Mauricio Lima para The New York Times
Mauricio Lima para The New York Times

Miséria e desespero assolam refugiados que chegam a ilha grega

Dois anos após a Turquia e a União Europeia fecharem um acordo para impedir que requerentes de asilo cruzassem o Mar Egeu, milhares de pessoas definham sob condições deploráveis em Lesbos

Iliana Magra, The New York Times

05 Abril 2018 | 15h00

Jahangir Baroch passou mais uma noite insone no contêiner de metal na ilha grega de Lesbos, onde vive há mais de um ano.

“Não havia eletricidade no contêiner, na noite passada”, queixou-se Baroch, 26, em um centro de refugiados, distante do seu acampamento em Moria. “Parecia uma geladeira”.

“Quero ir para Atenas”, afirmou Baroch, que vem da província do Baluchistão, no Paquistão. “Se eles não me quiserem, quero ir para outro país”.

“Por que estou aqui?”, perguntou.

Outros fazem a mesma pergunta, dois anos depois de a União Europeia assinar um acordo  com a Turquia para fechar a rota através do Mar Egeu aos que buscam asilo, muitos impelidos pelas guerras na Síria, Iraque e Afeganistão. Desde então, milhares ficaram perdidos em Lesbos, não querendo voltar  aos países que haviam deixado, incapazes de ir em frente, para a oportunidade que esperavam encontrar na Europa. Entretanto, embora menos numerosos, os migrantes continuam chegando.

Os que têm sorte, aqueles cujos pedidos de asilo foram aceitos, são enviados para a Grécia continental. Os outros, cujos pedidos são recusados (eles podem apresentar novo pedido), são enviados de volta para a Turquia no âmbito de um acordo com a União Europeia. 

As autoridades gregas analisam os casos com enorme lentidão, às vezes levam meses, enquanto estas pessoas permanecem presas em condições que o papa Francisco comparou às de um campo de concentração.

A escala da crise que os levou a Lesbos pode ser medida pelas pilhas de coletes salva-vidas  descartados, que ainda poluem a ilha. Mas cada vez mais ela é marcada pelo desespero.

Cerca de 5.500 pessoas estão retidas em Moria, cerca de 2.500 a mais do que o campo pode comportar. A chuva encharca as barracas, falta eletricidade e água quente nos chuveiros, mesmo no inverno. Mesmo ruim, a comida acaba. As filas para tudo são intermináveis. As brigas explodem constantemente. A violência, o furto e o estupro são ameaças contínuas.

Às vezes, os homens racham lenha e acendem um fogo nas barracas para tentar se aquecer, provocando acidentes. Três pessoas morreram por causa disso em Moria, no ano passado.

“Mesmo que você tenha saúde, em Moria terá problemas”, disse Amir Ali, um jovem de 27 anos de Herat, Afeganistão, que morou em Moria mais de 11 meses.

“Aquilo não é lugar para colocar pessoas”, afirmou. “A polícia não consegue controlar o campo”.

Ele deixou Moria, encontrou emprego como empregado doméstico e depois como alfaiate; alugou uma casa em Mytilene, a capital de Lesbos, onde escolheu ficar, quando o seu pedido de asilo foi aceito.

Outros foram enviados pelo Estado a uma espécie de campo, que não era muito melhor, nos arrabaldes de Moria, em uma plantação de oliveiras.

Ali Zaid, 23, um iraquiano de Babilônia, mora ali há mais de cinco meses. Ele deixou o Iraque para fugir do Estado Islâmico, depois que seu irmão foi morto.

Ele mostrou o chuveiro fora da casa, uma mangueira, mesmo com o inverno terrível na região do Egeu.

“Muito frio, muito frio, muito frio”, disse em seu vocabulário limitado.

Alguns perderam a esperança de que seus pedidos sejam aceitos e estão desesperados para sair.

Um argelino de 20 anos, Anas, contou que tentou sair da ilha várias vezes por conta própria, em caminhões que estavam sendo embarcados em navios rumo a Atenas. Certa vez, foi descoberto pelos soldados.

“Todos os dias estou aqui”, falou. ”Às vezes, tento, outras não. É difícil sair”.

Para as mulheres do campo, a situação frequentemente é pior. Uma mulher de 30 anos do Afeganistão contou que, quando chegou, uma noite se perdeu no escuro e acabou nos bosques de Moria, onde um homem a estuprou. Ela foi para a polícia, mas lá, a mandaram de volta para Moria. “Queria me matar”, ela contou.

Desde janeiro, somente 64 pessoas foram devolvidas para a Turquia. Entretanto, chegaram mais 2.690 pessoas na ilha. Algumas nem fugiam da guerra; buscavam apenas uma oportunidade, a liberdade.

“A gente pensa no futuro”, explicou Isaac Hielo, um homem de 29 anos da Eritreia, que disse que sua família morrera de AIDS.

Ele tem alguma esperança?

“Sim”, afirmou com um sorriso. “Amanhã é um outro dia, não é?” / Mauricio Lima contribuiu com a reportagem.

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