David Maurice Smith para The New York Times
David Maurice Smith para The New York Times

Projeto de mineração investe bilhões no carvão apesar de riscos ao planeta

Projeto de mineração na Austrália ajuda a explicar por que o mundo continua a queimar carvão

Somini Sengupta, Jacqueline Williams e Aruna Chandrasekhar, The New York Times

25 de agosto de 2019 | 06h00

SYDNEY, AUSTRÁLIA - Fazia anos que a vasta e inexplorada reserva de carvão no nordeste da Austrália era o objeto do desejo da gigante industrial indiana Adani Group. Em junho, quando as autoridades australianas concederam à empresa aprovação para extrair carvão da reserva, elas abriram as portas para que a Adani concretizasse seus planos para uma cadeia de fornecimento de carvão que abrange três países.

O carvão da operação australiana, conhecida como projeto Carmichael, seria transportado à Índia, onde a empresa está construindo uma nova usina de energia de quase US$ 2 bilhões para a produção de eletricidade. Essa energia seria vendida ao país vizinho, Bangladesh, mesmo enquanto os cientistas alertam para a necessidade de reduzir a queima do carvão para evitar os efeitos mais desastrosos da mudança climática.

A história da Adani e do seu projeto australiano ilustra as razões que levam o mundo a seguir na queima do carvão, apesar dos riscos. Os subsídios para usinas de energia abastecidas a carvão quase triplicaram nos anos mais recentes nos países do G-20, de acordo com estudo do Overseas Development Institute e dois outros grupos. Nos países ricos, isso ajudou o carvão a se manter em circulação. Nos países em desenvolvimento, o carvão prospera com esses subsídios.

Gautam Adani, fundador do Adani Group, avaliado em US$ 14 bilhões, diz que o carvão é alvo de críticas injustas. “A Índia não tem escolha", disse ele na sede da empresa, em Ahmedabad, Índia. Independentemente de a Índia ter ou não uma escolha, o império de minas, cargueiros, portos e usinas de energia de Adani depende muito do carvão. E ele investiu muito em esforços para garantir que o fim do carvão esteja distante.

Antes da realização de uma eleição nacional em maio, representantes da empresa apresentaram aos habitantes da zona rural de Queensland, segundo maior estado da Austrália, a ideia segundo a qual eles teriam muito a ganhar com a abertura da Bacia da Galileia, a jazida de carvão que o Adani Group queria explorar. A empresa fez doações a organizações comunitárias, fez doações de campanha a políticos e contratou ex-assessores de políticos para que fizessem lobby em seu nome.

Os mercados nas economias asiáticas em rápido crescimento, que têm grande apetite por energia, fizeram do carvão uma das principais exportações da Austrália. Mas a preocupação com a mudança climática fez desse um tema polêmico na política australiana. O projeto Carmichael se tornou símbolo desse cisma.

Com a aproximação das eleições, o país foi castigado por ondas de calor, secas e incêndios florestais cada vez mais associados com a mudança climática, e pesquisas de opinião revelaram que a maioria do eleitorado desejava medidas mais duras por parte do governo. Os políticos conservadores alertaram que, se a Austrália desse as costas ao carvão, a economia do país seria duramente afetada.

Quando chegou o momento de votar, em 18 de maio, os australianos decidiram manter no poder a coalizão conservadora da situação. Em questão de dias, a ideia da mina de Carmichael ganhou força. Primeiro, o estado de Queensland teve de chegar a um acordo envolvendo o porto da Adani em Abbot Point, onde a empresa era acusada de logar volumes excessivos de sólidos, categoria que inclui o carvão, perto da Grande Barreira de Coral (a empresa negou as irregularidades e prometeu ser mais atenta no monitoramento do saneamento do local).

Então, o estado emitiu uma autorização que há muito era adiada por causa do destino de uma ave ameaçada. Pouco depois, Queensland aprovou o plano Carmichael. A chave para o sucesso da Adani na Índia foi diferente. Ali, a empresa prosperou com a ajuda do estado.

Com terras do governo do estado de Gujarat, a empresa construiu o maior porto privado do país na cidade de Mundra, no oeste da Índia, e bem ao lado, ergueu a maior usina privada de carvão do país. Em seguida, a empresa construiu portos ao longo do litoral indiano.

Construiu também uma relação sólida com Narendra Modi, o homem que, em 2001, se tornou o líder eleito de mais alto escalão em Gujarat e, em 2014, se tornaria o primeiro-ministro da Índia. Quando o preço do carvão aumentou, alguns anos atrás, a empresa obteve um alívio incomum por parte das autoridades indianas: a possibilidade de cobrar dos clientes mais do que o valor originalmente contratado. A empresa argumentou que, sem a tarifa mais alta, seria impossível manter a usina em funcionamento.

Separadamente, o Diretório Indiano de Espionagem Fiscal acusou a empresa de cobranças abusivas contra os clientes pela importação de carvão e equipamento. A agência perdeu o processo em um tribunal alfandegário e está agora recorrendo da decisão. Alguns dos maiores benefícios para a empresa foram os benefícios do governo associados à nova e imensa usina de carvão em construção na Índia, perto da cidade de Godda.

O carvão da mina Carmichael seria queimado ali, dizem executivos da empresa. O terreno da usina, comprado pelo governo em meio a arrozais, abrigava alguns dos agricultores mais pobres da Índia. Um vídeo feito com celular nessa época mostra mulheres gritando aos pés de um representante da empresa, pedindo a ele que poupe suas terras.

A usina de energia de Godda é única porque será construída como parte de uma zona econômica especial. Mas, diferentemente de outras zonas desse tipo, onde as fábricas produzem mercadorias sem impostos para a exportação, esta vai gerar eletricidade destinada à exportação. Seria a única zona econômica especial do país contendo apenas uma usina de energia. E isso só foi possível após uma mudança nas regras indianas no início de 2019, permitindo que o projeto da Adani avançasse.

Para a empresa, isso representa um ganho significativo. Ela seria isenta de vários tributos, incluindo aqueles incidentes sobre o carvão e o equipamento importados. O projeto também recebeu a aprovação de um empréstimo de aproximadamente US$ 700 milhões do credor estatal que financia as usinas de energia e de outro empréstimo de US$ 700 milhões de outra empresa estatal criada para ajudar a trazer eletricidade aos vilarejos indianos.

Mas essa usina não se destina a abastecer um único vilarejo indiano. A energia gerada em Godda seria exportada para Bangladesh, país situado em um delta de baixas altitudes. Os habitantes do entorno da usina não receberiam nada da sua energia, apenas a poluição resultante.

O acordo de exportação de eletricidade foi anunciado por Modi em visita a Bangladesh em 2015. A Adani fazia parte da delegação dele. Para os críticos, o acordo só foi possível graças à ajuda do governo. “Se oferecermos subsídios suficientes, qualquer atividade se torna viável", disse Tim Buckley, analista do Institute for Energy Economics and Financial Analysis. “Se eles não recebessem um tratamento especial na Índia, não poderiam usar o caro carvão australiano de maneira viável.” TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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