Todd Heisler/ The New York Times
Todd Heisler/ The New York Times

'Minha missão é espalhar positividade', diz artista plástico Sir Shadow

As obras de Thomas Allen Paxton, conhecido como Sir Shadow, estão nas casas de famosos como Oprah Winfrey e Whitney Houston

Alex Vadukul, The New York Times

10 Janeiro 2019 | 06h00

Em uma rua de Nova York chamada The Bowery, há uma velha espelunca fantasmagórica. Ruidosas multidões passam para o brunch na frente de suas janelas ornadas com vitrais e portas duplas trancadas. É um lugar solitário, mas não está vazio. Os radiadores zunem no saguão. Chaves empoeiradas que há muito ninguém usa estão penduradas atrás do balcão da recepção.

Corredores escuros levam a centenas de quartos, vazios, salvo pelos colchões gastos. Alguns cubículos estão cheios de roupas e objetos variados. Mas pode-se ouvir uma canção de ninar no edifício onde um artista e poeta de 70 anos, que se denomina Sir Shadow (Sombra), está desenhando.

Sir Shadow é um dos seis últimos hóspedes fixos do Hotel Whitehouse. O edifício de quatro andares que desmorona aos poucos é um dos últimos hotéis baratos com quartos para solteiro que, há cem anos, surgiam de ambos os lados da Bowery entre bordéis e saloons.

Enquanto a diária dos quartos no Hotel Bowery, em frente, custa cerca de US$ 400, aqui os homens não pagam mais que US$ 8,50 por seus cubículos apertados, embora sejam praticamente os donos do lugar. Enquanto Sir Shadow cantarola em busca de inspiração, sua mão fina vai se movendo sobre o bloco de desenho com um marcador de prata, esvoaçando delirantemente. A elegante silhueta, formada por uma única linha contínua, retrata um saxofonista. Os seus músicos são abstrações sem rosto. “Eu sou um médico e este é o remédio dos meus pacientes”, ele disse. “Meu remédio é a positividade”.

Sir Shadow chegou ao hotel por volta de 1995. Com cerca de dois metros de altura, ele dorme em diagonal para caber no seu cubículo sem janelas. Raramente visto sem o seu chapéu fedora, ele se desloca pelo bairro de motoneta elétrica. Define como Flowetry o estilo de uma única linha dos retratos dos calendários que ele vende. Dizem que Quincy Jones, Lauryn Hill, e Diana Ross são seus fãs. Quase todos os corredores e quartos do Hotel Whitehouse têm um mural de Sir Shadow. Até as chaves atrás do balcão da recepção são marcadas com as suas silhuetas.

“Este edifício é a minha tela. Estes desenhos são os meus guerreiros. Eles me trazem paz”. Mas o santuário de Sir Shadow parece destinado a ter o mesmo destino da maioria das espeluncas da Bowery, que se transformaram em restaurantes e hotéis. Os homens que continuam vivendo ali, são protegidos pelas leis da habitação. O despejo tornou-se um processo complicado.

Sir Shadow e seus colegas remanescentes têm entre 60 e 70 anos: Wayne, Roland, Rob, Bobby e Charles. Trocam resmungos entre si quando se encontram. Sir Shadow disse que a prefeitura tentou fazer com que aceitassem algum acordo. “Todos ficamos pensando: pegar o dinheiro ou não pegar? Ir embora ou ficar? Agora somos os últimos resistentes”.

Mas as raízes de sua vida artística estão no edifício, inaugurado em 1916. “Talvez eu conseguisse este quartinho no Hotel Whitehouse, mas ele me oferece liberdade. Não posso ter um emprego. Isso acabaria com o meu fluxo de criação. Um sujeito com um milhão de dólares não tem o que eu tenho”, Sir Shadow é o nome artístico de Thomas Allen Paxton, nascido em 1949. Cresceu no Queens, e abandonou os estudos quando estava no curso secundário. Nos anos 1970, fez parte do movimento da contracultura em San Francisco. O idílio acabou quando o seu irmão, um ex-preso, morreu em Queens. Então teve uma revelação. 

“Foi aí que eu me dei conta de que a minha missão é espalhar positividade por meio da minha arte”, afirmou. Aboliu o nome de nascimento. “As pessoas sempre me perguntam qual é o nome que minha mãe me deu. E eu respondo: ‘Ela me deu um nome, mas eu escolhi outro’. Tudo o que é real na vida tem uma sombra. E eu lido com a sombra de nós todos”.

A sua metamorfose se concluiu, e ele começou a penetrar no cenário da arte negra nos anos 1990. Os seus trabalhos estão nas casas de Isaac Hayes, Oprah Winfrey e Whitney Houston, segundo um artigo de jornal. Também estão expostos em restaurantes de comida soul, como Sylvia’s e Londel’s, no Harlem.

Outro toque surreal na sua vida é a relação com a família Durst, uma das mais poderosas dinastias do setor imobiliário de Nova York. Anita Durst é a fundadora da Chashama, uma organização artística sem fins lucrativos, e Sir Shadow se tornou o seu primeiro artista, em 1995. “Nós tentamos algumas coisas, mas não funcionaram para ele”, ela contou.

Ao mesmo tempo, o futuro do hotel agora parece depender de um inexorável jogo de espera. “Às vezes, acredito que talvez a missão esteja concluída”, disse Sir Shadow. “Acho que ajudei o mundo a tornar-se um lugar melhor. Fiz o que o universo me pediu para fazer.”

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