Série 1 via The New York Times
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Fábricas de carros e motos agora estão produzindo bikes elétricas

Elas veem oportunidades com a pandemia e o desejo das cidades de reduzir o tráfego impulsionado as vendas de bikes elétricas para novas altas recorde

Roy Furchgott, The New York Times - Life/Style

25 de março de 2021 | 05h00

O setor de transportes está olhando o futuro, e o futuro é 1895.  Naquele ano, Ogden Bolton Jr., de Canton, Ohio, recebeu a patente 552.271 dos Estados Unidos para sua "bicicleta elétrica". Mais de um século depois, e muitas mudanças, as bikes elétricas vêm se tornando populares à medida que fábricas de motos e automóveis como Ducati, Harley-Davidson, Jeep, Mercedes Benz, Porsche e Yamaha se inserirem no mercado com seus próprios designs.

Se por um lado a pandemia de coronavírus acelerou as vendas de bikes, o que atrai mais é o fato de as cidades em todo o mundo começarem a restringir o tráfego de veículos a motor. E as companhias estão apostando que as e-bikes serão os veículos urbanos de amanhã – ou pelo menos veículos para uma boa publicidade hoje.

“Nos últimos 12 a 18 meses observamos muitas marcas novas chegando ao mercado”, disse Andrew Engelmann, gerente de vendas e marketing da Yamaha, que entrou no negócio de bikes elétricas em 1993, contabilizando dois milhões de bicicletas elétricas vendidas em todo o mundo. “Nos Estados Unidos não víamos essa nova energia com relação à bicicleta desde que Lance Armstrong venceu o Tour de France”.

Isto tudo por causa da pandemia que inflamou as vendas de bikes de todos os tipos, mas especialmente as e-bikes. Enquanto as vendas no varejo de bicicletas, de janeiro a outubro do ano passado, aumentaram 46% em relação ao ano anterior, as vendas de bikes elétricas subiram 140%. Em dólares, o aumento foi de 67% no caso das bicicletas comuns e 158% das e-bikes. Esses dados, dos pesquisadores de mercado da NPD, não incluem as vendas de lojas on-line, como a Rad Power Bikes, de maneira que o resultado na verdade é ainda maior.

Há uma conexão histórica entre bicicletas e motocicletas. Muitas motos antigas vieram de fabricantes de bicicletas que simplesmente colocaram um motor numa bike, com frequência mantendo os pedais, no estilo de um ciclomotor.

A ligação da bicicleta com o setor automotivo é mais recente, com fabricantes como Malcolm Bricklin e Lee Iacocca introduzindo as bikes elétricas nos anos 1990. Ambos fracassaram. O design de Iacocca, típico na época, tinha o problema de usar bateria de chumbo com um alcance de 25 quilômetros e uma velocidade de 24 quilômetros por hora. Muitas montadoras, incluindo a Ford, Audi, Maserati e BMW entraram e saíram do negócio com e-bikes desde então.

“Nenhuma montadora teve sucesso com a venda de bicicletas elétricas”, disse Don DiCostanzo, diretor executivo da Pedego Electric Bikes, que em 2014 licenciou seu projeto de bikes para a Ford. “É ouro dos tolos. Ela nunca vai substituir o lucro de um carro”.

Mas as fabricantes de carros e motos estão entrando nesse negócio. “Acho que estão vendo muito da mesma oportunidade que observamos”, disse Ian Kenny, que dirige o departamento de e-bikes na empresa Specialized. “Acho que há uma grande diferença entre mostrar que você consegue fazer algo e fazer algo bem em escala”.

Mas as mudanças na maneira como as pessoas se deslocam, especialmente na Europa e na Ásia, vêm atraindo as montadoras que operam internacionalmente. No exterior, cidades com problemas de poluição e ruas congestionadas vêm restringindo o tráfego de veículos a motor e as e-bikes, com frequência, preenchem a necessidade.

“Na Europa, a e-bike é um meio de transporte fundamental”, afirmou Dirk Sorenson, analista da NPD. Londres, Madri, Oslo e Paris estão entre um número crescente de cidades restringindo o tráfego nos centros.

Com a pandemia, cidades americanas vêm testando restrições similares. Boston, Minneapolis e várias cidades da Califórnia já instituíram programas limitando o tráfego de veículos a motor nas vias secundárias, favorecendo a bicicleta e a caminhada. Até a UPS, Amazon e DHL têm feito experiências com bikes elétricas de carga em Nova York.

“É uma enorme oportunidade para as e-bikes nos Estados Unidos, um mercado imenso inexplorado”, disse Rashed Zarif, especialista em tecnologia de mobilidade na empresa Deloitte.

Algumas empresas se preparam agora para a possibilidade dessa “micromobilidade” se popularizar aqui.

“Vamos imaginar que a Harley-Davidson não seja uma companhia de motos, mas de mobilidade”, disse Aaron Frank, diretor de marca da Serial 1, que fabrica uma e-bike em parceria com a Harley. “Há um forte argumento que podemos apresentar para as pessoas que viajam para ir e voltar do trabalho que foi usado pela Harley para suas motos”.

Outras empresas olham as e-bikes como uma entrada para vender seus produtos primários. Embora seja mais conhecida por causa das motos, a Ducati North America quer que as e-bikes “potencialmente chame atenção para a Ducati”, disse Jason Chinnock, diretor executivo da companhia.

As bicicletas elétricas podem ser mais caras que as bicicletas comuns, mas são mais baratas do que os carros e as motos. E o motor aprimorado, como também a tecnologia das baterias, estão levando a uma queda dos preços. E-bikes baratas com um motor no eixo de roda – similar ao design de 1895 – podem ser encontradas por US$ 1 mil. Preços de versões mais complexas, com engrenagens dos pedais motorizadas podem chegar a mais de US$ 10 mil.

“Gastar US$ 1 mil numa bicicleta parece exagero, mas quando você não a olha como um brinquedo, mas um meio de transporte, a conversa é outra”.

O preço não é o único obstáculo. As e-bikes se defrontam com uma confusão terrível de leis. Embora a Comissão de Proteção do Consumidor qualifique as e-bikes de “baixa velocidade” (com um motor equivalente a um cavalo ou menos) como bicicleta, ela estabelece quem deve decidir onde essa bicicleta pode ser usada.

“Cabe aos 50 Estados dos EUA definirem o uso e este foi o grande problema no passado”, disse Claudia Wasco, gerente da Bosch eBike, importante fabricante de motores.

A coalizão PeopleForBikes elaborou um projeto de lei estadual modelo para permitir mais e-bikes em pistas e parques para bicicletas. E sugere três classes de bicicletas elétricas com uma velocidade máxima entre 32 e 45 quilômetros por hora. Cerca de 28 Estados adotaram alguma versão do projeto de lei.

Para alguns do setor, isto tem algum vestígio do déjà vu. Nos anos 1970, as pessoas achavam que havia um boom de bicicletas pressagiando um novo futuro para o transporte. Mas não. Embora houvessem muitos fatores contribuindo para isso, as estradas construídas não eram propícias para as bicicletas e as pessoas não queriam chegar ao trabalho suadas.

Com a combinação de programas como as Slow Streets, que resolvem o primeiro problema, as bicicletas elétricas que solucionam o segundo e uma pandemia que tem dado às pessoas a chance de se adaptarem a ambos os casos, especialistas como Zariff estão esperançosos.

“Quando você dá às pessoas a oportunidade de tentarem alguma coisa, isto reduz a resistência a mudanças. Como sociedade, a realidade é que vamos avançar – e não retroceder”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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