Minerais podem desequilibrar guerra comercial entre EUA e China

Minerais podem desequilibrar guerra comercial entre EUA e China

As empresas chinesas dominam partes importantes da cadeia de fornecimento global

Alexandra Stevenson, The New York Times

24 Julho 2018 | 10h00

KUANTAN, MALÁSIA - Amanda Lacaze apanhou o iPhone e começou a listar os nomes dos minerais especiais necessários para a sua fabricação. A tela é polida usando lantânio e cério. No interior há um ímã feito de neodímio e praseodímio.

É quase certeza que esses minerais vieram da China. O trabalho de Amanda é proporcionar ao mundo uma fonte alternativa, para o caso de uma guerra comercial fugir ao controle e a China interromper seu suprimento.

No momento, ela não consegue cumprir essa tarefa. Sua empresa, Lynas Corporation, pode proporcionar apenas uma fração dos minerais - conhecidos como terras raras - que a China produz.

O governo Trump fez novas ameaças de imposição de tarifas para os produtos chineses, e a China ameaçou fazer o mesmo, vingando-se por cada dólar cobrado. Mas a potência asiática tem outras maneiras de fazer sua retaliação. O país poderia se recusar a comprar produtos americanos, intensificar a vigilância das atividades das empresas americanas ou ameaçar a venda de seu imenso portfólio de títulos da dívida americana, algo que agitaria o mercado de obrigações.

E, usando uma de suas armas mais estratégicas, Pequim poderia interromper trechos fundamentais da cadeia mundial de fornecimento. A China é a maior fornecedora de materiais fundamentais para o funcionamento das fábricas do mundo, incluindo os terras raras.

Uma guerra comercial traz o risco de colocar esses minerais no centro do conflito, com o potencial de conferir à China uma maneira de afetar os Estados Unidos como resposta e interromper o fornecimento. Os terras raras já estão envolvidos no conflito - constavam na longa lista de produtos chineses que o governo Trump pretende tributar, divulgada este mês.

A China já usou seu controle dos terras raras para impor sua vontade antes. Em 2010, uma disputa territorial com o Japão levou à interrupção da exportação para o país. “Há um buraco na cadeia de suprimentos ocidental", disse Ryan Castilloux, fundador da firma de pesquisas Adamas Intelligence.

Os terras raras são encontrados em eletrônicos de uso pessoal como smartphones, televisões e secadores de cabelo, e também nos carros híbridos e elétricos. Não são de fato raros - o nome designa 17 elementos encontrados juntos em todo o mundo. Mas transformar os minerais em materiais úteis é um trabalho complicado, sujo e caro.

O refinamento de terras raras é feito em larga escala em apenas dois lugares: a China, e a usina da Lynas em Kuantan, Malásia. A empresa extrai os terras raras de um vulcão desabado na Austrália e os envia a Kuantan para refinamento.

A construção da usina quase quebrou a Lynas. Em junho de 2014, a empresa lutava contra um endividamento de US$ 450 milhões. Problemas de projeto retardaram o início da produção em capacidade plena.

Amanda, que agora ocupa o cargo de diretora executiva, promoveu um corte de custos. Negociou com os credores, entre eles uma agência do governo japonês que tinha investido na Lynas por temer o monopólio chinês da indústria. Ela diminuiu o aluguel e as despesas gerais com o fechamento do escritório central da empresa na Austrália e a transferência da empresa para a instalação da Lynas em Kuantan.

Numa visita recente, os técnicos da Lynas misturaram um concentrado de terras raras em tanques químicos de extração dos elementos. Após uma série de etapas, o pó cor de rosa resultante foi transferido para caixas e aquecido a 1.000°C.

Mais de 150 sacos de neodímio, praseodímio e cério jaziam no chão do armazém. Seu conteúdo é precioso; cada saco de neodímio e praseodímio vale cerca de US$ 50 mil.

A Lynas se tornou lucrativa, mas, para Amanda, uma guerra comercial seria mais uma ameaça do que uma oportunidade. Pequim poderia tirar os terras raras do mercado, privando os fabricantes dos materiais de que necessitam.

A Lynas não seria capaz de compensar a ausência da produção chinesa. De acordo com a Adamas, a empresa malaia foi responsável por apenas cerca de 12% da produção mundial de terras raras no ano passado. As empresas chinesas foram responsáveis por mais de 80% dessa produção.

“Se houver uma guerra comercial direta, não vejo por que os chineses deixariam de usar seu monopólio dos terras raras para sua própria vantagem”, disse Amanda. Se a China quisesse limitar o suprimento de terras raras, “o país poderia fazê-lo da noite para o dia, literalmente".

Diante dessa perspectiva, as empresas têm buscado alternativas. A Tesla Motors, por exemplo, usou brevemente motores que não empregam terras raras após a alta de preços de 2010. Isso prejudicaria os negócios da Lynas.

Mesmo sem afetar o fornecimento, é provável que a China mantenha seu controle do mercado de terras raras.

“Acredito que haja cerca de 100 doutores trabalhando em projetos de pesquisa com terras raras na China, ou no desenvolvimento de tecnologias e aplicações para esses materiais", disse ela. “Até onde sei, tem ideia de quantos pesquisadores trabalham nessa área fora da China? Zero.”

Para os outros países, isso significa que a dependência em relação à China não vai mudar tão cedo, disse ela.

“Não é algo que me assuste”, disse Amanda, “mas talvez assuste os governantes".

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