Kirsten Luce para The New York Times
Kirsten Luce para The New York Times

Quando as buzinas param, a vida ganha mais ritmo

Ônibus agora trafega mais livremente e com mais agilidade por rua de Nova York escolhida para experimento da prefeitura

James Barron, The New York Times

30 de outubro de 2019 | 06h00

O ônibus tinha toda a Rua 14 só para ele. O motorista buzinou para um caminhão de entregas e se espremeu para passar ao lado de outro. E os carros? Apenas um, um Uber que esperava para virar à direita enquanto as pessoas hesitavam no cruzamento. O ônibus seguiu rapidamente.

Sua viagem acelerada foi possível graças a algo inaudito que está acontecendo em Nova York: toda uma rua importante que percorre Manhattan inteira, livre dos automóveis.

Um experimento agressivo de reengenharia urbana da prefeitura - novas normas de trânsito que proíbem em grande parte a circulação de automóveis por um trecho de um quilometro da Rua 14 - está se revelando uma verdadeira transformação.

Obrigar os carros a sair da rua transformou a linha de ônibus M14, a mais lenta da cidade, em uma via onde eles podem circular a velocidades com as quais os passageiros de outros itinerários só podem sonhar.

O mais espantoso não foi apenas a corrida, mas a vista ao longo da rua. Sentados em um ônibus que se dirigia para o lado oeste da cidade, pudemos ver todo o trajeto da Primeira à Terceira Avenida, ou seja, dois quarteirões de Manhattan, sem trânsito algum.

Na Rua 14, os carros desapareceram em grande parte, mas havia os ônibus. Muitos ônibus azuis compridos. Às vezes, eles se juntavam, como se estivessem andando em bloco.

Havia também longos minutos em que a rua estava maravilhosamente vazia. “Esta é a coisa mais incrível que eu já vi em muito, muito tempo”, escreveu uma pessoa no Twitter, postando um vídeo de 15 segundos sem um automóvel em ambas as direções. Outras comemoraram no Twitter uma rua que de repente ficou “relaxante,” sem o barulho das buzinas dos carros. E no entanto, esta é Nova York. O que é relaxante para uma pessoa é “esquisito” para outra, como Rafael Sanchez definiu a Rua 14.

Sanchez, um porteiro de Manhattan que mora perto do Estádio dos Yankee, no Bronx, esperava os dois filhos, que estavam no M14 e voltavam da escola.

“Definitivamente, é uma viagem mais rápida”, disse Tyler, seu filho de 13 anos, ao descer e abraçar o pai. Eram 15:44. E Silvia  Kahley contou que agora leva apenas 16 minutos para voltar da casa da amiga Jessica Glogover, “enquanto antes levava 25”.

Jessica concordou, afirmando que proibir o tráfego de automóveis acabou com um engarrafamento perpétuo. “Às vezes, a gente ficava parada por cinco minutos”, afirmou. “Agora, o caminho é livre”.

As autoridades estão satisfeitas com os primeiros resultados. Oficialmente, as normas dizem que os motoristas só podem trafegar pela Rua 14 para fazer entregas e pegar ou deixar passageiros das 6 da manhã até as 22 horas, sete dias por semana. Mas depois de uma quadra ou duas, precisam sair da rua.

Segundo o Departamento de Transportes Metropolitanos, que opera os ônibus, os encarregados já estão preparando um novo horário para dar conta dos ônibus mais rápidos.

Diariamente, 21 mil veículos circulavam pela Rua 14, e 28 mil pessoas viajavam de ônibus. Agora, com os da linha M14 andando livremente, as autoridades esperam poder atrair mais passageiros, o que reverteria a redução gradativa do número de passageiros nos transportes públicos da cidade.

Corridas mais rápidas na Rua 14 também fazem uma diferença em outras linhas, como Lashawb Owens explicou recentemente. Ele queria um M14 mais rápido para o Harlem depois de um dia de trabalho muito longo.

“Faço turnos dobrados”, disse. “E agora estamos 15 minutos adiantados. Fantástico”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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