Thomas Deerinck, NCMIR/Science Source
Thomas Deerinck, NCMIR/Science Source

Mistérios da demência frustram estudos de cientistas

Maioria das pessoas com demência tem várias anomalias cerebrais, não apenas a doença de Alzheimer

Gina Kolata, The New York Times

25 de abril de 2019 | 06h00

Allan Gallup, empresário e advogado aposentado, se tornou cada vez mais esquecido nos seus últimos anos de vida. Finalmente, não conseguia mais lembrar como usar o computador e a televisão. Os médicos disseram que ele tinha mal de Alzheimer. Assim, depois que Gallup morreu, em 2017, aos 87 anos, seu cérebro foi enviado para a Universidade Washington, em St. Louis, Missouri, para ser examinado.

Mas não era apenas Alzheimer. Ainda que o cérebro de Gallup apresentasse todas as marcas características, o tecido também continha acúmulos de proteínas chamados corpos de Lewy e indícios de derrames silenciosos. Cada um desses fatores é uma causa da demência.

O cérebro de Gallup era típico de um paciente com demência: quase todos eles apresentam uma mistura de anormalidades cerebrais. Para aqueles que buscam algum tipo de tratamento, essas chamadas patologias cruzadas são um imenso problema. Os pesquisadores não sabem dizer qual dessas condições é responsável pela perda de memória de um paciente em particular, ou se o responsável é o conjunto delas.

Outra possibilidade, destacada por Roderick A. Corriveau, diretor dos programas de pesquisa em demência do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrames, é que essas anormalidades sejam os efeitos de uma causa ainda não descoberta para a demência. Outros vilões possíveis incluem o acúmulo de alfa-sinucleína, a proteína anormal que forma os corpos de Lewy, derrames silenciosos (não detectados) e males dos glóbulos sanguíneos. E alguns pacientes apresentam outra proteína anormal no cérebro, TDP-43.

Ninguém sabe ao certo como começar a abordar a multitude de outros problemas potenciais encontrados no cérebro dos pacientes com Alzheimer. Assim, até recentemente, eles eram em geral ignorados. Mas “chega-se a um ponto em que temos de ser um pouco mais realistas e repensar o que estamos fazendo”, disse Albert Hofman, presidente do departamento de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública T.H. Chan, de Harvard.

O problema começou com a descoberta do mal de Alzheimer. Em 1906, Alois Alzheimer, psiquiatra e neuroanatomista alemão, descreveu uma mulher de 50 anos sofrendo de demência. Na autópsia, ele encontrou placas peculiares e proteínas retorcidas, semelhantes a um espaguete, amontoadas no cérebro dela. Essas foram consideradas as características definidoras do mal de Alzheimer.

Os cientistas acreditam agora que essa mulher deve ter sido portadora de uma raríssima mutação genética garantindo que a pessoa desenvolva uma forma pura do mal de Alzheimer quando chega à meia-idade. Mas, durante décadas, placas e amontoados de proteínas foram o foco das pesquisas envolvendo a demência.

As raras mutações genéticas levaram a uma superprodução de amiloides, as proteínas anormais nessas placas. Isso parecia indicar que os amiloides seriam a principal causa do mal de Alzheimer. Os pesquisadores testaram medicamentos capazes de atacar os amiloides ou impedir sua produção em camundongos, e o remédios funcionaram muito bem. Assim, foi grande a frustração quando esses remédios fracassaram nos testes clínicos envolvendo pacientes.

Os testes de medicamentos contra as placas continuam, apesar de se admitir cada vez mais a influência de muitos fatores no desenvolvimento de um quadro de demência - ou mesmo que a causa verdadeira ainda não tenha sido identificada. Os cientistas enfrentam dificuldades para reinterpretar o problema. Para alguns, as pesquisas deveriam se concentrar mais na idade.

A epidemiologista Carol Brayne, da Universidade de Cambridge, diz isso a décadas. De acordo com ela, há algo de significativo na crescente probabilidade de desenvolvimento da demência conforme a pessoa fica mais velha. Ao chegar aos 90 anos, uma em cada quatro pessoas tem demência.

Uma possibilidade mais otimista diz que pode haver no cérebro algo que desencadeie uma série de patologias. Se isso for verdade, a interrupção desse fator pode deter a demência. Hofman está convencido que o fator responsável por precipitar o mal é a redução na circulação sanguínea no cérebro. “O mal de Alzheimer é uma doença vascular", disse ele.

De acordo com ele, essa opinião é embasada em dados de nove estudos realizados nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, observando consistentemente uma queda de 15% na incidência de novos casos de Alzheimer nos 25 anos mais recentes. Ele disse que o fator mais importante foi a queda no tabagismo. Seth Love, professor de patologia da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, destacou que uma característica central do mal de Alzheimer é uma redução no fluxo de sangue que passa pela parte do cérebro conhecida como telencéfalo.

Isso ocorre até mesmo nas pessoas portadoras da mutação genética que faz com que o mal de Alzheimer surja já na meia-idade. Quinze ou 20 anos antes de essas pessoas apresentarem demência, a circulação do sangue em seus cérebros é reduzida. “Não sabemos por quê", disse Love. Alguns pesquisadores ainda esperam que, se o tratamento com os medicamentos que combatem os amiloides for iniciado cedo o bastante, isso poderia impedir a demência. No momento, testes clínicos tentam determinar se essa ideia é viável.

Mas quando é o momento de intervir, e quem são os melhores candidatos para o tratamento? Será que os cientistas precisam encontrar remédios para todas as outras patologias nos cérebros de pacientes com demência? “É o momento certo de dedicar nossa atenção a essas perguntas difíceis", disse Dan Skovronsk, diretor científico da empresa farmacêutica Eli Lilly. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.