrutadores. “A Geração Z é muito consciente socialmente e muito progressista, e pede coisas que as gerações mais antigas tiveram medo de pedir”, comparou Ana Recio.

Por outro lado, muitos jovens viram os pais lutando com empregadores inflexíveis. A geração do milênio foi a primeira educada por mulheres que ingressaram no mercado de trabalho em grandes números nas respectivas profissões. Muitos jovens adultos viram os pais perder o emprego durante a crise financeira em 2008. Eles não esperam uma vida inteira de lealdade a um empregador; por isso, alguns afirmam que não querem dar toda a sua vida ao trabalho.

“Anos atrás, a entrevista era um teste, na falta de um termo melhor”, disse Kamaj Beiley, que trabalha em recrutamento na companhia de eletricidade Con Edison. “Agora, é uma conversação. Sim, quero mostrar que sou um bom candidato, mas também estou avaliando se poderei conseguir o que pretendo”.

Ariel disse que tudo se resume ao seguinte: os membros da sua geração não estão dispostos a aceitar a maneira como as cosas sempre foram feitas. “Nós estamos cansados disso e ansiosos por reivindicar  as coisas de que necessitamos”, destacou. “Estamos mudando as regras. Somos nós que estamos sendo procurados para a tarefa. Vamos mudar o sistema para que todos tenham sucesso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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