Elisabetta Zavoli para The New York Times
Elisabetta Zavoli para The New York Times

Ministro italiano critica sucesso musical de filho de imigrante

Matteo Salvini desaprovou rap de Alessandro Mahmoud, que ganhou o Festival da Música Italiana

Jason Horowitz, The New York Times

06 de abril de 2019 | 06h00

MILÃO - Alessandro Mahmoud ganhou recentemente um ambicionado prêmio italiano de música com seu rap “Soldi” (Dinheiro), com sabor de Oriente Médio. A letra lembra que o pai egípcio “tomava champagne durante o Ramadã” ou que, quando ele brincava no playground, costumava chamá-lo para casa em árabe.

Mas a canção não agradou particularmente ao ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini.“#Mahmood.......hum.......Essa é a mais linda canção italiana?!?”, tuitou Salvini quando o resultado saiu, em fevereiro. Logo depois, um membro do seu partido, a Lega, que é contra o ingresso de imigrantes, propôs uma lei que limita a transmissão de canções estrangeiras nas rádios. 

Desde então, Mahmoud, cujo nome artístico é Mahmood, se encontra no centro de um debate nacional sobre o que significa ser italiano em uma época em que, afirmam os críticos, o político mais poderoso do país parece incentivar o racismo e a xenofobia - não só contra novos imigrantes, mas também contra os legais que vivem na Itália há anos. Alessandro Mahmoud, 26, nasceu e cresceu  nos arredores de Milão de mãe sardenha, que conheceu seu pai egípcio em um café onde ela trabalhava.

Menino ainda, ele contou, ouvia música árabe com seu pai, até que este foi embora quando ele tinha cinco anos. Cursou o ensino básico em Milão ao lado de meninos russos, chineses e de outras nacionalidades. Cresceu ouvindo introduções suaves no piano e os ‘crescendo’ cantados a plenos pulmões da tradição melódica italiana contemporânea.

Segundo o cantor, Salvini “provocou comentários ignorantes”, como o de pessoas que perguntam como é possível que um egípcio ganhe o primeiro prêmio do Festival da Música Italiana de Sanremo, uma instituição venerada pelos italianos. Salvini retruca que os seus inimigos políticos acabam se desacreditando taxando-o de racista ou fascista por tudo o que ele fala ou faz, inclusive suas preferências por este ou aquele cantor.

Mas depois que o ministro manifestou a sua frustração com o resultado do festival, em que um júri especial derrubou o voto do público italiano, um parlamentar do Partido da Liga propôs um projeto de lei que exige que pelo menos um terço das canções tocadas nas rádios sejam italianas. A proposta da Liga  teve o apoio de alguns dos principais expoentes do cenário musical italiano que parece congelado em outro século.

“Na Itália, temos cerca de 80% de músicas estrangeiras e talvez 20% de músicas italianas”, disse Albano Carrisi, um cantor italiano mais conhecido como Al Bano. (As estatísticas mostraram que cerca da metade das canções do rádio são italianas.) Ele classificou Mahmoud na categoria dos cantores italianos, mas a canção de sucesso do rapper era uma questão à parte.

“É cantada em italiano”, disse Carrisi. “Mas a música italiana é outra coisa. Não é isto’. Jacopo Tomatis, um especialista em música italiana e também autor, discordou. Na sua opinião, há uma clara continuidade entre as canções que ficaram conhecidas pelo grande público durante o fascismo e os sucessos do pós-guerra com os quais os italianos construíram sua identidade musical.

O significado central da “italianidade” da música do país é algo irônico, ele disse, porque “a música popular italiana sempre foi uma elaboração de estilos estrangeiros”. Este caráter estrangeiro é celebrado de maneira mais explícita por italianos como Mahmoud e Ghali Amdouni, outro astro italiano em ascensão de origem tunisiana.

Em seu sucesso “Cara Itália”, ele fala em seu rap: “Quando eles me falam para voltar para casa, eu respondo que já estou na minha casa”. “Agora, nós precisamos compreender o que é música italiana”, disse Alessandro em um bate-papo recente à mesa de um café. “Ela não pode ser sempre a mesma coisa. A vida é dinâmica. A música italiana precisa de novos pontos de vista”.

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